Existem algumas “pragas” no exercício profissional da engenharia e da Arquitetura. Elas são decorrência natural do “discurso da crise” e da “apologia do apocalipse”. Uma dessas “pragas” é a BAIXA AUTO-ESTIMA dos profissionais (cujas raízes vêm das salas de aula das universidades – mas isso já é outro assunto, aliás, amplamente discutido no artigo "Por que é que a gente é assim, publicado em 2002). Não é raro encontrar o profissional que executa, efetivamente o seu trabalho, mas não consegue cobrar pelo serviço o preço justo (e põe as culpas na crise!). É a submissão aos caprichos (muitas vezes absurdos) dos clientes (uma das conseqüências diretas da baixa auto-estima dos profissionais). Muitos clientes, por exemplo, querem aproveitar as brechas da lei para fazer obras que são legais porém imorais. Esses clientes precisam ser descartados, para o bem (a sustentabilidade) da cidade e da profissão. Isso vai custar a perda de um bom negócio, eu sei. Esse é o preço que se paga para construir uma profissão sustentável com dignidade. Outra praga terrível, que arrasa nosso ambiente profissional, são as BRIGAS INTERNAS. É Arquiteto brigando com Engenheiro Civil, que briga com Engenheiro Eletricista, que briga com os técnicos, que brigam com os Agrônomos... Enquanto o mundo lá fora segue o seu rumo. Sem nós! Muitas brigas internas entre profissionais do sistema nada mais são do que manifestações da nossa baixa auto-estima. É a falta de coragem para brigar com agentes externos que são os nossos verdadeiros “inimigos”. A INCOMPETÊNCIA também não deixa de ser uma praga considerável. Existem profissionais que, apesar de cobrar um preço razoável pelos seus serviços, não dão aos seus clientes um serviço com qualidade mínima e, com isto acabam por maltratar a imagem de todos os seus colegas. Esses acreditam no “fim dos tempos”: acreditam que não há vantagem alguma em trabalhar direito, pois todo mundo faz as coisas pela metade e não acontece nada e a impunidade é geral e o fim dos tempos está próximo... (esse tipo de discurso apocalíptico). Tentar vencer na vida usando truques, desvios, atalhos... é o caminho escolhido pelos que acreditam que “tudo está perdido!” Por fim, a mãe de todas as desgraças. A praga ética do ACOBERTAMENTO, que grassa de Norte à Sul do país. Esta é, certamente, a mais importante de todas as pragas das nossas profissões. Filha da incompetência e da leviandade. Afilhada da tolerância e da omissão dos honestos. O acobertamento se sustenta, principalmente, na omissão dos profissionais corretos. A solução me parece recordar a frase dita por Ulisses Guimarães no discurso de aprovação da Constituição Brasileira: “Não roubar. Não deixar roubar. E por na cadeia quem rouba”. O espírito dessa famosa frase deve ser trazido para o nosso exercício profissional: Não acobertar. Não deixar que nenhum colega acoberte. Denunciar e punir os que acobertam... E quando eu falo em punir os acobertadores não estou falando apenas na punição formal, oficial, decorrente de processos nas instâncias profissionais como entidades de classe, CREA ou CONFEA. Falo da punição moral que cada um de nós pode aplicar aos acobertadores conhecidos, negando-lhes espaço social e oportunidades na política profissional. O acobertador que não aceita o caminho da reintegração profissional precisa ser banido das nossas relações sociais. Engenheiros, Arquitetos e Agrônomos, no exercício de suas profissões precisam estar atentos a isso para não perder de vista suas imensas responsabilidades. Em última análise, somos responsáveis não apenas pelas obras que fazemos mas também pelas obras que não fazemos (e permitimos, por omissão, que sejam feitas por quem não sabe fazer direito) Deus nos deu alguns talentos e habilidades. A sociedade nos deu a oportunidade de desenvolvê-los. Todo Engenheiro, Arquiteto ou Agrônomo tem um compromisso com o mundo. É à sociedade, em última análise, a quem devemos essa retribuição. Lembremos sempre das palavras que dissemos no primeiro minuto de nossas carreiras de engenheiro, de arquiteto ou de agrônomo, no nosso juramento: "Prometo que, no cumprimento do meu dever de Engenheiro, não me deixarei cegar pelo brilho excessivo da tecnologia, de forma a não me esquecer de que trabalho para o bem do Homem e não da máquina. Respeitarei a natureza, evitando projetar ou construir equipamentos que destruam o equilíbrio ecológico ou poluam, além de colocar todo o meu conhecimento científico a serviço do conforto e desenvolvimento da humanidade. Assim sendo, estarei em paz Comigo e com Deus." Só isso! Ênio Padilha - engenheiro eletricista pela UFSC - pós-graduado em Marketing Empresarial pela (UNERJ – 1997)http://www.eniopadilha.com.br/