{"id":7199,"date":"2007-02-12T00:00:00","date_gmt":"2007-02-12T02:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/crea-mt.org.br\/portal\/entrevista-o-exemplo-indiano\/"},"modified":"2007-02-12T00:00:00","modified_gmt":"2007-02-12T02:00:00","slug":"entrevista-o-exemplo-indiano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/entrevista-o-exemplo-indiano\/","title":{"rendered":"Entrevista: O exemplo indiano"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;O uso de defensivos gen\u00e9ricos representar\u00e1 um grande avan\u00e7o para a agricultura do Brasil, a exemplo do que aconteceu na \u00cdndia, onde, devido \u00e0 quebra de patentes, os produtores se tornaram mais competitivos e com maior controle de gastos.&#8221; A afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 do indiano Shunmunam Ganesan, engenheiro agr\u00f4nomo e especialista em direito ambiental, em entrevista \u00e0 Ag\u00eancia CNA.<\/p>\n<p>Ganesan proferiu palestra na Confedera\u00e7\u00e3o da Agricultura e Pecu\u00e1ria do Brasil (CNA) h\u00e1 alguns dias e o tema escolhido foi a &#8220;Import\u00e2ncia dos Agroqu\u00edmicos Gen\u00e9ricos para Pa\u00edses em Desenvolvimento, com Men\u00e7\u00e3o Especial ao Brasil&#8221;. Durante a exposi\u00e7\u00e3o, o especialista, que tamb\u00e9m \u00e9 membro do Conselho de Meio Ambiente da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Humanas (ONU), apresentou o modelo indiano do uso de defensivos gen\u00e9ricos. Ele ressaltou que, com a utiliza\u00e7\u00e3o de gen\u00e9ricos, o Brasil aumentar\u00e1 sua capacidade de produ\u00e7\u00e3o e rentabilidade. &#8220;Na \u00cdndia, os agroqu\u00edmicos custam hoje entre 50% a 80% mais barato para o produtor. Isso significa maior concorr\u00eancia interna e mais for\u00e7a no mercado de exporta\u00e7\u00e3o&#8221;, explicou.<\/p>\n<p>Leia abaixo a \u00edntegra da entrevista:<\/p>\n<p><B>O que a agricultura representa para a economia da \u00cdndia?<\/B><\/p>\n<p>Nos \u00faltimos 30 anos, a agricultura indiana passou por uma grande mudan\u00e7a. Nas d\u00e9cadas de 60 e 70, nossa produ\u00e7\u00e3o era insuficiente at\u00e9 para o mercado interno e n\u00f3s \u00e9ramos importadores de alimentos. Hoje somos grandes exportadores e produzimos 224 milh\u00f5es de toneladas de gr\u00e3os por ano. Somos o segundo maior produtor de frutas e hortali\u00e7as e ocupamos o primeiro lugar na produ\u00e7\u00e3o de leite e derivados do mundo. A \u00cdndia tem 148 milh\u00f5es de hectares de \u00e1rea plantada de gr\u00e3os &#8211; quase tr\u00eas vezes maior que a \u00e1rea plantada do Brasil. Estamos crescendo como exportadores, mas nossa agricultura \u00e9 composta basicamente de pequenos agricultores, que trabalham, em sua maioria, de forma rudimentar. Poucos, por exemplo, usam trator; a maior parte usa o arado manual. N\u00f3s temos o menor custo de produ\u00e7\u00e3o da agricultura mundial. <\/p>\n<p><B>O que mant\u00e9m os pre\u00e7os de custo de produ\u00e7\u00e3o mais baixos?<\/B><\/p>\n<p>O principal fator determinante de baixos pre\u00e7os no campo agr\u00edcola \u00e9 o pre\u00e7o de insumos e, na \u00cdndia, a concorr\u00eancia define o baixo pre\u00e7o. Quanto mais fabricantes, maior a competi\u00e7\u00e3o entre empresas e melhor \u00e9 o poder de compra do produtor. O uso de defensivos gen\u00e9ricos na \u00cdndia \u00e9 fundamental. N\u00f3s temos mais de 400 companhias que vendem defensivos l\u00e1. Com agroqu\u00edmicos, fertilizantes e sementes com pre\u00e7os mais baixos, o custo de produ\u00e7\u00e3o \u00e9 significativamente menor. <\/p>\n<p><B>O fato de utilizar os defensivos gen\u00e9ricos impacta tanto assim? <\/B><\/p>\n<p>\u00c9 o principal fator. N\u00f3s utilizamos engenharia reversa na produ\u00e7\u00e3o e a m\u00e3o-de-obra tamb\u00e9m \u00e9 mais barata, mas os defensivos gen\u00e9ricos s\u00e3o os grandes respons\u00e1veis pelos pre\u00e7os baixos. Um agroqu\u00edmico gen\u00e9rico n\u00e3o tem a prote\u00e7\u00e3o de patentes e pode ser produzido por muitos pa\u00edses. A \u00cdndia \u00e9 um dos l\u00edderes do mercado desses produtos, que nada mais s\u00e3o do que a vers\u00e3o bioequivalente de um agroqu\u00edmico j\u00e1 registrado e j\u00e1 conhecido, t\u00e3o seguro e efetivo quanto o primeiro composto produzido, e com custo entre 50 a 80% mais barato que os tradicionais. Na \u00cdndia, cerca de 85% de todos os defensivos utilizados s\u00e3o gen\u00e9ricos.  <\/p>\n<p><B>O que barateia a fabrica\u00e7\u00e3o dos gen\u00e9ricos?<\/B><\/p>\n<p>O primeiro fator que baixa o custo de produ\u00e7\u00e3o dos gen\u00e9ricos \u00e9 o fato de eles n\u00e3o serem exatamente iguais ao composto inicial. Em geral, os gen\u00e9ricos s\u00e3o produzidos em pa\u00edses que t\u00eam menores custos de produ\u00e7\u00e3o, como a \u00cdndia e a China, onde o registro \u00e9 mais barato e n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio que se produzam novos dados indefinidamente. Tamb\u00e9m h\u00e1 menos custos de marketing envolvidos, porque no momento em que um gen\u00e9rico chega ao mercado, o componente j\u00e1 \u00e9 conhecido pela maioria dos agricultores. Por causa da grande concorr\u00eancia, as empresas que produzem esses componentes operam com uma margem de lucro menor. <\/p>\n<p><B>Parece, ent\u00e3o, ocorrer uma mudan\u00e7a nas regras do mercado, e as empresas \u00e9 que t\u00eam de atrair os produtores agr\u00edcolas. \u00c9 isso mesmo?<\/B><\/p>\n<p>Na \u00cdndia o paradigma \u00e9 diferente. L\u00e1 o mercado \u00e9 dos compradores, e n\u00e3o dos vendedores. As multinacionais n\u00e3o controlam o mercado. Por causa da quebra de patentes, quem faz o pre\u00e7o \u00e9 o comprador, e n\u00e3o a empresa que vende o defensivo. A margem de lucro \u00e9 menor para as companhias qu\u00edmicas, o que \u00e9 melhor para os agricultores, que s\u00e3o os clientes dessas empresas. Um exemplo de como o pre\u00e7o caiu para os produtores \u00e9 o imidacloprida, um dos mais recentes defensivos que custava, quando foi lan\u00e7ado em 2001, U$ 80 o litro. O pre\u00e7o do gen\u00e9rico hoje fica em torno de U$ 15\/litro. Veja que mudan\u00e7a!<\/p>\n<p><B>Como as empresas tradicionais detentoras das patentes reagem a isso?<\/B><\/p>\n<p>Primeiramente, as grandes empresas, baseadas em pesquisas, tentam manter os agroqu\u00edmicos gen\u00e9ricos tradicionais fora do mercado. Como diminui a parcela dos patenteados, ocorre uma press\u00e3o do setor regulamentado sobre os gen\u00e9ricos. E quando n\u00e3o se expande o mercado global, muitas vezes as empresas tradicionais ent\u00e3o retiram o lucro que elas t\u00eam com produtos de mesma composi\u00e7\u00e3o dos defensivos gen\u00e9ricos e introduzem novos defensivos, que custam mais caro, para manter uma margem de lucro maior. Aparecem, ent\u00e3o, pesquisas financiadas para comprovar a efic\u00e1cia dos &#8220;novos produtos&#8221;.  \u00c9 importante que os agricultores dos pa\u00edses em desenvolvimento conhe\u00e7am este procedimento das grandes empresas produtoras de agroqu\u00edmicos e decidam o que \u00e9 melhor para eles. Este \u00e9 um dos meus pap\u00e9is como conselheiro t\u00e9cnico da Cifa (Confederation of Indian Farmers Associations): conscientizar os produtores e incentiv\u00e1-los a trilhar o melhor caminho para eles mesmos, porque existe uma grande diferen\u00e7a entre o que est\u00e1 dispon\u00edvel e o que \u00e9 necess\u00e1rio. Nossa prioridade deve ser o que \u00e9 necess\u00e1rio. <\/p>\n<p><B>Como voc\u00ea v\u00ea o Brasil no cen\u00e1rio agr\u00edcola mundial?<\/B><\/p>\n<p>O Brasil \u00e9 uma superpot\u00eancia no campo das exporta\u00e7\u00f5es, que det\u00e9m uma fatia consider\u00e1vel do mercado, mas o pa\u00eds deve esperar uma forte concorr\u00eancia dos pa\u00edses que t\u00eam baixos custos de produ\u00e7\u00e3o, como a \u00cdndia e a China. Para que o Brasil continue competitivo \u00e9 fundamental que se busquem pre\u00e7os mais baixos de produ\u00e7\u00e3o e maior controle dos gastos. Al\u00e9m disso, a moeda de voc\u00eas anda bem valorizada com rela\u00e7\u00e3o ao d\u00f3lar, por isso os agricultores brasileiros precisam se esfor\u00e7ar para manter os custos baixos. Dentro desse contexto, os defensivos gen\u00e9ricos s\u00e3o fundamentais e se tornam uma necessidade urgente. Imaginem se o produtor brasileiro conseguisse economizar U$ 10 por hectare. Numa proje\u00e7\u00e3o total, voc\u00eas poderiam economizar cerca de U$ 500 milh\u00f5es.<\/p>\n<p>Foi publicado um decreto que altera a legisla\u00e7\u00e3o agr\u00edcola brasileira e simplifica o registro da fabrica\u00e7\u00e3o de defensivos gen\u00e9ricos&#8230;<\/p>\n<p>Eu tomei conhecimento aqui na CNA do teor deste decreto e quero parabenizar o Brasil pelo texto. Na \u00cdndia, n\u00f3s temos uma resolu\u00e7\u00e3o similar a esta, mas que n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o clara quanto a que foi aprovada aqui. Eu acredito que a qualidade do decreto prov\u00e9m do fato desta confedera\u00e7\u00e3o (CNA) estar ativamente presente no processo, junto aos \u00f3rg\u00e3os executivo e legislador. Minha inten\u00e7\u00e3o inclusive \u00e9 levar o modelo deste decreto para mostrar como fazer nesta \u00e1rea. Isso vai dar uma grande ajuda aos pa\u00edses em desenvolvimento. <\/p>\n<p><B>Em rela\u00e7\u00e3o ao meio ambiente, como a agricultura deve ser pensada?<\/B> <\/p>\n<p>Essa quest\u00e3o do meio ambiente \u00e9 muito importante, porque \u00e9 recorrente na agricultura. Aqui mesmo, no Brasil, tivemos uma importante sinaliza\u00e7\u00e3o sobre isso, em 1992, com o documento da Eco-92. A Declara\u00e7\u00e3o do Rio de Janeiro em 1992 sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, assinada por mais de 130 pa\u00edses, preconiza um importante aspecto para pa\u00edses em desenvolvimento. O princ\u00edpio 11 da declara\u00e7\u00e3o destaca que os padr\u00f5es ambientais e as prioridades dos pa\u00edses em desenvolvimento n\u00e3o devem ser iguais aos aplicados nos pa\u00edses desenvolvidos. Os padr\u00f5es devem refletir o contexto de meio ambiente e desenvolvimento dos pa\u00edses aos quais se aplicam. O que eu quero dizer \u00e9 que os padr\u00f5es aplicados aos pa\u00edses desenvolvidos podem ser inapropriados e com custos elevados especificamente aos pa\u00edses em desenvolvimento. N\u00f3s, na \u00cdndia, seguimos este princ\u00edpio da declara\u00e7\u00e3o, e sofremos grande press\u00e3o por causa disso. O que tem de ficar claro \u00e9 que o meio ambiente precisa ser considerado. Ele \u00e9 vital, mas os padr\u00f5es aplicados n\u00e3o devem custar mais caro que as prioridades locais. Na minha opini\u00e3o, o Brasil tamb\u00e9m deveria seguir \u00e0 risca esse princ\u00edpio que foi assinado no Rio de Janeiro. \u00c9 fundamental que os agricultores e formuladores de pol\u00edticos trabalhem para garantir esses direitos.  <\/p>\n<p><B>E a quest\u00e3o do aquecimento global?<\/B><\/p>\n<p>Devemos adotar pr\u00e1ticas sustent\u00e1veis e de prote\u00e7\u00e3o ambiental, mas a agricultura n\u00e3o agrava os problemas que j\u00e1 existem. Quero ressaltar que a \u00cdndia, que tem uma renda per capita de U$ 450 por ano e uma popula\u00e7\u00e3o de 1,1 bilh\u00e3o de habitantes, n\u00e3o pode ser comparada, por exemplo, com a Su\u00ed\u00e7a, que tem U$ 33 mil de renda per capita e oito milh\u00f5es de habitantes. Temos que seguir o que \u00e9 correto para cada pa\u00eds. Por isso, n\u00f3s tomamos as decis\u00f5es que s\u00e3o boas para o nosso pa\u00eds. O aquecimento global \u00e9 uma quest\u00e3o mundial e precisa ser discutido, tanto na agricultura quanto em qualquer outro segmento produtivo. N\u00e3o negligenciamos a quest\u00e3o ambiental, mas para mim o principal objetivo da agricultura \u00e9 servir ao seu povo. Na \u00cdndia, a quest\u00e3o mais importante \u00e9 alimentar 1,1 bilh\u00e3o de habitantes. Esse \u00e9 o nosso desafio.<\/p>\n<p><B>Fonte : <\/B>Ag\u00eancia CNA<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;O uso de defensivos gen\u00e9ricos representar\u00e1 um grande avan\u00e7o para a agricultura do Brasil, a exemplo do que aconteceu na \u00cdndia, onde, devido \u00e0 quebra de patentes, os produtores se tornaram mais competitivos e com maior controle de gastos.&#8221; A afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 do indiano Shunmunam Ganesan, engenheiro agr\u00f4nomo e especialista em direito ambiental, em entrevista [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-7199","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7199","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7199"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7199\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7199"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7199"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7199"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}