Grito do Cerrado
21 de agosto de 2012, às 15h12 - Tempo de leitura aproximado: 2 minutos
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Sátyro Pohl Moreira de Castilho, engenheiro civil e presidente do Crea-MT
O Grito do Cerrado aconteceu na semana passada, em Brasília, envolvendo entidades diversas e com – inclusive – a participação de índios xavantes. O evento conseguiu a promessa da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, de maior e melhor atenção para o cerrado brasileiro, considerado berço de águas no país. É no cerrado que estão as nascentes dos principais rios brasileiros, salvo exceções. Em Mato Grosso, na linha mediana do Estado, nascem rios que irão formar, de um lado, a Bacia Amazônica e, de outro, a Bacia do Prata.
Quem chega ao município de Alto Paraguai e verifica a situação do pequeno rio na entrada da cidade fica abismado: como esse rio consegue, com tanto assoreamento, ser o mesmo caudaloso de Corumbá? O mesmo pode ser dito em Alto Araguaia. Nesse caso, o rio Araguaia sai da região Sul de Mato Grosso e passa por voçorocas imensas, grandes erosões, que ocorrem pelo plantio indiscriminado às margens. E o rio Taquari? Também enfrenta assoreamento preocupante. E por aí vai…
Quando o governo federal, nos anos 70, formulou a política de ocupação de Mato Grosso por agricultores da região Sul do país não se preocupou, de forma contextualizada e aprofundada, com o impacto que a agropecuária almejada poderia desencadear no cerrado. Imensas áreas de terra, onde cresciam as plantas baixas e resistentes do cerrado, em poucos anos se transformaram em mares de soja, milho, arroz e, posteriormente, algodão e sorgo. Planta-se independentemente de nascentes hídricas. Pulveriza-se agrotóxico independentemente de estudos técnicos. Queima-se vegetação independentemente de qualquer apelo.
Mato Grosso cresceu, Goiás cresceu, Mato Grosso do Sul cresceu… Os grãos desses Estados são salutares para a balança comercial brasileira. Mas o fato é que esse desenvolvimento agrícola se fez em grande parte em detrimento ambiental. E a preocupação continua, já que organizações não governamentais denunciam a poluição de nascentes que abastecem o Parque Indígena do Xingu por causa da expansão da fronteira agrícola no leste mato-grossense.
Certamente, a culpa pelo quadro ambiental no cerrado não é do produtor apenas. Em maior parte é do poder público que não organizou a ocupação dessas terras e não fez um planejamento ambiental consistente. E sempre foi assim no país, com qualquer área econômica. O garimpo em Mato Grosso destruiu recursos hídricos e matas justamente porque o poder público lavou as mãos.
Enfim, importante foi o Grito do Cerrado. Espera-se que tenha sido suficiente para acordar o setor ambiental do governo federal. Espera-se que tenha sido alto o bastante para se fazer ouvir por todos aqueles que atuam direta ou indiretamente com o cerrado brasileiro.
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