Gramática de Libras – Conhecer para entender uma língua diferente – Parte II

13 de novembro de 2012, às 14h26 - Tempo de leitura aproximado: 8 minutos

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A língua é convencionada como conjunto de regras e signos abstratos, condicionados à fala ou aos sinais, essencial às práticas sociais de uma comunidade linguística. A partir dessa concepção, definiu-se como LIBRAS, ou seja, a língua de sinais, primordial para as práticas sociais da comunidade surda.

Para que se possa fundamentar uma língua é necessário instituir uma gramática sistematizada que defina todos os mecanismos necessários para regulação da língua.

Assim como a gramática convencional é entendida como conjunto de regras necessárias que o indivíduo deva seguir na estruturação de textos, tais como: Morfologia, sintaxe, coesão e coerência, acrescentando nesse repertório à fonologia, a semântica e a pragmática, a gramática de LIBRAS, também, possui regras para estruturação de textos, similares e contrastiva com a gramática da Língua Portuguesa, relacionadas à morfologia, coesão, coerência e semântica, conforme afirma (QUADROS, 2007 apud KATO, 1988).

 

  1. que há similaridades comportamentais que não precisam ser explicitadas por constituírem a base comum das línguas naturais;

  2. que se duas línguas compartilham muitas similaridades tipológicas, estas poderão servir de base para as primeiras inferências quanto ao significado das formas em língua estrangeiras;

  3. quanto às diferenças, por serem sistemáticas, admitem um tratamento inferencial e heurístico.

 

A língua de sinais é uma língua espacial-visual e existem muitas formas criativas de explorá-la – Configurações de mão, movimentos, expressões faciais gramaticais, localizações, movimentos do corpo, espaço de sinalização, classificadores são alguns dos recursos discursivos que tal língua oferece para serem explorados durante o desenvolvimento da criança surda e que devem ser explorados para um processo de alfabetização com êxito. (QUADROS, 2007).

Ainda segundo a autora, fazendo uma analogia entre as duas gramáticas, registrem-se as diferenças existentes:

 

LÍNGUA PORTUGUESA

LIBRAS

Língua predominante

Oral-auditiva.(entoação e intensidade)

Vísuo-espacial (expressão facial e corporal);

FONEMA (som)

Unidade Mínima sem significado de uma língua e a sua organização interna.

Léxico reproduzido por meio de sinais, baseada nas interações sociais do indivíduo.

ALFABETO

Combinações de letra-som (oralizado), possibilitando o entendimento de qualquer léxico.

Realizado de forma icônica (dactilologizado);

Auxilia no processo de transcrição da língua de sinais para a LP.

SINTAXE

Preocupa-se com a linearidade do texto.

Envolve todos os aspectos espaciais, incluindo os classificadores, ou seja, é um tipo de morfema gramatical que é afixado a um morfema lexical ou sinal para mencionar a classe que pertence o referente desse sinal.

CONSTRUÇÃO DE UM TEXTO

Limita-se na transcrição de acordo com as regras.

  1. Utiliza a estrutura tópico-comentário, realizado através de repetições sistemáticas.

  2. Utiliza referências anafóricas, através de pontos estabelecidos no espaço.

 

ARTIGO

Apoia-se em fazer a marcação do gênero. Ex: o, a,os,as – um, uma, uns, umas

Só aparece para seres humanos e animais. Define o item lexical classificado. Ex. homem, mulher.

ESTRUTURA DE SENTENÇAS

Convencionada pela estruturação de SVO

Essa estruturação sofre alteração OSV ou SOV (o sujeito pode ser marcado por um sinal acompanhado da datilologia)

PRONOMES

Pessoal: Eu, tu, ele (a), nós, vos, eles (as)

Pessoal: Eu, você (precisa olhar para pessoa) ele/ela, nós – nós 2 – nós 3 – nós 4.

PLURAL

Flexão de número através do acréscimo de (s), nos substantivos, artigos, pronome, verbo.

Identificado pela repetição de itens lexicais.

 

Como se observa no quadro1 acima, embora haja “algumas diferenças” entre a Língua Portuguesa e a Língua de Sinais, essas não impedem que o surdo se aproprie da leitura e escrita. Para isso, caberá ao professor /mediador ser a ponte entre esses dois mundos, através de estratégias metodológicas que eliminem as barreiras na comunicação e aprendizagem, e por oportuno, proporcionar a essa comunidade a verdadeira integração no sistema educacional.

Outra questão que deve ser levada em consideração para o sucesso de escrita é que, tanto o aluno “normal” quanto o aluno com surdez, depende por sobremaneira dos inputs a que estão expostos, pois esse sucesso está intrinsecamente atrelado às experiências e aos conhecimentos prévios, ou seja, a visão de mundo introspectivo a cada participante. (BRASIL, 2002).

Imbricado a isso, convalidado com a idéia de QUADROS e o material que orienta o ensino de surdos (LÍNGUA PORTUGUESA PARA SURDOS Caminhos para a prática pedagógica – v.01 e 02) ratifica-se que, para o surdo ter um bom domínio da Língua Portuguesa é recomendável que, primeiramente, ele domine sua língua materna (L1), que, no caso em discussão, é a LIBRAS, acrescida a isso, ele poderá ser inserido no processo de aquisição da segunda língua, correlacionada a Gramática dos ouvintes.

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Dicionário eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa 2.0.

*Ivanil Martins de Almeida – servidora do Crea-MT, graduada em Letras e técnica em eletrotécnica e contabilidade, além de pós-graduanda em Gestão de Pessoas.