A soja e a questão chinesa

21 de agosto de 2012, às 15h12 - Tempo de leitura aproximado: 2 minutos

Compartilhar esta notícia

.
Por Sátyro Pohl Moreira de Castilho, engenheiro civil, presidente do Crea-MT. Em 07/06/2004.

O noticiário nos últimos dias mostra intensa discussão sobre a decisão do governo chinês de devolver carregamentos de soja do Brasil com índices de agrotóxicos além do desejado. O assunto levou o governo federal a afirmar que implantaria a “tolerância zero” na fiscalização dos grãos brasileiros. Em matérias de jornais também foi criticada a preocupação com a qualidade apenas da soja para exportação, enquanto o grão consumido no Brasil continua com análise às escuras.

O tema é essencial. Não entro no mérito das alegações dos governadores de Mato Grosso, Blairo Maggi, e Rio Grande do Sul, Germano Rigotto, que acusam o governo chinês de querer, na verdade, a quebra de contrato, usando – como pretexto – o tema ambiental e de saúde pública. A verdade é que um grão de soja contaminado com agrotóxico carrega em si uma história trágica. Se um grão está contaminado, é porque o meio ambiente onde estava plantado sofreu aplicação desmedida. É porque, também, as cidades próximas sofreram a poluição do ar com produtos químicos. É porque os recursos hídricos foram afetados.

Na verdade, o campo brasileiro – que merece toda credibilidade pelo desenvolvimento que produz para a economia nacional – ainda tem setores arcaicos, que se preocupam com a modernização aparente, lastreada em maquinários modernos, mas se esquecem da modernização consciente, que é o investimento em recursos humanos e em técnicas saudáveis e mitigadoras.

O governo federal precisa sim adotar a tolerância zero para os grãos, não apenas os que são voltados para exportação, mas para todos, sob pena de verificar o aumento da degradação ambiental no campo e nas cidades rodeadas por soja e similares. Penso que tal medida significa agregar valor ao produto nacional, que certamente ganhará qualidade e, conseqüentemente, competitividade.

Não sou engenheiro agrônomo e escrevo como consumidor, mas conversando com profissionais altamente qualificados da área agronômica fico sabendo que ainda ocorrem práticas de plantio duvidosas, que jogam para escanteio o conhecimento técnico para valorizar uma posição comodista de “atirar primeiro para perguntar depois”: ou seja, aplica-se defensivos exagerados mesmo antes da incidência da praga sob uma visão equivocada de precaução ou prevenção. Muitas vezes, contam-me profissionais da Agronomia, atira-se a bala de canhão onde um tiro de pistola resolveria. Certamente, mata-se a praga. Mas também mata-se insetos que comeriam a praga, contamina-se o solo, a água etc.

O setor agropecuário precisa encarar o lamentável episódio com o governo chinês de forma técnica e menos bairrista. Cuidados ambientais não são gastos: são investimentos. E esses investimentos garantem que a produção agrícola brasileira perdure e se fortaleça. A balança comercial do país, gorda de tantos grãos, precisa se equilibrar também ambientalmente. Se a intenção chinesa for mesmo quebra de contrato, certamente o país teria mais condições de argumentação se o produto realmente não tivesse o teor químico inadequado.

_________________

Este espaço é atualizado toda segunda-feira.