DISCURSO DE PARANINFO NA FORMATURA DO CURSO DE ENGENHARIA ELÉTRICA - UFSC - 2012.1
Florianópolis, 01/03/2013


Senhoras engenheiras eletricistas e senhores engenheiros eletricistas recém-formados:

A formatura da graduação é um dos momentos mais importantes da vida de qualquer pessoa. A data de hoje será lembrada por muitos e muitos anos. E eu estou sinceramente muito feliz por fazer parte disto.

No email que vocês me enviaram com o honroso convite para que eu fosse o paraninfo da turma havia uma frase que me deixou muito orgulhoso. Lá diziam vocês, que queriam ouvir de mim alguns conselhos nesta ÚLTIMA AULA da graduação. Fiquei muito honrado.  E não vou me fazer de rogado.

Tenho mesmo uns dez conselhos (ou recomendações) que os meus 54 anos de vida, meus 30 anos de Engenharia e pelo menos 15 anos ensinando e dando consultoria a profissionais de todas as idades me permitiram acumular. Aqui vão eles:


Recomendação Numero Um: Não dar ouvidos à conversa mole de que engenheiro recém-formado não sabe nada. Ou que sabe muito pouco.
É verdade que os senhores ainda têm muita coisa para aprender. Mas quem de nós não tem? Eu ainda tenho muita coisa para aprender, sobre a vida e sobre o meu trabalho. Seus professores também ainda continuam aprendendo coisas. Apesar de sermos bem mais velhos que os senhores, não sabemos tudo. Os senhores também não sabem.

Porém, o fato de não sabermos tudo não significa que não sabemos nada ou que o que sabemos é muito pouco.

Ao conceder a cada um dos senhores o grau de engenheiro a Reitora Roselane Neckel, em nome da Universidade, manifesta a convicção de que os senhores estão prontos para Exercício da profissão. Portanto, sabem o suficiente.

Os senhores sabem o suficiente para iniciar com competência e segurança as suas carreiras profissionais numa das áreas mais significativas para o desenvolvimento deste pais. E isto não é pouco.

Portanto, sigam em frente com confiança e com coragem.


Conselho número dois: Fazer Gestão da Carreira Profissional.
Existe uma frase, muito popular que diz "Aquele que não luta para ter o futuro que quer, deve aceitar o futuro que vier". Está corretíssimo.

O estilo Zeca Pagodinho de conduzir a carreira, na base do "deixa a vida me levar" é uma aposta de alto risco quando está em jogo a sua carreira profissional.

A primeira fase na carreira de um profissional é a fase de formação. Ela começa quando o jovem entra na faculdade e não termina com a formatura. Nos próximos dois ou três anos é preciso que os senhores mantenham, como se diz no Facebook, "um relacionamento sério com os livros e com os cursos de especialização e aperfeiçoamento". Isto dará solidez ao conhecimento e trará a segurança necessária para o crescimento profissional;

E os senhores passarão ainda por diversas outras fases da carreira até chegar a tão sonhada Realização Profissional.

Em cada uma dessas fases existem plantações e colheitas. E os senhores colherão de acordo com o que tiverem plantado.

Façam uma boa plantação. Planejem a safra. Tomem as suas carreiras sob seu controle. E os resultados serão positivos, sempre.

 

Este segundo conselho (o de planejar e tomar conta da própria carreira profissional) nos leva ao terceiro: Não levar em conta a remuneração na hora de escolher primeiro emprego.

Os senhores certamente já receberam, estão recebendo ou receberão propostas de emprego ou de oportunidades profissionais.

Resistam às propostas que resolvem problemas imediatos criando problemas para o futuro. Elas geralmente se apresentam sob a forma de empregos ou oportunidades onde a remuneração é alta e o aprendizado é nulo. São trabalhos onde os senhores terão suas capacidades conhecimentos e habilidades exploradas mas não desenvolvidas e ampliadas.

Neste momento de suas carreiras, senhores e senhoras, aprender mais é o que mais importa. Não caiam na armadilha de se transformar hoje nos desempregados do futuro. Escolham os empregos ou as oportunidades onde o aprendizado seja maior do que o salário. O futuro de cada um dos senhores agradece.

 

Recomendação numero quatro: Ampliar a cultura geral e a percepção social.

Um engenheiro não pode viver (e trabalhar) como se não existisse vida inteligente fora da Física, da Matemática, da Química e das suas tecnologias. Um engenheiro deve ter olhos para as ciências sociais. Precisa se dedicar a entender as pessoas e suas idiossincrasias. Não pode alimentar preconceitos nem ter o pensamento estreito.

Livros, shows musicais, teatros, museus, exposições e toda sorte de manifestação popular devem ser do nosso interesse. É isso o que nos torna especiais e úteis para a sociedade.

A sociedade sempre espera que o engenheiro tenha respostas. Soluções. E os engenheiros se orgulham disso. Mas as melhores respostas são produzidas pelas pessoas que tem mais horizontes, que enxergam mais longe, que têm uma percepção evoluída.

A cultura geral, o conhecimento das coisas do mundo e da sociedade é um patrimônio valiosíssimo na construção de carreiras vitoriosas.
 

Conselho número cinco: Respeitar a marca Engenharia.

Hoje, depois de 5 anos de estudos, os senhores finalmente conquistaram o direito à propriedade de uma marca importante: a marca ENGENHARIA. Os senhores poderão utilizar essa marca e explorar suas potencialidades comerciais.

Porém, como diz o personagem Rumplestiltskin, "toda mágica vem com um preço." E o preço de poder utilizar e explorar a marca engenharia é tornar-se um de seus guardiões. A marca é sua. Mas o senhor não é o único proprietário. Existem centenas de colegas engenheiros no Brasil inteiro que são seus sócios. Respeite esses sócios. Cuide para que o seu trabalho não diminua a importância e o valor da sua profissão.

Nunca fale mal nem desmereça a Engenharia. E evite falar mal de colegas engenheiros. Um engenheiro não deve ser o primeiro a jogar pedras num colega profissional. E isso não se chama corporativismo puro e simples. É lealdade. Lealdade àqueles que reconhecemos como iguais. Irmãos de profissão. Sócios.

 

Número seis: Ter a ética profissional como guia e mãe de todos os princípios.
Acreditem: mais do que um valor moral e de um conjunto de princípios positivos a ética profissional é bom para os negócios. É bom para a carreira profissional.

Infelizmente as senhoras e os senhores serão, muitas vezes, estimulados a resolver problemas de maneira mais fácil, transgredindo, aqui e ali, as regras da ética profissional.

Essas transgressões produzem, é verdade, facilidades e benefícios imediatos e tentadores.

Mas a transgressão à ética é como o uso de drogas: seus benefícios são de curto prazo. O tipo de vantagem, obtida com esses subterfúgios, produzem um barato momentâneo e contas salgadas para serem pagas adiante. E essa cobrança é representada por grandes dificuldades para seguir avançando nas etapas posteriores e, portanto, nos níveis mais elevados da carreira.


Número sete: Pode não parecer tão importante, mas é: Dar atenção a aparência. Vestir-se bem. Cuidar do visual e do vocabulário.
No inicio da década de 1980 a USTop, uma fabricante brasileira de camisas, usava um slogan que podemos repetir hoje como uma advertência valiosa: "O mundo trata melhor quem se veste bem".

Engenheiros costumam não dar muita importância para este "detalhe" por acreditarem que aparência não importa. Que eles serão reconhecidos e valorizados pela sua inteligência e pelos seus conhecimentos. Isto é verdade, mas só no longo prazo. No curto prazo, no processo da conquista das primeiras oportunidades, acreditem: aparência conta. A boa educação (geralmente representada pelo bom vocabulário) abre portas e colocará os senhores mais próximos das melhores chances de vitoria.


Conselho número oito: Aprender Administração
O conhecimento das técnicas de Administração irá ajudá-los a transformar a atividade profissional de Engenharia em um negócio. Mais do que isso: um bom negócio.

Não importa se o senhor ou a senhora será empregado ou empregador. O conhecimento das ciências que dão suporte à Administração (história, economia, geografia, psicologia, etc) serão úteis à sua carreira e os tornarão ainda mais úteis à sociedade.

 

Recomendação numero nove: Procurar uma entidade de classe (associação, clube, grêmio...) e ser um associado participante e ativo. O senhor matará três coelhos com uma única cajadada. (UM) contribuirá para o desenvolvimento da profissão; (DOIS) desenvolverá uma excelente atividade social, fará ótimos amigos, talvez até uma boa rede de relacionamentos profissionais; e (TRÊS) será visto, pela sociedade (leia-se "mercado") como um bom profissional, reconhecido entre os seus pares.

E isso é muito bom. Bom para a vida e bom para os seus negócios.

 

Finalmente, a recomendação número dez: Cuidar da saúde.

Muitos jovens não dão muita importância para este item por acreditarem , primeiro, que a saúde física, típica da juventude, é um bem eterno, que não acaba nunca; e, segundo, acreditam que o sucesso profissional conduz naturalmente à boa saúde.

Mas não é essa a relação de causa e efeito. É importante dizer aqui: a boa saúde não é eterna e é dela que decorre o sucesso. Vocês dependerão da boa saúde para obter tudo o mais.

Portanto, pratiquem esportes, bebam muita água, não exagerem em coisa alguma, alimentem-se bem, durmam o suficiente, façam visitas regulares ao médico e ao dentista, dediquem-se à vida com a família e aos relacionamentos com os amigos... enfim: cuidem-se bem.

Finalizo aqui com as palavras do físico e brilhante pensador Albert Einstein (escritas na página 29 do seu livro COMO VEJO O MUNDO, de 1953) e que eu e meus colegas da turma de 1986, utilizamos como epígrafe do nosso convite de formatura nesta mesma faculdade de Engenharia Elétrica da UFSC.

Diz Einstein: "Não basta ensinar ao homem uma especialidade. Porque se tornará uma máquina utilizável, mas não uma personalidade. É necessário que adquira um sentimento, um senso prático daquilo que vale a pena ser empreendido, daquilo que é belo, do que é moralmente correto.

A não ser assim, ele se assemelhará, com seus conhecimentos profissionais, mais a um cão ensinado do que a uma criatura harmoniosamente desenvolvida. Deve aprender a compreender as motivações do homens, suas quimeras e suas angústias para determinar com exatidão seu lugar exato em relação a seus próximos e à comunidade."

Tenho certeza, senhora Reitora e senhores membros dessa mesa de honra, que o curso de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Santa Catarina ensinou a esses jovens, que hoje recebem seus diplomas, muito mais do que apenas uma especialidade. Ensinou a eles (como me ensinou, na década de 1980) o valor das coisas realmente importantes. E tenho certeza também de que, no processo de Formação Continuada de cada um deles, que agora é uma decisão pessoal, não faltarão ingredientes de formação social, humanitária e comprometida com o desenvolvimento harmonioso da humanidade.


Muito Obrigado.