{"id":35766,"date":"2022-01-17T14:40:40","date_gmt":"2022-01-17T18:40:40","guid":{"rendered":"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/?p=35766"},"modified":"2022-01-17T16:59:09","modified_gmt":"2022-01-17T20:59:09","slug":"geologos-esclarecem-fatores-que-podem-ter-causado-tragedia-em-minas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/geologos-esclarecem-fatores-que-podem-ter-causado-tragedia-em-minas\/","title":{"rendered":"Ge\u00f3logos esclarecem fatores que podem ter causado trag\u00e9dia em Minas"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_35767\"  class=\"figure alignleft\" style=\"width: 467px;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-35767\" src=\"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Fabio_Reis_campo-847x565.jpeg\" alt=\"\" width=\"457\" height=\"305\" srcset=\"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Fabio_Reis_campo-847x565.jpeg 847w, https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Fabio_Reis_campo-768x512.jpeg 768w, https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Fabio_Reis_campo-543x362.jpeg 543w, https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Fabio_Reis_campo-336x224.jpeg 336w, https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Fabio_Reis_campo.jpeg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 457px) 100vw, 457px\" \/><figcaption class=\"figure-caption\">Presidente da Febrageo, geol. F\u00e1bio Reis, em campo em Guaratuba (PR), observa evento denominado &#8216;corrida de detritos de grande porte&#8217;, envolvendo forma\u00e7\u00f5es de granito, em 2017. N\u00e3o houve v\u00edtimas. Na trag\u00e9dia em Capit\u00f3lio (MG), o material que vitimou 10 pessoas era o quartzito<\/figcaption><\/figure>\n<p>Fraturas em rochas de quartzito, associadas ao intemperismo (conjunto de processos mec\u00e2nicos, qu\u00edmicos e biol\u00f3gicos que interferem na coes\u00e3o de rochas), agravado pelas chuvas atualmente verificadas em grande parte do pa\u00eds, podem ter sido as causas da trag\u00e9dia no c\u00e2nion do Lago de Furnas, no munic\u00edpio de Capit\u00f3lio (MG), no \u00faltimo s\u00e1bado, na qual 10 pessoas morreram e dezenas se feriram, ap\u00f3s o tombamento de um bloco rochoso atingir lanchas onde estavam as v\u00edtimas. Em notas, a Sociedade Brasileira de Geologia (SBG) e a Federa\u00e7\u00e3o Brasileira de Ge\u00f3logos (Febrageo) lamentaram o fato e buscaram esclarecer alguns dos aspectos relacionados ao tema. Acompanhando as manifesta\u00e7\u00f5es, a conselheira federal geol. Marjorie Nolasco tamb\u00e9m se posicionou em defesa de medidas preventivas como o mapeamento geol\u00f3gico das regi\u00f5es tur\u00edsticas.<\/p>\n<p>A Sociedade Brasileira de Geologia informa que, entre 2011 e 2021, o Brasil esteve em quinto lugar no \u00edndice de acidentes fatais, associados a eventos geol\u00f3gicos\/geot\u00e9cnicos. Foram 41 milh\u00f5es de pessoas afetadas e 42 grandes eventos. \u201cRiscos naturais associados com movimentos de massa s\u00e3o os eventos mais destrutivos e frequentes em regi\u00f5es de montanhas e maci\u00e7os rochosos. Um movimento de massa do tipo tombamento flexural pode ter sido a raz\u00e3o do acidente ocorrido em Capit\u00f3lio\u201d, descreve. A SBG ainda considera que tais eventos ocorrem h\u00e1 milhares de anos e s\u00e3o acentuados em decorr\u00eancia de esta\u00e7\u00f5es chuvosas. \u201cEssa trag\u00e9dia exp\u00f5e um grave problema relacionado com a gest\u00e3o territorial em regi\u00f5es destinadas ao geoturismo no Brasil, que \u00e9 a aus\u00eancia de laudos geol\u00f3gicos e geot\u00e9cnicos para identificar e tipificar os riscos geol\u00f3gicos dos locais a serem visitados, bem como determinar as restri\u00e7\u00f5es de uso e os procedimentos de seguran\u00e7a\u201d, ressalta.<\/p>\n<p>Professora e conselheira federal, a ge\u00f3loga Marjorie Nolasco apresenta detalhes sobre as caracter\u00edsticas geol\u00f3gicas dos maci\u00e7os rochosos como os de Capit\u00f3lio (MG) e contextualiza a import\u00e2ncia de valorizar a legisla\u00e7\u00e3o ambiental e o exerc\u00edcio profissional habilitado para prevenir trag\u00e9dias semelhantes<\/p>\n<p>Segundo os ge\u00f3logos Marjorie Nolasco e F\u00e1bio Reis, os tombamentos desse tipo s\u00e3o eventos naturais e sua ocorr\u00eancia em um determinado local pode ser avaliada pelo mapeamento de risco das \u00e1reas tur\u00edsticas do pa\u00eds, evitando assim a ocorr\u00eancia de trag\u00e9dias. Conselheira Federal e professora da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), Marjorie sugere que esse tipo de incidente pode se processar ao longo de d\u00e9cadas, e sua extens\u00e3o pode ser controlada. J\u00e1 o presidente da Febrageo, refor\u00e7a a necessidade de ampliar o mapeamento geol\u00f3gico, hoje mais implementado em \u00e1reas urbanas, para essas \u00e1reas tur\u00edsticas, ajustando a Lei 12.608\/2012.<\/p>\n<p>O caso de Capit\u00f3lio \u00e9 descrito pela pesquisadora em um contexto comum a outras \u00e1reas de visita\u00e7\u00e3o tur\u00edstica do pa\u00eds, que ser\u00e3o comentadas abaixo.\u00a0 Marjorie considera que se trata de um &#8220;processo cultural onde a penetra\u00e7\u00e3o de \u00e1gua vai abrindo as rochas que se quebram em fraturas ortogonais, de 90 graus&#8221;. O processo tem continuidade com a concentra\u00e7\u00e3o da \u00e1gua que circula nessas rochas e a abertura de um canal fluvial. &#8220;Essa \u00e9 uma etapa em que a energia do rio afunda, exatamente porque est\u00e3o em cabeiras, nascentes ou de encachoeirados&#8221;, diz, referindo-se ao desgaste comum visto na base da escarpa das cachoeiras, onde h\u00e1 risco permanente de queda.<\/p>\n<p>&#8220;Em qualquer c\u00e2nion, a base \u00e9 mais escavada do que as paredes. Isso age junto ao processo normal \u00e0 fase de alargamento do rio, que vai aproveitar das fraturas, especialmente quando chove muito. Sem o suporte embaixo, o alargamento transforma o pared\u00e3o em algo mais suave, ao longo do tempo. No caso de Furnas, h\u00e1 diversas marcas, que s\u00e3o outros pontos onde tem fratura, descolamento, e que podem acontecer daqui a 10 anos ou amanh\u00e3. Para saber s\u00f3 tem uma coisa a fazer: o mapeamento geot\u00e9cnico e o acompanhamento sistem\u00e1tico e cont\u00ednuo pelos profissionais habilitados, geralmente os ge\u00f3logos. E esse acompanhamento vai possibilitar entender qual a velocidade de abertura, o risco de descolamento para alertar sobre a circula\u00e7\u00e3o ou para desprender o bloco e liberar a regi\u00e3o. \u00c9 um trabalho de monitoramento sistem\u00e1tico e de garantia de seguran\u00e7a para as pessoas para que a gente n\u00e3o tenha que acompanhar algo como aconteceu em Capit\u00f3lio&#8221;, descreve.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-35768 alignright\" src=\"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Fabio_Reis_Febrageo_divulgacao.jpeg\" alt=\"\" width=\"208\" height=\"360\" srcset=\"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Fabio_Reis_Febrageo_divulgacao.jpeg 480w, https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Fabio_Reis_Febrageo_divulgacao-336x582.jpeg 336w\" sizes=\"auto, (max-width: 208px) 100vw, 208px\" \/>F\u00e1bio Reis relata ainda que a queda de blocos \u00e9 um processo natural, formando dep\u00f3sito de \u201ct\u00e1lus\u201d, blocos que caem e ficam alojados na base do talude, o que ajuda a identificar inclusive \u00e1reas de risco. Para ele, \u00e9 poss\u00edvel dimensionar a quantidade de material envolvido nesses \u201cmovimentos gravitacionais de massa\u201d, a partir de levantamentos de detalhe feitos no local. O ge\u00f3logo informa que o tombamento de blocos est\u00e1 condicionado a fraturas no maci\u00e7o rochoso. \u201cO volume de rocha envolvido depende da superf\u00edcie de descontinuidade e do espa\u00e7amento das fraturas\u201d, explica.<\/p>\n<p>\u201cDeveria ser implementada uma equipe permanente de controle nessas \u00e1reas. Os riscos geol\u00f3gicos t\u00eam in\u00fameras faces: as inunda\u00e7\u00f5es do sul da Bahia, de S\u00e3o Paulo, em Minas, o colapso e abatimento de cavernas, os rompimentos de barragens, escorregamentos de encostas, queda de blocos. \u201cS\u00e3o situa\u00e7\u00f5es contorn\u00e1veis e n\u00e3o deveriam provocar perdas de vida humana, se houvesse cumprimento de um m\u00ednimo de cuidados, pois s\u00e3o \u00e1reas onde n\u00e3o deveria haver ocupa\u00e7\u00e3o humana, algumas, inclusive, s\u00e3o proibidas legalmente. Ocup\u00e1-las implica em arcar com graves consequ\u00eancias, como as do Capit\u00f3lio\u201d, comenta Nolasco.<\/p>\n<p>\u201cA Lei 12.608 n\u00e3o \u00e9 clara para \u00e1reas tur\u00edsticas. Mas a Defesa Civil existe para prevenir esses acidentes, como os de Altin\u00f3polis e da Praia da Pipa. Temos milhares de \u00e1reas de risco que precisariam ser melhor identificadas, mapeadas e fazer interven\u00e7\u00f5es. Em parques nacionais, isso tamb\u00e9m \u00e9 comum. Em Fernando de Noronha, h\u00e1 v\u00e1rias praias que t\u00eam o mesmo problema de tombamento de bloco\u201d, diz F\u00e1bio.<\/p>\n<p><strong>Legisla\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Cr\u00edticos da aus\u00eancia de pol\u00edticas p\u00fablicas para a \u00e1rea, os especialistas concordam com a necessidade de ampliar a legisla\u00e7\u00e3o federal da Defesa Civil, abrangendo os espa\u00e7os tur\u00edsticos com caracter\u00edsticas semelhantes. \u201cC\u00e2nion tem blocos rochosos que caem. Sempre. Faz parte. A mesma coisa, os movimentos de encosta. A lei das \u00c1reas de Prote\u00e7\u00e3o Permanentes (APP\u00b4s) no Brasil, define que encostas com mais de 45 graus n\u00e3o podem ser ocupadas, assim como \u00e1reas de nascentes, recarga e divisores de \u00e1guas. A gente tinha uma legisla\u00e7\u00e3o ambiental das melhores do mundo, o problema sempre esteve na garantia do cumprimento e na fiscaliza\u00e7\u00e3o, s\u00e3o poucos profissionais para uma extens\u00e3o imensa. Essas \u00e1reas precisam de acompanhamento. Se a gente tivesse um mapa geot\u00e9cnico de acompanhamento e monitoramento, poderia prever o processo, calcular a acelera\u00e7\u00e3o da abertura e ter uma previs\u00e3o de risco\u201d, ressalta a conselheira.<\/p>\n<p>Participante do CTRHM &#8211; Comit\u00ea T\u00e9cnico de Recursos H\u00eddricos e Minerais, no ano passado, ao lado do conselheiro eng. min. Renan Azevedo, Marjorie Nolasco defende a necessidade de promover contatos com a Ag\u00eancia Nacional de Minera\u00e7\u00e3o (ANM), Ag\u00eancia Nacional das \u00c1guas (ANA) e Minist\u00e9rio de Minas e Energia para ampliar a participa\u00e7\u00e3o de profissionais regulamentados, e a fiscaliza\u00e7\u00e3o, de forma a melhorar a a\u00e7\u00e3o atual no territ\u00f3rio nacional.<\/p>\n<p>\u201cFaz parte do nosso plano de trabalho com a conselheira Michele Ramos (conselheira federal titular do mandato), a transpar\u00eancia da a\u00e7\u00e3o do Sistema\u00a0 para a sociedade, inclusive acompanhando conflitos e criando espa\u00e7os de di\u00e1logo com entidades profissionais, empresas, al\u00e9m das universidades, para a defesa da sociedade\u201d, diz Marjorie, explicando que o ge\u00f3logo \u00e9 o mais competente profissionalmente para essa atua\u00e7\u00e3o com riscos geol\u00f3gicos, e mapeamento geot\u00e9cnico, mas especializa\u00e7\u00f5es podem agregar outros profissionais, muito comuns nas \u00e1reas como Engenharia Civil, Engenharia de Minas e Geografia para atender a parte das demandas envolvidas.<\/p>\n<p>\u201cLamentamos que \u00f3rg\u00e3os como a ANM, ANA e CPRM (atual Servi\u00e7o Geol\u00f3gico do Brasil) tenham muito poucos ge\u00f3logos frente \u00e0 necessidade e ao tamanho do pa\u00eds. As prefeituras, especialmente de m\u00e9dia e pequenas cidades, infelizmente, desconhecem a import\u00e2ncia desses profissionais ou os acham \u2018caros\u2019, raras s\u00e3o as que t\u00eam um corpo t\u00e9cnico consolidado na engenharia civil, que dir\u00e1 com ge\u00f3logos. Creio que os acidentes deste in\u00edcio de ano destacam a import\u00e2ncia de melhorar a profissionaliza\u00e7\u00e3o de prefeituras e s\u00e3o um alerta quanto ao necess\u00e1rio di\u00e1logo com o Sistema e ao incentivo aos projetos integradores de engenharia p\u00fablica\u201d, acrescenta a conselheira federal.<\/p>\n<p>F\u00e1bio Reis tamb\u00e9m sustenta que, no Brasil, n\u00e3o \u00e9 comum fazer mapeamento de \u00e1rea de risco em \u00e1reas tur\u00edsticas. \u201cS\u00f3 em \u00e1reas urbanas, onde o risco teoricamente \u00e9 maior. O risco \u00e9 uma probabilidade de ocorr\u00eancia do processo versus as consequ\u00eancias sociais e econ\u00f4micas. O Brasil sempre fez muito mapeamento em \u00e1reas urbanas, at\u00e9 porque a Lei 12.608\/2012 n\u00e3o \u00e9 clara para as \u00e1reas tur\u00edsticas\u201d, diz, defendendo a ampla divulga\u00e7\u00e3o da legisla\u00e7\u00e3o e considerando que, mesmo nos Geoparques do pa\u00eds, o mapeamento tem sido feito esporadicamente, alimentando uma cadeia de riscos. \u201cO ge\u00f3logo faz a avalia\u00e7\u00e3o, mas isso tem que ser feito de forma sistem\u00e1tica, envolvendo governo federal e estaduais, sobretudo diante da tend\u00eancia de crescimento do turismo\u201d, pontua.<\/p>\n<p>F\u00e1bio Reis destaca a import\u00e2ncia do trabalho multiprofissional, envolvendo engenheiros de v\u00e1rias especialidades, ap\u00f3s o mapeamento promovido pelos ge\u00f3logos<\/p>\n<p>F\u00e1bio Reis destaca a import\u00e2ncia do trabalho multiprofissional, envolvendo engenheiros de v\u00e1rias especialidades, ap\u00f3s o mapeamento promovido pelos ge\u00f3logos<\/p>\n<p>Segundo ele, a pol\u00edtica de Defesa Civil fala genericamente do risco nesses ambientes. \u201cSeria importante ser mais claro para a \u00e1rea tur\u00edstica, com recursos para os munic\u00edpios e para as \u00e1reas de conserva\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso deixar mais clara essa pol\u00edtica nacional e regulamentar recursos para mapeamento no Brasil todo\u201d. O presidente da Febrageo argumenta ainda que o mapeamento \u00e9 feito pelos ge\u00f3logos, enquanto o controle, a conten\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m pode ser feita por engenheiros de minas, engenheiros civis e outros profissionais habilitados. \u201c\u00c9 importante estabelecer uma regulamenta\u00e7\u00e3o mais clara em \u00e1reas tur\u00edsticas para uma atua\u00e7\u00e3o por profissionais habilitados. Isso \u00e9 muito s\u00e9rio, a fiscaliza\u00e7\u00e3o precisa estar mais presente\u201d, ratifica, considerando que a repercuss\u00e3o deste incidente em Capit\u00f3lio poder\u00e1 favorecer uma mudan\u00e7a desta realidade.<\/p>\n<p><strong>Procedimentos e\u00a0 condi\u00e7\u00f5es geol\u00f3gicas<\/strong><\/p>\n<p>Depois do mapeamento, diz F\u00e1bio Reis, poder\u00e1 ser verificada a real situa\u00e7\u00e3o de risco da \u00e1rea. \u201cSe h\u00e1 evid\u00eancia de ocorrer o processo com a defini\u00e7\u00e3o de \u00e1reas de baixo a alto risco, deve-se come\u00e7ar as a\u00e7\u00f5es de conten\u00e7\u00e3o ou interven\u00e7\u00e3o. Seria desmontar os blocos que est\u00e3o soltos, o que exige muito planejamento e envolve engenheiros de minas, engenheiros civis ou ge\u00f3logos. O uso de explosivos de baixa magnitude, desmonte manual, por meio de alpinistas, e o desmonte mecanizado s\u00e3o algumas possibilidades de a\u00e7\u00e3o, interferindo sobre a fratura para que o bloco caia. Em outras \u00e1reas, coloca-se cabos de a\u00e7o para fazer com que os blocos n\u00e3o caiam. Todas essas s\u00e3o t\u00e9cnicas consagradas\u201d, diz. \u201c\u00c9 uma a\u00e7\u00e3o multidisciplinar, envolvendo ge\u00f3logos, engenheiros geot\u00e9cnicos ou engenheiros civis que constituem os profissionais respons\u00e1veis por procedimentos de controle. O ge\u00f3logo mapeia, oferece algumas op\u00e7\u00f5es. Esses outros profissionais v\u00e3o operacionalizar os procedimentos. Cada um de n\u00f3s resolve partes do problema\u201d, corrobora Nolasco.<\/p>\n<p>Os especialistas descrevem ainda as condi\u00e7\u00f5es geol\u00f3gicas de outras partes do pa\u00eds. F\u00e1bio informa que na regi\u00e3o de Itaipu, em Foz do Igua\u00e7u, por exemplo, h\u00e1 outro tipo de tombamento, baseado na geomorfologia da \u00e1rea, n\u00e3o de quartzito, como em Capit\u00f3lio, mas com preval\u00eancia de basalto. \u201cL\u00e1 existem algumas conten\u00e7\u00f5es que promovem um controle maior sobre essas rochas, mas o risco sempre est\u00e1 presente\u201d.<\/p>\n<p>Na Chapada Diamantina, complementa Nolasco, h\u00e1 \u00e1reas de risco de quedas de blocos secas ou \u00famidas, ou seja, em pared\u00f5es rochosos com e sem rios pr\u00f3ximos. O material rochoso, acrescenta, tem base escavada e fica pendurado, vai se esfacelando, mais ou menos r\u00e1pido, a depender do tipo de rocha. \u201cNos c\u00e2nions do Sul, h\u00e1 basalto e rochas arenosas. Na Chapada dos Guimar\u00e3es, voc\u00ea tem basalto e quartzito. As fraturas no quartzito abrem mais vagarosamente que em arenitos e basaltos, frente \u00e0 menor reatividade e efeito do contato com a \u00e1gua. S\u00e3o todos vagarosos, mas quebram, \u00e9 natural, sobretudo diante das constantes trombas d\u2019\u00e1gua que estamos tendo no pa\u00eds. A penetra\u00e7\u00e3o de \u00e1gua vai servir como um agente lubrificante, acelerando o processo j\u00e1 instalado, pois ajudam a desestabilizar e a deslocar blocos grandes, diminuindo o atrito entre os fragmentos\u201d, diz, informando que as fraturas, no caso do Capit\u00f3lio, s\u00e3o em \u00e2ngulo reto (ortogonais), verticais ou horizontais.<\/p>\n<p>Marjorie Nolasco destaca ainda que o acompanhamento, ou monitoramento geot\u00e9cnico do processo, permite ao ge\u00f3logo antecipar-se ao fato, interrompendo esse fluxo, e atuando na preven\u00e7\u00e3o de acidentes. \u201c\u00c9 preciso verificar a inclina\u00e7\u00e3o da parede. No caso dos c\u00e2nions, a inclina\u00e7\u00e3o \u00e9 de 90 graus. Quanto mais perto da vertical, mais problem\u00e1tico, inst\u00e1vel e f\u00e1cil de cair, \u00e2ngulos negativos s\u00e3o mais prop\u00edcios ainda\u201d, diz, comparando com o fluxo de lama dos morros, que, apesar de serem movimentos de massa diferentes, com material mais fino, tamb\u00e9m s\u00e3o mais inst\u00e1veis quanto mais verticais estiverem.<\/p>\n<p>Ainda segundo a ge\u00f3loga, \u201cse a base est\u00e1 mais escavada que o topo, o que \u00e9 comum em fal\u00e9sias \u00e0 beira-mar e na base dos c\u00e2nions, \u00famidos ou secos, formando \u00e2ngulos negativos, o risco \u00e9 maior, frente \u00e0 a\u00e7\u00e3o da gravidade. \u00c0 medida que o tempo passa, aumenta o espa\u00e7o entre os blocos, ampliando o espa\u00e7amento das fraturas, tendendo a quebras\u201d. A conselheira federal explica que, no caso das fal\u00e9sias da praia, esse processo se d\u00e1 de forma mais lenta, quanto menos contato houver com as ondas, j\u00e1 que a \u00e1gua, em qualquer caso, \u00e9 um agente acelerador. \u201cPer\u00edodos de alta energia como aqueles onde ocorrem trombas d\u2019\u00e1gua fluviais, ressacas marinhas e fortes tempestades, s\u00e3o naturalmente de alto risco, devendo-se evitar visita\u00e7\u00e3o tur\u00edstica e refor\u00e7ar a fiscaliza\u00e7\u00e3o.\u00a0 Em per\u00edodos de chuvas intensas, esses espa\u00e7os n\u00e3o deveriam ser abertos. Mas para isso \u00e9 preciso conhecer, monitorar e fiscalizar, ter um controle maior\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Outro destaque feito pela conselheira, foram as \u00e1reas de cavernas, conhecidas como \u00e1reas c\u00e1rticas ou calc\u00e1rias, tamb\u00e9m delicadas e de risco geol\u00f3gico alto quanto a desabamentos e colapsos, que precisam ser monitoradas sistematicamente. \u201cAs cavernas fazem parte de um bem conhecido conjunto de problemas e acidentes envolvendo uso e ocupa\u00e7\u00e3o humana. Um dos emblem\u00e1ticos foi Cajamar &#8211; SP, em 1986. No ano passado, ocorreu um desabamento em Altin\u00f3polis \u2013 SP. Na primeira, bairros colapsaram. Na segunda, em noite de chuvas, o teto da caverna desabou, soterrando pessoas que se abrigavam\u201d.\u00a0 A pesquisadora informa que diversas \u00e1reas de risco j\u00e1 foram identificadas pelo SGB\/CPRM, no estado da Bahia, na zona central, inclusive com cidades inteiras constru\u00eddas sobre um complexo espeleol\u00f3gico gigantesco. \u201cE as provid\u00eancias n\u00e3o parecem ter sido ou estarem sendo tomadas\u201d. As prefeituras, acrescenta, fazem de algumas cavernas seus \u201clix\u00f5es\u201d,\u00a0 o que pode acelerar a abertura da caverna e o seu colapso.<\/p>\n<p>A ge\u00f3loga tamb\u00e9m reafirma a necessidade de desenvolver estudos geot\u00e9cnicos para promover monitoramentos sistem\u00e1ticos e seus devidos acompanhamentos, em todas as \u00e1reas deste tipo, n\u00e3o s\u00f3 urbanas, mas especialmente as tur\u00edsticas de natureza. Destaca que \u00e9 fundamental que paralelamente se promova processos de educa\u00e7\u00e3o ambiental, que chamem aten\u00e7\u00e3o para os limites na rela\u00e7\u00e3o do homem com o planeta. \u201cTanto formais, absorvendo as geoci\u00eancias no ensino b\u00e1sico, desde o fundamental, at\u00e9 a educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o formal, com forma\u00e7\u00e3o para administradores, legisladores, gestores, professores, popula\u00e7\u00e3o no geral. Precisamos ter mais conhecimento do funcionamento do planeta\u201d. E complementa: \u201c s\u00f3 a integra\u00e7\u00e3o destes dois processos e a fiscaliza\u00e7\u00e3o poder\u00e3o evitar ou minorar o que estamos vendo hoje no pais; seria uma forma de transformar um aprendizado dolorido do que ocorreu no Capit\u00f3lio, em algo positivo\u201d.<\/p>\n<p>\u201cEsse \u00e9 um processo de educa\u00e7\u00e3o. Arriscar faz parte de viver. Mas se o risco, o grau e o per\u00edodo que ele existe s\u00e3o conhecidos, pode-se evitar perdas de vidas e mesmo o visitante decidir que grau de risco quer correr.\u00a0 Nas \u00e1reas de turismo de natureza, esportes radicais, ecoturismo, turismo de aventuras, tamb\u00e9m h\u00e1 outros riscos inerentes, relacionados a doen\u00e7as end\u00eamicas, fungos, todos invisibilizados propositalmente, para que a natureza seja vista como id\u00edlica. Isso \u00e9 irrespons\u00e1vel\u201d, adverte Marjorie Nolasco, que participar\u00e1 de um debate sobre o tema da educa\u00e7\u00e3o ambiental no pr\u00f3ximo s\u00e1bado (15).<\/p>\n<p>\u201cEstudos de riscos geol\u00f3gicos, tur\u00edsticos ou n\u00e3o, exigem t\u00e9cnicos que acompanhem e monitorem, envolvendo planejamento governamental, fiscaliza\u00e7\u00e3o do Sistema Confea\/Crea e ainda a valoriza\u00e7\u00e3o ou melhor, o respeito e utiliza\u00e7\u00e3o das legisla\u00e7\u00f5es existentes\u201d, diz, manifestando-se ainda favor\u00e1vel a um controle maior inclusive nos Geoparques, \u00e0 semelhan\u00e7a de \u00e1reas legalmente protegidas como APA\u00b4s, reconhecendo que \u201cn\u00e3o somos predominantes, somos dependentes do planeta, precisamos tra\u00e7ar um paradigma diferente, geo\u00e9tico, de conviv\u00eancia com o planeta\u201d.<\/p>\n<p><strong>Fonte: Confea <\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fraturas em rochas de quartzito, associadas ao intemperismo (conjunto de processos mec\u00e2nicos, qu\u00edmicos e biol\u00f3gicos que interferem na coes\u00e3o de rochas), agravado pelas chuvas atualmente verificadas em grande parte do pa\u00eds, podem ter sido as causas da trag\u00e9dia no c\u00e2nion do Lago de Furnas, no munic\u00edpio de Capit\u00f3lio (MG), no \u00faltimo s\u00e1bado, na qual 10 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":35767,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-35766","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/35766","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=35766"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/35766\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":35769,"href":"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/35766\/revisions\/35769"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/35767"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=35766"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=35766"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=35766"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}