Fotos: Thácito Alberto

A entrevista deste mês de agosto destaca o trabalho desenvolvido pelos engenheiros eletricistas, responsáveis por desenvolver a indústria da eletricidade. Para discutir sobre a área, os avanços e desafios, o Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Mato Grosso (Crea-MT) conversou com o engenheiro eletricista e professor universitário Danilo Ferreira de Souza.  Danilo é graduado   em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal de Mato Grosso (2011). Ele é especialista em Engenharia de Segurança do Trabalho (2014), em Energia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2015), bem como é mestre em Energia pelo Instituto de Energia e Ambiente/IEE da Universidade de São Paulo/USP (2018).  Atualmente é professor Adjunto na Universidade Federal de Mato Grosso. Foi Coordenador de Curso de Graduação em Engenharia Elétrica da UFMT no Biênio 2018-2020. Tem experiência na área de Engenharia Elétrica, atuando em projetos de instalações elétricas, proteção contra descargas atmosféricas e eficiência energética. Desenvolve pesquisas em usos finais de energia, é Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Energia da Universidade de São Paulo e membro do Comitê Brasileiro de Eletricidade (ABNT/CB-003).

Gemar- O Curso de Engenharia Elétrica da UFMT é o mais antigo do estado de Mato Grosso, como o professor avalia a contribuição do curso para a engenharia do estado?

Danilo- O Curso de Engenharia Elétrica da UFMT foi implantado com estrutura curricular voltada para a área de Sistemas Elétricos de Potência, em 1976, época de plena expansão das concessionárias do Setor Elétrico em todo o território nacional. O curso foi reconhecido através da portaria Nº 556, de 21 de outubro de 1980, do Ministério da Educação e Cultura (MEC).

Em 2020 o curso completou 44 anos, tendo formado mais de 2.300 engenheiros(a) eletricistas, que vêm atuando nas diversas áreas relacionadas à eletricidade, contribuindo para o desenvolvimento do setor elétrico do estado.

As concessionárias, os órgãos públicos estaduais, os municípios mato-grossenses, as escolas de nível técnico e superior, bem como muitas empresas, possuem em seus quadros profissionais os nossos egressos. Estes profissionais atuam nas mais diversas áreas, devido a formação ampla e multidisciplinar que o curso proporciona. Assim, as digitais dos nossos egressos estão presentes no desenvolvimento do estado. Até mesmo nos poderes executivo e legislativo, alguns de nossos egressos já prestaram contribuições.

Gemar- Como o professor avalia as constantes mudanças tecnológicas que a área da engenharia elétrica passou nos últimos anos e quais os impactos em um curso de graduação?

Danilo- A grande maioria das áreas vêm sofrendo constantes mudanças, não só pela intensificação do trânsito de informações e inovação em processos, via a globalização tardia pela qual passamos com maior intensidade no final do século passado, como também pela mudança das necessidades que são apresentadas no processo de desenvolvimento de saberes e competências nas academias. Atualmente, há a disponibilidade de informações nas mais diversas plataformas, cabendo ao professor organizar as informações, mediar o processo de ensino-aprendizado, capacitando os discentes para o novo momento de transformações que se apresenta. A capacitação para buscar informações, compreender processos e organizar projetos é uma habilidade que deve ser incentivada pelo professor e construída coletivamente em sala de sala.

Gemar-Quais são as principais áreas de atuação dos Engenheiros(a) Eletricistas egressos da UFMT?

Danilo-  O curso de Graduação em Engenharia Elétrica da UFMT, surge nos anos 70 buscando atender uma demanda crescente pela eletrificação do estado. Naquele momento, as necessidades colocadas focavam predominantemente na área de Sistemas Elétricos de Potência e de Eletrotécnica. Como só havia a UFMT oferecendo um curso de graduação na área elétrica e devido à solidez dos conceitos básicos de engenharia desenvolvidos ao longo do curso, muitos dos nossos egressos acabaram ocupando posições em áreas afins, como por exemplo: Telecomunicações, Automação, Eletrônica, Biomédica, Informática, dentre outras. Em alguns casos, nossos egressos migraram para a atuação no sistema bancário e no gerenciamento empresarial, por exemplo, devido à ampla formação, bem como a capacidade de raciocínio desenvolvida durante a caminhada no curso.

Atualmente, o curso continua com o foco central na área de Sistemas Elétricos de Potência, que atualmente responde por Sistemas de Energia Elétrica, pois as demais áreas estão sendo atendidas por outros cursos que foram disponibilizados na região na última década. Desta forma, o foco do nosso curso é a formação de engenheiros e engenheiras eletricistas com habilidades e competências para atuar em toda a cadeia do sistema elétrico, desde o projeto, estudo, planejamento, execução, manutenção e operação de sistemas de energia elétrica.

Gemar- Quais as perspectivas para os Engenheiros e Engenheiras Eletricistas nos próximos anos?

Danilo- O mundo vive um período de grandes mudanças e incertezas. Entretanto, alguns horizontes são certos para a área da engenharia elétrica, dentre os quais pode-se destacar: a intensificação dos ambientes distribuídos e intermitentes de geração de energia elétrica,  regulações dos setores mais voláteis, profunda preocupação com descarbonização e a sustentabilidade ambiental no setor, demanda por profissionais preocupados com a eficiência energética e com a utilização racional da energia elétrica,  necessidade de profissionais com habilidades mais colaborativas (soft-skills), engenheiros e engenheiras preparados para a atuação em projetos de pesquisa e desenvolvimento,  e também preparados para a consolidação da mobilidade elétrica.

A engenharia solicitará dos profissionais profundas adaptações às mais diversas mudanças que ocorrerão. No caso específico da engenharia elétrica, as inovações são ainda mais dinâmicas, fazendo com que sejam adicionados ao vocabulário dos engenheiros e engenheiras, termos como: Smart Grids, Machine Learning‎, Big data, BIM e Indústria 4.0.

Assim, para ser um profissional do novo século na engenharia elétrica, as habilidades de atuação com novas tecnologias são essenciais, bem como: desenvolver boa comunicação oral e escrita; ser curioso e disciplinado no estudos de novas técnicas e ferramentas específicas e complementares para o mercado de engenharia elétrica; senso de inovação e empreendedorismo,  habilidades de comunicação oral e escrita em língua estrangeira (principalmente o inglês),  habilidades sólidas em física e cálculo,  boa capacidade de abstração e raciocínio crítico,  capacidade de realizar trabalhados multidisciplinares em equipe.

As engenharias de modo geral estão fortemente ligadas ao crescimento da atividade econômica nacional e ao nível de industrialização do país. E os engenheiros são profissionais que podem inclusive atuar na geração de políticas anticíclicas, sendo, possivelmente, um profissional que atue na geração de emprego.

No caso brasileiro, diferentemente do que acontece no Atlântico Norte (Estados Unidos e Europa) o setor de infraestrutura precisa de muitos avanços. Portanto, demanda uma elevada quantidade de engenheiros e engenheiras para a implementação de grandes obras, e posteriormente para a operação e manutenção destes empreendimentos.

Gemar- O curso de Engenharia Elétrica da UFMT está passando por uma reestruturação pedagógica. Quais são os desafios no processo de atualização curricular?

Danilo- Em 24 de Abril de 2019, foi publicada a Resolução MEC/CNE/CES Nº 02, que trata das Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Engenharia (DCN de Engenharia). O texto vem com uma série de elementos importantes, na perspectiva de apontar um horizonte para os cursos de graduação em engenharia atualizarem seus projetos políticos pedagógicos. Assim, o curso de Engenharia Elétrica da UFMT está caminhando nesta direção, em linha com a nova DCN e buscando as práticas de sucesso em nível internacional para aperfeiçoar a nossa atuação no ensino de engenharia.

O desafio da reestruturação curricular é imenso, pois um dos objetivos é implementar as políticas pedagógicas em práticas com a realidade da indústria, que caminha em passos largos. Mas podemos destacar algumas diretrizes que a nova DCN coloca como horizonte para os novos Projetos Políticos Pedagógicos dos Cursos de Engenharia:

  • Composição de conteúdo em consonância com o perfil do egresso, trabalhando as habilidades e competências;
  • Inserção de políticas de acolhimentos buscando o nivelamento dos ingressantes;
  • Inserção do empreendedorismo em disciplinas em que se faça possível;
  • A organização pedagógica em conteúdo que desenvolvam as soft-skills;
  • Redução da carga de atividades em sala de aula e incentivar o trabalho multidisciplinar focado em demandas da sociedade;

Gemar- Você acaba de passar pela coordenação de curso, quais são os principais desafios de um coordenador de curso?

Danilo- A coordenação é um ambiente com elevada carga de  trabalho e uma constante mediação de conflitos. O grande desafio foi conciliar a turbulência do dia-a-dia com as demandas, e juntamente com o Colegiado de Curso e com o Núcleo Docente Estruturante atuar em pontos específicos para continuar as melhorias no curso. Destaco, em especial, o avanço de uma nota menor que “2” dois no Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade) para “4” quatro nos últimos anos, sendo “5” cinco a nota máxima. Para tal, trabalhamos na reestruturação dos laboratórios do curso; na realização de eventos que integraram a comunidade acadêmica do curso (técnicos, estudantes e professores); trabalhamos as disciplinas do ciclo específico, na perspectiva de atender as principais demandas do mercado de trabalho; buscamos o diálogo com os professores do ciclo básico (Cálculos, Química, Físicas) direcionando os conceitos para as aplicações em engenharia; trabalhamos na intensificação da utilização de softwares para simulações; buscamos avançar na aplicação dos Ambientes Virtuais de Aprendizado; etc.

Cristina Cavaleiro/ Gerência de Relações Públicas, Marketing e Parlamentar(GEMAR)


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