CUIABÁ, CIDADE VENDE!
21 de agosto de 2012, às 15h12 - Tempo de leitura aproximado: 5 minutos
Ricardo S. Castor é mestre em estética da arquitetura pela Universidade de Brasília, doutorando pela Universidade de São Paulo e professor de teoria da arquitetura e do urbanismo da UFMT. castor@cpd.ufmt.br
Capital da poluição visual
Centro geodésico da propaganda predatória. Meca do marketing descartável. Eldorado da feiúra publicitária. A julgar pelas recentes transformações de nossa cidade, tais títulos lhe cairiam bem. Foi-se o tempo em que o verde dominava por aqui. Árvores, hoje, são muito bem toleradas, desde que não interfiram, é claro, na visibilidade dos anúncios comerciais que brotam feito praga ao longo das principais avenidas de Cuiabá. Refiro-me àqueles gigantescos painéis publicitários que se multiplicam a olhos vistos pelas rotatórias e canteiros centrais da cidade, constituindo-se, alguns, em espaçosos televisores a céu aberto. Ao transformarem o espaço urbano num gigantesco home-theater, bombardeiam incessantemente a população com sua diversificada e lucrativa programação, toda feita de intervalos comerciais. Aos telespectadores resta um consolo, a entrada é franca. Obviamente, a conta é paga por empresas particulares aos cofres da prefeitura municipal que vê nisso uma legítima fonte de arrecadação. Ganham os comerciantes, ganha a prefeitura. E quanto aos demais? Ora, que problemas o restante da população veria nesses inofensivos outdoors que para funcionar não requerem nada mais que um máximo de visibilidade? O problema é que para vender o espaço público de nossa cidade, deve-se antes garantir a remoção de alguns obstáculos que poderiam obstruí-lo visualmente. Árvores, por exemplo.
Nesse sentido, a guerra atualmente travada no canteiro central da avenida Fernando Correa da Costa é das mais ilustrativas. Temos visto, ali, um verdadeiro exército publicitário com seu desgovernado arsenal de pilares e placas metálicas dos mais diferentes formatos, tamanhos, cores e estilos lutando desesperadamente entre si pela atenção de motoristas e pedestres. Mas nem só de sujeira se faz um canteiro, vê-se também algumas pequenas árvores perdidas entre o lixo mercadológico, impedidas de crescer, multiplicar e embelezar a cidade, contrapondo-se ao ritmo invariável dos postes de iluminação. O fenômeno se repete em várias outras vias de Cuiabá. Aqueles que transitam pela Miguel Sutil, Mato Grosso ou avenida do CPA, quase todos portanto, saberão do que estou falando.
Não pretendo sugerir que árvores estejam sendo sacrificadas ou indevidamente podadas em função dos anúncios que disputam seu espaço aéreo, mas o fato é que copas frondosas e out-doors não deveriam dividir um mesmo canteiro. Ou bem se admira o verde das primeiras ou as mercadorias dos segundos, a sombra das primeiras ou os reflexos dos segundos. Talvez por essa razão, existe um decreto na legislação urbana de Cuiabá (Decreto 2.754 de 03/05/93) regulamentando a implantação de anúncios publicitários em canteiros, rotatórias e demais áreas públicas da cidade. Esse decreto representou um reconhecimento da precedência da arborização pública sobre os interesses comerciais de uma minoria, motivo pelo qual não vem sendo cumprido. Desde quando? Até quando?
Como se vê, o problema é sério e afeta a cidade em vários aspectos. Além da questão funcional determinada pela escassez de áreas verdes e de sombreamento, o excesso de anúncios publicitários constitui uma das formas mais perniciosas de poluição visual, com danos consideráveis sobre a imagem da cidade e a auto-estima de seus habitantes. Nesse particular, os outdoors não estão sozinhos, já que uma série de elementos menores, como placas e luminosos mal posicionados e dimensionados depõe da mesma maneira contra estética da nossa capital. Um dos exemplos mais gritantes desse tipo de excesso encontra-se na mesma Fernando Correa. O que deveria ser uma simples passarela de pedestres foi convertida em algo bem mais vantajoso: um extenso letreiro comercial. É verdade, não poderia haver posição mais estratégica para se pendurar propaganda. Mais uma vez, ganha a prefeitura, ganha a empresa ali ao lado. Quem perde? Dois únicos grupos: o dos pedestres que transitam sobre a passarela contemplando extasiados o fundo dos letreiros, e o dos motoristas que transitam sob a mesma. Trocou-se, à revelia destes últimos, a leveza inerente a uma delicada passarela metálica pela qualidade oposta daquilo que hoje a encobre.
Reportagem recente da Gazeta (09/02/06) chamou a atenção para o fato dos pedestres estarem evitando transitar por esse elefante branco, sem divulgar, surpreendentemente, a verdadeira causa do fenômeno. Se os caminhantes reclamam da escuridão noturna da passarela a culpa não é da falta de iluminação pública mas dos obstáculos que a obstruem. Do que adiantaria iluminar internamente a passagem se quem passa não se sente vigiado pelos que estão embaixo? Enquanto os criminosos puderem se esconder por trás daqueles luminosos publicitários, de nada adiantará iluminar o caminho de suas vítimas.
Toca-se, aqui, em um dos fundamentos mais negligenciados da disciplina urbanística, aquele relacionado à qualidade formal dos espaços construídos, tantas vezes traduzida na mera busca por efeitos ornamentais gratuitos ou enfeites superficiais ditados pela moda. A preocupação com a beleza dos diferentes cenários que compõe uma cidade é das mais antigas na história, pois dela dependem a consciência histórica e a identidade cultural de toda a coletividade. Compreende-se, assim, que a estética urbana deva ser valorizada na exata medida de seu alcance social, isto é, como um dos fatores determinantes da qualidade ambiental necessária à ligação afetiva de um povo com sua terra. Não é preciso viajar tanto para perceber que Cuiabá, nesse quesito, está bastante atrasada em relação a outras capitais brasileiras. Aliás, não é preciso viajar para lugar algum. Basta comparar a situação geral da cidade com a do seu próprio centro histórico, para aprender, com os profissionais do IPHAN-MT, o quanto é importante disciplinar a utilização de placas e letreiros como primeiro passo para uma imagem urbana aprazível a todos. O passo seguinte seria estender esse tipo de controle a toda cidade, adaptando-os as condições de cada setor e ao bem-estar físico e visual dos seus respectivos moradores.
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Artigo inserido em 14/02/2006