Com 26 minutos, o mais recente podcast da série “Conselho Profissional”, que trata do dia-a-dia da atuação dos profissionais do Sistema Confea/Crea e Mútua, abordou o papel da Engenharia Clínica no combate à pandemia Covid-19 (coronavírus), por meio do planejamento, da gestão, qualidade e da segurança dos equipamentos hospitalares. À jornalista Daiane Cortes, o presidente da Associação Brasileira de Engenharia Clínica (Abeclin), Alexandre Ferreli, e o do vice-presidente da entidade e empresário da área, eng. clin. Ricardo Maranhão descortinaram o papel da área no atual momento de crise.

Ao início da conversa, o presidente da Abeclin considera ser “muito bom poder levar os esclarecimentos a todos os engenheiros que hoje estão atuando em serviços de saúde ou dando suporte a eles, e até mesmo arriscando as suas vidas”. Segundo Ricardo Maranhão, já no final do podcast, devido ao coronavírus, os administradores hospitalares querem instalar novos leitos e equipamentos.

“Nós fazemos essa interface com os profissionais da saúde para atender a essa demanda que a gente vê que está cada vez maior, ajudando dentro dos hospitais nesse combate ao coronavírus. Nós nos sentimos como um profissional da saúde, embora não sejamos reconhecidos como um profissional da saúde, o que é uma das nossas lutas. Estamos contribuindo com esses outros profissionais, em prol desses pacientes e também em risco, para que a gente consiga passar isso com a maior rapidez possível”.

 

A Engenharia Clínica

Formado em engenharia eletrônica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com MBA em Engenharia da Manutenção, especialidade em Engenharia de Segurança do Trabalho e mestrado em Engenharia Biomédica pela mesma universidade, além de especialidade em Engenharia Clínica pela Universidade Albert Eisnten, Alexandre Ferreli é autor da obra “Gestão da Manutenção em Serviços da Saúde”. Atua como professor do referido MBA.

 

Segundo ele, a função do engenheiro clínico é fazer a gestão do parque tecnológico, vendo a aquisição, manutenção, calibração, descarte, “tudo isso para poder zelar pelo uso seguro do equipamento para o paciente. Quando a gente precisa de um ventilador ou até de um medidor de pressão, é graças ao trabalho do engenheiro químico  que o equipamento vai dar uma resposta confiável e segura para o médico fazer o seu uso corretamente”.

 

Ações e quadros do Covid-19

No atual momento, em relação à crise do Covid-19, “uma das ações foi preparar o parque para esse quadro porque essa epidemia se propaga muito rapidamente e atinge uma população idosa que precisa de tratamento em unidades de terapia intensiva com uso de ventilador. Nenhum país está preparado para essa emergência, que extrapolou a normalidade. Os engenheiros clínicos estão tentando tornar todos os equipamentos operantes, como respiradores, ventiladores, equipamentos de monitoração, bombas difusoras, entre outros”.

 

O engenheiro clínico comentou a situação dramática da Itália, onde o acesso a respiradores por pessoas com mais de 80 anos está sendo limitado. “Como ser humano, considero essa situação horrível. Agora, como profissional, às vezes é um pouco frustrante porque desejamos salvar vidas e a gente vê que, por uma limitação de equipamentos, você não consegue fazer melhor. Os engenheiros clínicos estão deixando operacionais alguns equipamentos com defeitos. Temos alguns gargalos, que as equipes de manutenção, fabricantes e terceiros não estão conseguindo atender à demanda. Estamos vendo o gerenciamento de risco e outras opções, por exemplo, transformar uma sala cirúrgica em UTI. Isso envolve eu fazer certas restrições à anestesia, mudar a climatização e a ventilação da sala, de  pressão positiva para pressão negativa. Outra opção é colocar um ventilador para ventilar quatro pessoas, através de adaptação, o que tem uma série de restrições”.

 

Riscos e intercâmbio com a Itália

Em relação ao risco de contaminação, em atos como a intubação de pacientes, Alexandre Ferreli considera que os riscos são minimizados, mas permanecem. “Sempre tem o risco de contaminação, mas como você está em um ambiente controlado, que utiliza filtros e a pressão é negativa, você consegue minimizar esses riscos. Outro ponto é o próprio cuidado com os engenheiros que trabalham na manutenção, com os equipamentos de proteção individual e procedimentos adequados, tanto no hospital, como fora dele. Outro ponto é a restrição de visitas comerciais ou manutenções desnecessárias para evitar a circulação desnecessária de pessoas  na unidade, e acompanhar o que está acontecendo no resto do mundo”.

Alexandre aponta que a Abeclin está em contato com a Associação Italiana de Engenharia Clínica e com outras entidades internacionais para tentar compartilhar soluções. “Na Itália, eles estão muito cansados, trabalhando 24/7h mas nos passaram a necessidade de manter os equipamentos operacionais, estudar soluções para atender às demandas, preparar o gerenciamento de risco para transformar salas cirúrgicas em UTIs, não espalhar o pânico entre as pessoas e apoiar todas as atitudes que estão sendo feitas. Precisamos deter a expansão da contaminação para que o sistema de saúde possa atender aos novos casos de contaminação e também as doenças endêmicas da região. Mas o fato é que eles têm uma demanda até 100 vezes superior à quantidade de leitos disponíveis nos hospitais”.

Recomendações da Abeclin

Por meio de um comunicado, a Associação Brasileira de Engenharia Clínica respondeu aos profissionais que procuravam a entidade,  recomendando até mesmo o afastamento daqueles com problemas pulmonares. “Informamos à pessoa física como ela poderia se proteger, lavando as mãos, mantendo distância social, evitando sair. Depois, nós nos preocupamos em passar sugestões para o gerenciamento de risco nas unidades de saúde onde pode haver a contaminação interna, absenteísmo, faltar mão de obra, faltar equipamentos. Porque o hospital continua funcionando, e você tem toda uma condição de infraestrutura, especialmente elétrica, medicinais e equipamentos que nesse momento são essenciais. Hoje nós temos algumas diretrizes da Organização Mundial de Saúde sobre a importância de os engenheiros clínicos interagirem com as outras engenharias e com o Comitê de Infecção Hospitalar para determinar os controles de acesso e também os EPIs necessários para cada setor”.

Vice-presidente da Abeclin, Ricardo Maranhão aponta detalhes sobre a atuação da área diante de um de seus maiores desafios

Cuidado ampliado

Já o vice-presidente da Abeclin, engenheiro eletricista  Ricardo Maranhão,  ressalta que o que se constata nesse momento é um cuidado maior, não propriamente uma mudança. “Já fazíamos uma ronda interna para avaliar a operação dos equipamentos. Nesse momento de contingência, a gente precisa se atentar se os equipamentos críticos estão funcionando adequadamente. Isso já era um procedimento nosso, mas agora há uma preocupação maior nessa ronda, então nossos profissionais de engenharia clínica estão mais atentos com o objetivo de deixar todos os equipamentos operacionais para salvar vidas”.

 

Situação inédita e papel das engenharias

Há 24 anos atuando na área em 80 hospitais e clínicas de todo o país, Ricardo Maranhão é professor da área em universidades como a PUC-GO. Pós graduado em Administração Hospitalar pela USP, em Agentes de Inovação Tecnológica pela Faculdade Cambury e em Políticas Públicas Baseadas em Evidências pelo Instituto Sírio Libanês, Ricardo Maranhão é mestre em Saúde Pública com ênfase em Gestão de Tecnologias em Saúde pela ENSP – Fiocruz, tendo exercido a função de gerente de Engenharia Clínica da secretaria de Saúde de Goiás. Coautor do livro “Segurança do Paciente: conhecendo os riscos nas organizações de saúde”, ele conta que ele nunca imaginou uma situação tão grave, como a vivenciada atualmente.

“A gente nunca imaginou essa situação. Mas o que o engenheiro faz hoje é o que ele sempre fez, tornando os equipamentos mais seguros e dando às equipes de saúde um equipamento adequado”.  Ele aponta que, nas unidades de saúde, há a atuação de outros profissionais do Sistema Confea/Crea. “Temos também outras atuações de engenheiros mecânicos, civis e outros na manutenção desses hospitais. Cada vez mais os hospitais precisam dos engenheiros para deixar a tecnologia disponível para os profissionais da saúde, nosso mote é que os engenheiros também ajudam a salvar vidas”.

Ricardo ressalta que a atuação dos engenheiros clínicos se volta não apenas para a manutenção, mas a toda a gestão hospitalar. “Eu já estou tendo essa demanda maior por conta do coronavírus. A gente participa da compra, da incorporação de novas tecnologias, da instalação desses aparelhos, e depois a gente tem que se preocupar com o treinamento desses profissionais da saúde e também temos que acompanhar a usabilidade desse equipamento médico. E apenas depois, há a manutenção, mas o nosso campo de atuação é muito maior do que apenas a manutenção dos equipamentos”.

Fonte: Confea