A potência de Geisel e Golbery
21 de agosto de 2012, às 15h12 - Tempo de leitura aproximado: 3 minutos
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Por Sátyro Pohl Moreira de Castilho, engenheiro civil, presidente do Crea-MT. Em 21/06/2004
Ernesto Geisel e Golbery do Couto e Silva, bem antes de terem o poder político brasileiro nos anos 70, participaram de uma ampla pesquisa que apontava a necessidade de divisão de Mato Grosso, então um Estado só de Ponta Porã a Aripuanã, para que o Brasil se mantivesse um território uno. Então na Escola Superior de Guerra, meados do século XX, ambos acreditavam que o potencial do imenso território mato-grossense, com sua diversidade ambiental e posição geográfica de destaque, formava um somatório intenso e perigoso.
Pode ser que esse pensamento, hoje, ganhe contornos exagerados, mesmo se olharmos o contexto geopolítico do pós-guerra. De qualquer forma, vale lembrar que a divisão do Estado foi imposta de cima para baixo e ocorreu justamente quando Geisel era presidente da República. Mesmo fervorosos defensores da divisão do Estado nos anos 70 já admitiram, em documentários, que a separação do território não foi fruto de uma conquista de convencimento populacional, mas sim uma imposição típica de governos ditatoriais.
Mas Geisel e Golbery, homens cultos reconhecidamente, tinham razão na previsão do que seria o potencial econômico dos dois Estados. Se somarmos a produção agropecuária de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul e pesarmos na balança comercial, temos noção do que as terras de Ponta Porã a Aripuanã representam para o país. Não se trata de discurso ufanista, mas certamente aqui há a conjugação de aspectos que permitem perspectivas amplas em termos de desenvolvimento.
Porém é claro que tais perspectivas precisam ser abordadas de forma técnica e responsável. Erra o administrador público que toma decisões sem a assessoria técnica competente. E erra o empreendedor que considera a presença do técnico apenas como uma exigência burocrática e, até mesmo, chata.
Logicamente, pensamos que o governo federal precisa investir em Mato Grosso, garantindo a infra-estrutura necessária para agregar valor à sua produção. Precisamos de maior facilidade para alcançar o mar, seja pelo lado Atlântico, seja pelo Pacífico, usando barcos ou trens ou trajetos mais rápidos de caminhão. Precisamos de políticas de incentivo que possibilitem a empresas que têm nossos produtos como insumos se instalarem no Estado. Precisamos de fortalecer nossos meios de pesquisa, nossas escolas de formação profissional.
Só que, até mesmo para cobrarmos tudo aquilo que precisamos, temos também que zelar pela responsabilidade na gestão do que temos. Não é segredo para ninguém que a riqueza em recursos hídricos no Estado está se deteriorando e que as possibilidades florestais estão se acabando pela ganância que reinou e que a fronteira agrícola avança não raro sem os comedimentos necessários e que… todos nós temos um rol de exemplos do quanto o Estado tem sido deteriorado em prol da lucratividade de cada um e do próprio país.
Deixar que os excessos sejam coibidos apenas pela fiscalização dos diversos órgãos é pedir para que se implante de vez a política da terra arrasada. Em qualquer país no estágio do Brasil os órgãos de fiscalização estão muito aquém em infra-estrutura do que o necessário. Por outro lado, há meios diversos judiciais para que uma multa efetivamente não seja paga ou seja protelada infinitamente. Do que o Ibama autuou ano passado, diz uma reportagem, menos de 10% foi realmente recolhido. E neste final de semana outra reportagem da imprensa mato-grossense revela que os carros dos órgãos de fiscalização estão sucateados.
A questão é de conscientização de cada um. Acredito que há avanços neste sentido, mas não sei se no ritmo necessário. O que quero dizer é que a pujança econômica de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, nos termos dos estudos de Geisel e Golbery, depende em muito da atuação dos profissionais do sistema Confea-Crea, ligados a profissões que se relacionam diretamente ao balanceamento das relações entre homem e meio. O Estado foi dividido territorialmente. O que não podemos deixar é que seja fracionado na consciência de cada um.
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