{"id":3227,"date":"2012-08-21T15:12:51","date_gmt":"2012-08-21T18:12:51","guid":{"rendered":"https:\/\/crea-mt.org.br\/portal\/imaginem-cuiaba-com-1-milhao-de-habitantes\/"},"modified":"2012-08-21T15:12:51","modified_gmt":"2012-08-21T18:12:51","slug":"imaginem-cuiaba-com-1-milhao-de-habitantes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/imaginem-cuiaba-com-1-milhao-de-habitantes\/","title":{"rendered":"Imaginem Cuiab\u00e1 com 1 milh\u00e3o de habitantes"},"content":{"rendered":"<p><i>Engenheiro Civil S\u00e1tyro Pohl Moreira de Castilho, presidente do Crea-MT<\/i><\/p>\n<p>Cheguei a Cuiab\u00e1 no in\u00edcio dos anos 60, rec\u00e9m-formado em Engenharia no Paran\u00e1. Naquela \u00e9poca, em todo Mato Grosso \u0096 de Ponta Por\u00e3 a Aripuan\u00e3 \u0096 tinham apenas sete engenheiros civis, dois deles tamb\u00e9m ligados ao Crea-MT ainda hoje: \u00c9zio Cal\u00e1bria e Mario Saul. Cuiab\u00e1 era uma cidade pequena, cerca de 50 mil habitantes, que moravam na regi\u00e3o central e no Porto. O Coxip\u00f3 era uma vila totalmente desligada do centro: n\u00e3o existiam casas onde hoje fica a avenida Fernando Corr\u00eaa da Costa. A rodovi\u00e1ria era na rua Miranda Reis, justamente por que ali era um dos limites da cidade. N\u00e3o existia Rua Carmindo de Campos, muito menos avenida Miguel Sutil ou Rubens de Mendon\u00e7a. O c\u00f3rrego da Prainha n\u00e3o era canalizado, o CPA n\u00e3o estava nem em projeto e assim por diante. Imaginem que nem mesmo a avenida Mato Grosso existia.<\/p>\n<p>Para se chegar a Cuiab\u00e1, n\u00e3o havia asfalto. Como engenheiro, fui respons\u00e1vel justamente pela conserva\u00e7\u00e3o das rodovias de acesso. \u00c9 f\u00e1cil imaginar o que era a estrada na Serra de S\u00e3o Vicente, de terra. A cidade ainda era intimamente ligada ao rio, que n\u00e3o era polu\u00eddo na zona urbana. Na pol\u00edtica, vigoravam duas fortes alas, PSD e UDN, que \u0096 como em todo pa\u00eds \u0096 se digladiavam. Era o governo de J\u00e2nio Quadros e a capital sonhava com o desenvolvimento, j\u00e1 que o Brasil tinha um mato-grossense no poder.<\/p>\n<p>O sonho de J\u00e2nio Quadros morreu logo e Cuiab\u00e1 entrou em um processo de estagna\u00e7\u00e3o muito forte. Somente no in\u00edcio dos anos 70 a cidade encontrou novas possibilidades de desenvolvimento. Surgiu a Universidade Federal de Mato Grosso e novos projetos de urbanismo foram implementados, entre eles a constru\u00e7\u00e3o do Centro Pol\u00edtico Administrativo e dos bairros pr\u00f3ximos, bem como do Est\u00e1dio do Verd\u00e3o. Paralelamente, o governo federal iniciava um discurso de ocupa\u00e7\u00e3o de Mato Grosso, bem como de toda a Amaz\u00f4nia Legal. <\/p>\n<p>Nos anos 70, uma forte migra\u00e7\u00e3o aconteceu de diversos pontos do pa\u00eds para Mato Grosso. Mas Cuiab\u00e1 n\u00e3o recebeu os investimentos necess\u00e1rios para atender esta nova demanda. A cidade, que j\u00e1 era carente em saneamento b\u00e1sico, viu sua popula\u00e7\u00e3o quadruplicar em poucos anos. Toda a margem da avenida Fernando Corr\u00eaa da Costa tornou-se habitada, por exemplo. No hoje Bosque da Sa\u00fade, onde era garimpo, passou a ser bairro residencial. As cabeceiras dos c\u00f3rregos come\u00e7aram a se deteriorar.<\/p>\n<p>Embora j\u00e1 contando com grande n\u00famero de profissionais de Engenharia e Arquitetura, n\u00e3o houve uma preocupa\u00e7\u00e3o das administra\u00e7\u00f5es de Cuiab\u00e1 com o planejamento da cidade voltado para o futuro. E o futuro daquela \u00e9poca, virada dos anos 70 para 80, hoje inclusive j\u00e1 passou. Viv\u00edamos ainda um tempo de ditadura, onde as decis\u00f5es eram de cima para baixo e n\u00e3o existia qualquer possibilidade de controle popular sobre o desenvolvimento da capital. A at\u00e9 ent\u00e3o pacata Cuiab\u00e1 come\u00e7ava a ganhar problemas sociais como resultado inclusive da aus\u00eancia de um projeto de urbanismo.<\/p>\n<p>Os anos 80 se foram, passou-se a d\u00e9cada de 90 e hoje falamos de onda de viol\u00eancia, de polui\u00e7\u00e3o do rio, de falta de saneamento b\u00e1sico e de car\u00eancia habitacional. Falamos de filas no Pronto Socorro, de escolas sucateadas, de tr\u00e2nsito confuso, de c\u00f3rregos \u0093mortos\u0094. Falamos de assoreamento, de desmatamento, de peixe caro&#8230; Enfim, temos hoje uma cole\u00e7\u00e3o de problemas em Cuiab\u00e1 que poderiam ter sido ao menos amenizados caso estivessem na pauta de discuss\u00e3o de prefeituras passadas, governos estaduais passados, assembl\u00e9ias legislativas passadas. Muita gente lutou por avan\u00e7os sociais, mas pouco do que se discutiu, se pesquisou e se prop\u00f4s encontrou guarida nos meios decis\u00f3rios. Houve sim omiss\u00e3o e temos que correr atr\u00e1s do preju\u00edzo.<\/p>\n<p>Hoje temos um arcabou\u00e7o legal que n\u00e3o existia nos anos 70 e 80, incluindo o controle popular nas decis\u00f5es de pol\u00edticas p\u00fablicas. Por\u00e9m, infelizmente, os organismos de decis\u00e3o colegiada n\u00e3o raro atuam distantes dos gabinetes executivos. Vale exemplificar que, embora a Rio 92 tenha ocorrido h\u00e1 mais de dez anos, a capital atualmente n\u00e3o tem uma Agenda 21. Acompanhamos tamb\u00e9m a discuss\u00e3o de planejamento habitacional de forma meramente conjuntural e n\u00e3o com vis\u00e3o de longo prazo. Verificamos que a administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica tem pouqu\u00edssimos profissionais em seus quadros para pensar o urbanismo em todos os seus sentidos. Percebemos que o aglomerado urbano n\u00e3o evolui com a rapidez necess\u00e1ria&#8230;<\/p>\n<p>Nos anos 60, quando cheguei a Cuiab\u00e1, existia uma cidade de 50 mil habitantes que sequer imaginava alcan\u00e7ar 500 mil moradores no futuro pr\u00f3ximo. Hoje, a capital est\u00e1 inserida numa regi\u00e3o, denominada de Grande Cuiab\u00e1, onde moram cerca de 800 mil pessoas, segundo estimativas mais contidas. Somente Cuiab\u00e1 tem quase 600 mil moradores. A cidade precisa acordar para uma realidade: quem \u00e9 jovem hoje assistir\u00e1 a capital com 1 milh\u00e3o de habitantes. E, se a vis\u00e3o de desenvolvimento n\u00e3o for alterada, quem \u00e9 jovem hoje ir\u00e1 morar em uma cidade onde os problemas n\u00e3o ser\u00e3o mais os de hoje, porque ser\u00e3o bem piores.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Engenheiro Civil S\u00e1tyro Pohl Moreira de Castilho, presidente do Crea-MT Cheguei a Cuiab\u00e1 no in\u00edcio dos anos 60, rec\u00e9m-formado em Engenharia no Paran\u00e1. Naquela \u00e9poca, em todo Mato Grosso \u0096 de Ponta Por\u00e3 a Aripuan\u00e3 \u0096 tinham apenas sete engenheiros civis, dois deles tamb\u00e9m ligados ao Crea-MT ainda hoje: \u00c9zio Cal\u00e1bria e Mario Saul. 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