O incremento na aplicação de doses de calcário nas lavouras mato-grossenses assegura que produtores rurais, tanto na agricultura quanto na pecuária, consigam maior produtividade e renda em suas respectivas atividades. É o que comprova pesquisa desenvolvida pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) de Sinop, liderada pelo professor Doutor Anderson Lange. Em entrevista à Equipe de Comunicação do Crea-MT, o Engenheiro Agrônomo dá detalhes da sua pesquisa.

Gecom-Quando teve início sua pesquisa e porquê o calcário?

Prof. Dr.Anderson Lange– A pesquisa surgiu há cinco anos, em 2014. O calcário é a matéria-prima mais utilizada para correção da acidez do solo e como fonte de cálcio e magnésio na agricultura, por ser um produto de origem natural, abundante e com reservas, distribuídas em diversos Estados. Os solos brasileiros são, em sua maioria, ácidos e necessitam de correção com calcário para que as culturas se desenvolvam melhor. Por este motivo, a agropecuária tem por conduta realizar a correção do solo.

Gecom-Onde a pesquisa foi realizada e o que ela constatou?

Prof. Dr.Anderson Lange- Os estudos foram desenvolvidos em uma propriedade rural, há cerca de 20 quilômetros da UFMT de Sinop, às margens da BR-163, e no próprio campus, onde plantas são cultivadas em vasos numa estufa monitorada. A aplicação convencional adotada por produtores no Estado é de 2 a 2,5 toneladas de calcário por hectare cultivado, em superfície. Mas a prescrição agronômica ideal, conforme aponta a pesquisa científica, pode chegar a 5 toneladas de calcário ou mais, buscando elevar a saturação por bases do solo a 70%. Essa superdosagem eleva a produção, preservando o solo. Os resultados apurados mostram que, no caso da soja, por exemplo, a ampliação em 2 vezes a dose tradicionalmente aplicada por hectare pode resultar num aumento de produtividade de até 10 sacos por hectare. Em áreas mais carentes esse ganho de produtividade pode ser ainda maior, se houver um bom manejo da lavoura.

Gecom-Como é possível afirmar que com essa superdosagem o solo continua preservado?

Prof. Dr.Anderson Lange- Todo o desenvolvimento dos pés de soja é mensurado, sistematicamente, por professores e pelos alunos que auxiliam no trabalho científico. Quatro safras depois da aplicação de altas doses de calcário em campo, os resultados da aplicação de uma dose dobrada ainda ficam evidentes: pés de soja com mais vagens, mais ramos, redução no nível de abortamento nas plantas, com o chamado “efeito cimento” ampliado, que significa vagens mais “pregadas” à planta, mais firmes. O estudo também aponta que o calcário dolomítico foi e é largamente utilizado no nosso Estado o que pode ter levado alguns solos a um desbalanço entre os nutrientes cálcio e magnésio. Assim o calcário calcítico que contém maior porcentagem de cálcio pode melhorar a relação Ca/Mg no solo – e por isso é mais benéfico -, trazendo melhores resultados ao tipo de solo mato-grossense. Acrescento inclusive que existe um suposto medo de que o excesso de calcário em superfície provoque danos ao solo e consequentemente às plantas – o que leva ao temor de que prejudique a fertilidade do solo. E, os Boletins de Recomendações orientam para que se eleve o V% (Saturação por Bases) para 50 ou 60, e que não se aplique mais que 2 a 2,5 toneladas de calcário por hectare em superfície. Mas, pelos resultados obtidos evidenciamos que o prejuízo à fertilidade é apenas um mito. A falta de calcário, no entanto, afeta a produtividade das lavouras.

Gecom-Então pode-se afirmar que quanto mais calcário maior a produtividade?

Prof. Dr.Anderson Lange- Apesar das grandes empresas já utilizarem dozes maciças e frequentes de calcário, ainda falta conscientização da grande maioria dos agricultores e pecuaristas quanto a real importância da calagem correta do solo.  Deixar o solo carente significa perdas que demoram para serem recuperadas. Calcário a mais na lavoura não é luxo ou exagero. É garantia de mais renda para o produtor.

*Jornalista Rafaela Maximiano Foto:Divulgação

Equipe de Comunicação do Crea-MT