Apesar do significativo impacto dos movimentos ambientalistas na agenda internacional, deflagrada oficialmente na década de 70 com a Conferência de Estocolmo (1970), estendendo-se gradualmente nos anos subseqüentes até a realização da Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento – Conferência do Rio (1992), pode-se ainda constatar um déficit de políticas ambientais de caráter global e baixa internalização de ações ‘ecologicamente corretas’ no plano individual e coletivo, face a crise ecológica sem precedentes nesta virada de milênio. Apresenta-se ainda hegemônica a crença no progresso material e expansão ilimitada da capacidade produtiva do homem – lógica que proporciona a livre mercantilização de bens e valores produzidos socialmente, constituindo o substrato ideológico da razão instrumental na cultura moderna. De modo paradoxal, a desintegração do socialismo soviético, as exigências de reestruturação do capitalismo e os limites da exploração do meio ambiente, puseram fim às utopias centradas no desenvolvimento industrial e o ideal de felicidade que este anunciava. Já não há como desconhecer a gravidade dos problemas ambientais globais, notadamente o aquecimento da terra, a depleção da camada de ozônio, perda de diversidade biológica, desertificação, poluição dos mares, enfim, um conjunto de fenômenos ambientais transnacionais. O impasse ecológico coloca de forma radical, a necessidade inadiável de se repensar as relações entre as sociedades humanas e a natureza, diante dos processos de reestruturação política, institucional e econômica que vem se configurando em escala planetária; cujas conseqüências são decisivas para os rumos da humanidade na aurora do terceiro milênio. A complexidade e incertezas do mundo contemporâneo, sobretudo a partir da década de 1980, com a aceleração da globalização, anunciam a indesejada guinada para o caos, caso não se estabeleça uma contratualidade ecopolítica mundial, um necessário comprometimento com o futuro, onde possam emergir padrões de sociabilidade em bases sustentáveis. A irrupção da crise ecológica global no último quartel do século XX, rompendo fronteiras nacionais e transbordando em global commons – notadamente os problemas derivados das mudanças climáticas – o chamado aquecimento global (global warming), dentre uma cadeia complexa de fenômenos intensificados pela revolução industrial, desde fins do século XVIII, e a crescente escassez de recursos estratégicos para a humanidade – como exemplo a água; tornou-se uma questão absolutamente fundamental que interroga as forças da sociedade moderna e desafia estruturas e processos de governança – do local ao global, diante do futuro sombrio e incerto, mas também utópico que anuncia o novo século. O espectro do comunismo com a queda do muro de Berlim e a derrocada do regime soviético, deu lugar ao espectro da desordem global da biosfera, cuja percepção na década de 1970, trouxe a consciência da necessidade de gerenciamento de problemas que afligem a todos indistintamente, ainda que com graus distintos de intensidade e impactos nas sociedades. As últimas décadas do século XX entraram para a história, como período marcado por transformações profundas e radicais na dinâmica do capitalismo mundial, acentuando as contradições de um modelo de desenvolvimento sob a ótica do fordismo-fossilista e do liberal-produtivismo que, ao promover a acumulação de riquezas; produz desigualdades sociais alarmantes entre indivíduos e nações, e consome vorazmente a base de recursos naturais existentes no planeta. O impasse ecológico contemporâneo representa a face dramática do esgotamento desse modelo, fundado na racionalidade instrumental, que gera padrões de produção e consumo insustentáveis e contribui para uma crise de civilização sem precedentes. Os efeitos desestruturadores da lógica hegemônica do capital sobre a natureza, transformada e recriada, na perspectiva da mercantilização e apropriação privada de bens (fruto do progresso material, domínio da técnica e da ciência); traz em seu bojo a pobreza e a destruição em escala progressiva dos ecossistemas terrestres, como produtos da abissal assimetria entre povos nos seus diferentes estágios de desenvolvimento. O domínio da razão instrumental, sobretudo nos períodos subseqüentes à dupla revolução (francesa e inglesa), moldou o processo civilizatório, sob a dinâmica da acumulação capitalista, intensificando os movimentos de expansão territorial e subordinação das formas de trabalho, dentro da lógica de ‘valorização’ do capital’. O modelo de desenvolvimento baseado em combustíveis fósseis, que conforma a voracidade energética intensificada na segunda metade do século XX, com o boom das economias industrializadas (capitalistas e socialistas), apesar da prosperidade econômica trazida para muitos; tem se mostrado insustentável para a sobrevivência do planeta como um todo. Neste sentido, a crise atual representa nada menos que o esgotamento de um estilo de desenvolvimento que tem se revelado ecologicamente depredador, socialmente perverso e politicamente injusto. No século XXI, não é mais possível minimizar os efeitos da crise ecológica, inserida dramaticamente na globalização. A “escassez ecológica” retrata a dramaticidade e extensão da crise da sociedade moderna. A finitude dos recursos naturais, algo menosprezado pela economia neoclássica, constitui-se num dado de realidade que não pode ser ignorado. A base ecossistêmica, que depende de tempo e condições orgânicas favoráveis para sua renovação, manifesta sobrecarga e responde trazendo ameaças para a reprodução das espécies como um todo. Contudo, parece haver uma certa lacuna nos estudos sobre os determinantes da crise socioambiental, que explicariam a insustentabilidade do estilo atual de desenvolvimento, sem relacionar e analisar de forma suficiente as implicações econômicas, sociais e políticas do processo de globalização, mais precisamente da intensificação recente, que descortina novos espaços para valorização do capital, acentuando as desigualdades e estabelecendo novos conflitos territoriais ou “distribuição ecológica” de conflitos. Com efeito, a crise ecológica contemporânea apresenta-se como um dos sinais mais visíveis da crise de civilização, impregnada e impregnando as dimensões políticas, econômicas, sociais, culturais, religiosas e éticas; assumindo uma importância crucial no projeto da crítica da modernidade e no horizonte da pós-modernidade. Alberto Teixeira da Silva (alberts@amazon.com.br) - Sociólogo (UFPA), Mestre em planejamento do desenvolvimento (NAEA/UFPA), Doutor em ciências Sociais (UNICAMP). Professor adjunto da Universidade Federal do Pará.