{"id":3150,"date":"2012-08-21T15:12:57","date_gmt":"2012-08-21T18:12:57","guid":{"rendered":"https:\/\/crea-mt.org.br\/portal\/a-casa-moderna-em-campo-grande-ms\/"},"modified":"2012-08-21T15:12:57","modified_gmt":"2012-08-21T18:12:57","slug":"a-casa-moderna-em-campo-grande-ms","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/a-casa-moderna-em-campo-grande-ms\/","title":{"rendered":"A casa moderna em Campo Grande &#8211; MS"},"content":{"rendered":"<p><b>\u00c2ngelo Marcos Arruda \u00e9 arquiteto e professor da UFMS e membro do Docomomo N\u00facleo Regional Campo Grandefonte &#8211; www.vitruvius.com.br<\/b><\/p>\n<p><b>Antecedentes<\/b><\/p>\n<p>No in\u00edcio da d\u00e9cada de 20, as id\u00e9ias e os projetos dos mestres da arquitetura moderna internacional, difundidas pelos pa\u00edses ocidentais encontram, no meio intelectual brasileiro, condi\u00e7\u00f5es para a sua propaga\u00e7\u00e3o. De fato, nesse per\u00edodo e at\u00e9 um pouco antes dele, estavam existindo algumas condi\u00e7\u00f5es socioculturais para que o modernismo na arquitetura chegasse ao Brasil com seus postulados te\u00f3ricos. Dentre essas condi\u00e7\u00f5es, a exposi\u00e7\u00e3o de pinturas de Anita Malfatti, de 1917, a Semana de Arte Moderna, de 1922 ou o nacionalista \u0093Manifesto Pau Brasil\u0094, de Oswald de Andrade, de 1924, todos ocorridos em S\u00e3o Paulo. Havia ainda, segundo Yves Bruand, outras condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis, ligadas aos meios geogr\u00e1ficos e econ\u00f4micos \u0096 tais como a proximidade da capital federal, Rio de Janeiro, com as cidades de S\u00e3o Paulo e Belo Horizonte; o crescimento industrial; a urbaniza\u00e7\u00e3o dessas cidades e a expans\u00e3o das atividades imobili\u00e1rias, dentre outras.<\/p>\n<p>A euforia nacionalista, que vai marcar a arquitetura moderna era, ainda, uma das grandes aliadas dos intelectuais, muito embora, marcada por contradi\u00e7\u00f5es: havia uma vontade nacional de progredir e romper com o passado europeu, voltando-se para as ra\u00edzes coloniais brasileiras, num processo de revalorizar as tradi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas. No ano de 1925, a imprensa publica dois artigos que j\u00e1 registravam um certo conte\u00fado de preocupa\u00e7\u00f5es com o modernismo. O primeiro, de Rino Levi, escrito em Roma, ainda quando este era estudante de arquitetura, denominado \u0093A arquitetura e a est\u00e9tica das cidades\u0094, editado pelo jornal O Estado de S\u00e3o Paulo, j\u00e1 falava que a arquitetura deveria observar \u0093a praticidade e economia, os volumes, linhas simples&#8230;\u0094<\/p>\n<p>O outro artigo, de Gregori Warchavchik, publicado no jornal Correio da Manh\u00e3, do Rio de Janeiro, traduzia os ideais corbusianos do livro Por uma Arquitetura, de 1923, quando cita a m\u00e1quina de morar como refer\u00eancia da nova arquitetura e a quest\u00e3o do estilo, assim:<br \/>\n\u0093Uma casa \u00e9, no final das contas, uma m\u00e1quina cujo aperfei\u00e7oamento t\u00e9cnico permite uma distribui\u00e7\u00e3o racional de luz, calor, \u00e1gua quente e fria etc&#8230; Para que nossa arquitetura tenha seu cunho original, como t\u00eam as nossas m\u00e1quinas, o arquiteto moderno deve n\u00e3o somente deixar de copiar os velhos estilos, como tamb\u00e9m deixar de pensar no estilo&#8230; A nossa arquitetura deve ser apenas racional\u0094.<\/p>\n<p>Anos depois, em 1927, era exatamente Warchavchik quem, ao projetar sua casa na Rua Santa Cruz, na Vila Mariana, iria contribuir com a \u0093primeira obra moderna a ser constru\u00edda em S\u00e3o Paulo\u0094. A casa da Rua Santa Cruz era c\u00fabica e branca, como convinha um projeto de arquitetura moderna, mas apresentava contradi\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sintaxe corbusiana. Marta Camisassa alerta para a simetria existente na fachada que \u00e9 desfeita ao examinarmos as plantas do pavimento t\u00e9rreo e do superior. \u0093As plantas ocultam um plano r\u00edgido que se dissolve na planta livre&#8230; A propor\u00e7\u00e3o sim\u00e9trica de 2:1 se torna aparente ao tra\u00e7armos os eixos de simetria tanto em um sentido como em outro. E uma planta baseada nos tra\u00e7ados r\u00edgidos das vilas de Palladio aparece para o espectador pouco atento \u00e0 compara\u00e7\u00e3o de medidas e propor\u00e7\u00f5es\u0094, lembra.<\/p>\n<p>Bruand alerta que de fato havia grandes preocupa\u00e7\u00f5es formais no projeto: \u0093a fachada principal apresentava uma justaposi\u00e7\u00e3o de volumes simples cont\u00edguos, onde eram empregados linhas e \u00e2ngulos retos\u0094. Ainda assim era poss\u00edvel traduzir os ideais corbusianos nessa casa. Al\u00e9m de ser uma grande novidade arquitet\u00f4nica para a \u00e9poca, a aus\u00eancia de ornamentos e a composi\u00e7\u00e3o baseada em prismas simples e c\u00fabicos e a regularidade do seu conjunto estavam presentes.<\/p>\n<p>Warchavchik ainda na d\u00e9cada de 20, continuaria construindo, em S\u00e3o Paulo, outras casas modernistas e, dentre elas, a da Rua It\u00e1polis, no Pacaembu \u0096 que abrigou a Exposi\u00e7\u00e3o Modernista, organizada por ele e sua mulher, em 1931 \u0096, a de Max Graf, da Rua Avanhadava, a da Rua Thom\u00e9 de Souza e as casas geminadas para classe m\u00e9dia da Rua Berta, todas de 1929.<\/p>\n<p><b>A fase da difus\u00e3o dos elementos de arquitetura e de composi\u00e7\u00e3o da Escola Carioca<\/b><\/p>\n<p>Houve na arquitetura moderna brasileira, um movimento liderado por L\u00facio Costa no Rio de Janeiro, que vai da d\u00e9cada de 30 at\u00e9 os idos da constru\u00e7\u00e3o de Bras\u00edlia, nos meados dos anos 50, chamada pelos cr\u00edticos e estudiosos europeus e norte-americanos de Brazilian School, Cariocan School, First National Style in Modern Architecture (8) e que \u00e9 conhecido pela historiografia brasileira como Escola Carioca. L\u00facio Costa escreveu sobre esse movimento como \u0093um conjunto de profissionais interessados na renova\u00e7\u00e3o da t\u00e9cnica e da express\u00e3o arquitet\u00f4nicas, constituindo-se de 1931 a 1935, pequeno reduto purista consagrado ao estudo apaixonado, n\u00e3o somente das realiza\u00e7\u00f5es de Gropius e de Mies van der Rohe, mas principalmente, da doutrina e obra de Le Corbusier, encaradas j\u00e1 ent\u00e3o, n\u00e3o mais como um exemplo entre tantos outros, mas como Livro Sagrado da Arquitetura\u0094.<\/p>\n<p>A Escola Carioca, mais do que um movimento de arquitetura moderna brasileira ao utilizar o vocabul\u00e1rio de Le Corbusier o transforma em estilo brasileiro.A escola carioca era, tamb\u00e9m, um movimento un\u00edssono, de autoconsci\u00eancia da mudan\u00e7a necess\u00e1ria, de um novo modelo de arquitetura mais voltada para o esp\u00edrito novo brasileiro dos anos 30. Seus membros n\u00e3o se limitaram a produzir essa arquitetura moderna apenas no Rio de Janeiro. A arquitetura se espalha pelos quatro cantos do Brasil, produzindo arquitetura moderna, p\u00fablica ou privada, mas com certos cuidados com rela\u00e7\u00e3o ao s\u00edtio e as transforma\u00e7\u00f5es em fun\u00e7\u00e3o das caracter\u00edsticas do lugar. O car\u00e1ter dessa arquitetura se deu atrav\u00e9s da reuni\u00e3o dos elementos de arquitetura e de composi\u00e7\u00e3o identificados nos seus mais importantes projetos, como os brises-soleil, o elemento vazado, os pilares de se\u00e7\u00e3o circular, al\u00e9m dos elementos corbusianos de composi\u00e7\u00e3o c\u00fabica e prism\u00e1tica.<\/p>\n<p>\u00c9 assim que o brise-soleil no Brasil, criado pelos modernistas cariocas, tinha o sentido de proteger as fachadas e o edif\u00edcio da intensa quantidade de sol dos tr\u00f3picos e n\u00e3o como mais um dos elementos modernos est\u00e9ticos; o pilotis, outro elemento moderno da arquitetura no Brasil, foi usado para que houvesse transpar\u00eancia no percorrer do povo no terreno e sombra e prote\u00e7\u00e3o e n\u00e3o apenas como elemento de vislumbre; o uso maci\u00e7o do concreto armado, com intelig\u00eancia e criatividade, moldando-o \u00e0s necessidades funcionais e n\u00e3o apenas como morfologia projetual. A influ\u00eancia da escola carioca se fez vis\u00edvel em v\u00e1rias partes do Brasil, em obras de destaque nas principais cidades do pa\u00eds. A dissemina\u00e7\u00e3o dessa linguagem deu-se, boa parte, pela participa\u00e7\u00e3o de profissionais do Rio de Janeiro ou aqueles que se formaram na Escola de Belas Artes e depois na Faculdade Nacional de Arquitetura. Por outro lado, diante da ampla divulga\u00e7\u00e3o e repercuss\u00e3o por meio de publica\u00e7\u00f5es especializadas ou n\u00e3o, o repert\u00f3rio formal e projetual mais ou menos codificado da linguagem carioca permitiu que profissionais, n\u00e3o necessariamente relacionados com o movimento do Rio de Janeiro aplicassem as id\u00e9ias dessa arquitetura moderna com maior ou menor fidelidade e acerto \u0096 e entre esses profissionais, inclu\u00edam-se engenheiros civis, t\u00e9cnicos de edifica\u00e7\u00e3o e construtores \u0096 isto \u00e9, uma apropria\u00e7\u00e3o tanto erudita quanto popular.<\/p>\n<p>A cidade do Rio de Janeiro era a capital do pa\u00eds at\u00e9 1960 e essa condi\u00e7\u00e3o s\u00f3cio-pol\u00edtica lhe dava condi\u00e7\u00f5es de se manter como uma refer\u00eancia para todo o pa\u00eds e, em particular, aquelas cidades menores. Assim essa arquitetura da escola carioca se difundiu por v\u00e1rias cidades do Brasil, independente de seus v\u00ednculos com a capital federal. A difus\u00e3o e a dissemina\u00e7\u00e3o dos elementos da arquitetura moderna atravessou as fronteiras do Rio de Janeiro e se fixou em algumas cidades, como Campo Grande, no interior do Estado de Mato Grosso e que, em 1979, assumiu a posi\u00e7\u00e3o de capital do Estado de Mato Grosso do Sul.<\/p>\n<p><b>Arquitetura Moderna Residencial em Campo Grande<\/b><\/p>\n<p>Em 1950, a cidade de Campo Grande j\u00e1 contava com 39.164 habitantes, segundo o IBGE. Em 1953, o Governo do Estado de Mato Grosso inicia a constru\u00e7\u00e3o da primeira obra de arquitetura moderna, a atual Escola Maria Constan\u00e7a de Barros Machado, projetada pelo arquiteto Oscar Niemeyer, localizada na Rua Y Juca Pirama, atual Rua C\u00e2ndido Mariano. Na realidade esse projeto constru\u00eddo em Campo Grande \u00e9 a repeti\u00e7\u00e3o do mesmo projeto elaborado para a atual Escola Maria Leite de Barros, na cidade de Corumb\u00e1\/MS, fronteira do Estado de Mato Grosso do Sul com a Bol\u00edvia.<\/p>\n<p>O Col\u00e9gio Estadual Maria Constan\u00e7a \u0096 primeiro nome Liceu Campograndense, Gin\u00e1sio Campograndense, depois Col\u00e9gio Estadual Campograndense \u0096 contribuiu para as modifica\u00e7\u00f5es da arquitetura da cidade. Foi edificado pela Construtora Com\u00e9rcio Ltda. e teve como respons\u00e1veis t\u00e9cnicos os engenheiros H\u00e9lio Ba\u00eds Martins e Jos\u00e9 Garcia Netto. A obra foi fiscalizada pelo arquiteto Jo\u00e3o Thim\u00f3teo da Costa, do Departamento de Obras do Governo em Cuiab\u00e1. Inaugurada no ano de 1954, essa obra \u00e9 o marco da arquitetura moderna em Campo Grande.<\/p>\n<p>Ainda na d\u00e9cada de 50 come\u00e7am as atividades profissionais de v\u00e1rios engenheiros que se formam em S\u00e3o Paulo ou no Rio de Janeiro. H\u00e9lio Ba\u00eds Martins, Anees Salim Saad, Gabriel do Carmo Jabour, dentre outros, se destacam pela tipologia dos projetos e obras constru\u00eddas.<\/p>\n<p>A primeira resid\u00eancia de arquitetura moderna em Campo Grande (Arruda 1999) \u00e9 projetada no ano de 1956, pelo arquiteto Israel Barros Correia, do Rio de Janeiro \u0096 a casa do m\u00e9dico Koei Yamaki, na Rua Bar\u00e3o do Rio Branco, local onde funciona a sede do ARCA \u0096 Arquivo Hist\u00f3rico de Campo Grande. Essa resid\u00eancia, que foi constru\u00edda por Gabriel Jabour, \u00e9 um projeto com diversos elementos de arquitetura e de composi\u00e7\u00e3o modernos.<\/p>\n<p>Essa casa moderna em Campo Grande, considerada aquela projetada e constru\u00edda segundo os padr\u00f5es e m\u00e9todos dos mestres modernistas, tem planta tem dois pisos e a separa\u00e7\u00e3o das fun\u00e7\u00f5es da casa \u0096 social, \u00edntimo e servi\u00e7o-, vai acontecer muito claramente nessa casa. No andar superior, os quartos; no andar t\u00e9rreo, salas e escrit\u00f3rio e o servi\u00e7o em separado do corpo da casa. Arquitetura sem ornamentos, reta e com poucos materiais, como mandava o modernismo; azulejos no revestimento, cores fortes no interior, aplicadas atrav\u00e9s das cer\u00e2micas; paredes externas em pastilha e linhas esbeltas, com inclina\u00e7\u00e3o suave. A platibanda escondendo o telhado em telha de fibrocimento, era a grande novidade. Antes, nos anos 40, o telhado, apesar da platibanda, era de telha cer\u00e2mica, com baixa inclina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os anos 50 v\u00e3o apontar no seu in\u00edcio, ainda a constru\u00e7\u00e3o dos bungalows de estilo californiano que perdiam for\u00e7a para as casas modernas. Essas casas vinham sendo influenciadas pelas modernidades ocorrentes na m\u00fasica e na pintura, principalmente. O autom\u00f3vel, necess\u00e1rio e fundamental no uso di\u00e1rio, veio influenciar a arquitetura. J\u00e1 n\u00e3o cabia mais o uso de materiais coloniais pois, isso representava um Brasil do passado; a moda agora era o concreto armado, o revestimento em pedra, cer\u00e2micas, pastilhas, conforme a tecnologia determinava. Foi assim que diversas fam\u00edlias de alta renda, moradores de Campo Grande, passaram logo a absorver o moderno como estilo e n\u00e3o como modismo de uma \u00e9poca. As casas de Magno Coelho, na Rua Bar\u00e3o do Rio Branco, de H\u00e9lio Ba\u00eds e Pl\u00ednio Martins na Rua Sete de Setembro e a de Lauc\u00eddio Coelho na Av. Afonso Pena, todas projetadas pelo engenheiro modernista H\u00e9lio Ba\u00eds Martins no final dos anos 50 e tinham o modernismo como la\u00e7o comum: padr\u00f5es tipol\u00f3gicos do modernismo carioca, do arquiteto L\u00facio Costa, com telhados inclinados, materiais de revestimento contempor\u00e2neos, como o elemento vazado em concreto e uma enorme preocupa\u00e7\u00e3o com a prote\u00e7\u00e3o solar.<\/p>\n<p>O engenheiro H\u00e9lio Ba\u00eds ainda concluiu nos anos 60 a casa de Odon Barbosa, na Rua 13 de Maio, onde os elementos modernos permaneciam, como o telhado inclinado, chamado de teto borboleta, composi\u00e7\u00e3o em prisma retangular e pergolado. Outro engenheiro que vai projetar e construir casas modernas em Campo Grande \u00e9 Gabriel do Carmo Jabour. A casa de seu pai, na Rua Ant\u00f4nio Maria Coelho, mais conhecida como \u0093casa-aranha\u0094 \u00e9 um dos mais t\u00e9cnicos exerc\u00edcios projetuais modernos para habita\u00e7\u00e3o. A laje plana, sem cobertura, impermeabilizada, elementos de concreto em forma de bumerangues, pilares de sustenta\u00e7\u00e3o, d\u00e3o corpo a essa casa, que j\u00e1 foi refer\u00eancia na cidade. Outras casas modernas de Jabour s\u00e3o a casa de forma el\u00edptica da fam\u00edlia Maksoud, na esquina da Rua 25 de Dezembro com a D. Aquino ou a casa de Wilson Barbosa Martins, na Rua XV de Novembro.<\/p>\n<p>O engenheiro Euclides de Oliveira tamb\u00e9m construiu sua casa moderna, na esquina da Av. Afonso Pena com a Rua Padre Jo\u00e3o Crippa e l\u00e1 est\u00e3o presentes os elementos do modernismo, como o telhado inclinado.Todas eram modernas na forma e no programa de necessidades e usavam materiais de revestimentos muito usados na arquitetura moderna brasileira, como o cobog\u00f3 de concreto ou a pedra<br \/>\nem l\u00e2minas deitada.<\/p>\n<p><b>Os elementos usados na arquitetura residencial popular<\/b><\/p>\n<p>Segundo dados do Cadastro Municipal da Prefeitura de Campo Grande, entre 1960 e 1970, foram constru\u00eddas na cidade, um pouco mais de 12 mil resid\u00eancias, localizadas em sua grande maioria na \u00e1rea mais central da cidade. As diversas resid\u00eancias existentes em nossa cidade, como os elementos criados pelo movimento moderno na arquitetura brasileira, passaram a fazer parte do repert\u00f3rio construtivo dos mais simples construtores.<\/p>\n<p>De acordo com Alfonso Corona Martinez, os elementos de arquitetura s\u00e3o como corpos, limites (envolventes) espaciais que fazem existir os elementos de composi\u00e7\u00e3o; s\u00e3o coisas concretas, tem natureza definida (portas, janelas, pilares, artefatos, etc); s\u00e3o partes da constru\u00e7\u00e3o. J\u00e1 os elementos de composi\u00e7\u00e3o s\u00e3o espa\u00e7os, abstra\u00e7\u00f5es. S\u00e3o conceitos, como por exemplo, a propor\u00e7\u00e3o de determinados ambientes. N\u00e3o tem uso por si mesmos; s\u00e3o r\u00f3tulos que se aplicam aos espa\u00e7os segundo uma determinada situa\u00e7\u00e3o. Os elementos de arquitetura s\u00e3o as partes mais vis\u00edveis de um edif\u00edcio e expressam a defini\u00e7\u00e3o do todo edificado e, assim, pilares, paredes, coberturas, veda\u00e7\u00f5es, etc. s\u00e3o partes de uma habita\u00e7\u00e3o que podem ser vistas por todos os moradores de uma cidade.<\/p>\n<p>Pedras usadas como revestimento de fachadas, em paredes, muros ou detalhes de varandas; pergolados de concreto, apoiando vigas de varandas ou at\u00e9 compensando elementos de fachada; pilares falsos que n\u00e3o tem fun\u00e7\u00e3o de apoiar coberturas que tem fun\u00e7\u00e3o de dar novo ar \u00e0 edifica\u00e7\u00e3o, imitando os pilares da arquitetura moderna de Oscar Niemeyer ou de L\u00facio Costa ou ainda, conjunto de apoios em forma circular, na realidade peda\u00e7os de barras de ferro preenchidas com concreto; pilares com formas em \u0093V\u0094 muito usadas pela arquitetura paulista e carioca nos anos 50 e muito difundida pela revistas de \u00e9poca, principalmente a O Cruzeiro; platibandas que escondem a cobertura em telha de barro francesa e que ornamentam a fachada com frisos horizontais e verticais, ainda numa semelhan\u00e7a do estilo Art D\u00e9co; falsas platibandas inclinadas para lembrar o telhado em borboleta; elementos inclinados na fachada frontal, para quebrar a forma reta do edif\u00edcio, dentre outros elementos, s\u00e3o muito encontrados na arquitetura popular, geralmente feita sem arquitetos ou engenheiros e que os construtores obedeciam quase que uma ordem do propriet\u00e1rio. <\/p>\n<p>Esses elementos, juntos numa cidade de pouco mais que 130 mil habitantes, como era Campo Grande nos anos 60, davam corpo e densidade \u00e0 arquitetura moderna. Todos queriam usar esses elementos que com a m\u00fasica Bossa Nova, formavam a sociedade moderna. Assim Campo Grande passou a viver, na arquitetura residencial, com os elementos do modernismo, embora as edifica\u00e7\u00f5es, internamente, ainda pecassem pelos espa\u00e7os dos elementos de composi\u00e7\u00e3o do movimento moderno. O moderno era estilo e como tal, reinava absoluto em quase todas as casas constru\u00eddas nos anos 50 e 60 em Campo Grande, e podem ser vistas em diversos bairros da cidade, como a Vila Carvalho, bairro Amamba\u00ed, S\u00e3o Francisco e arredores. Esse estilo perdeu for\u00e7a nos anos 70 quando novos elementos de arquitetura e de composi\u00e7\u00e3o passaram a fazer parte do sistema habitacional da cidade.<\/p>\n<p><b>Uma pequena conclus\u00e3o<\/b><\/p>\n<p>A arquitetura moderna brasileira, na sua tipologia residencial, com vimos, produziu, com base nos preceitos da Escola Carioca e nos elementos oriundos da concep\u00e7\u00e3o corbusiana, um vasto repert\u00f3rio tipol\u00f3gico mas que se baseava no pequeno conjunto compositivo.<\/p>\n<p>Imaginar que esses elementos de arquitetura e de composi\u00e7\u00e3o pudessem ser absorvidos pela sua natureza burguesa, no campo popular, sendo usados pelos mais distintos cidad\u00e3os, era crer que a arquitetura moderna se constitu\u00eda num estilo e, como tal, passava a incorporar na sociedade como necessidade e modismo, como foi a m\u00fasica.<\/p>\n<p>Em Campo Grande, dada a natureza da cidade, de sua ocupa\u00e7\u00e3o e de sua proximidade com Rio \u0096 S\u00e3o Paulo, os elementos da arquitetura moderna se popularizaram de tal sorte que, ainda hoje, nos anos 2000, \u00e9 poss\u00edvel encontrar novas edifica\u00e7\u00f5es que ainda incorporam os elementos. Vemos em toda \u00e0 parte, principalmente a mais central, objeto de urbaniza\u00e7\u00e3o nos anos 50 a 70, principalmente.<\/p>\n<p>Esse texto tem como finalidade, demonstrar a import\u00e2ncia dos elementos do modernismo arquitet\u00f4nico brasileiro para com a edifica\u00e7\u00e3o residencial urbana, num territ\u00f3rio distante do eixo cultural brasileiro mas que, gra\u00e7as \u00e0 divulga\u00e7\u00e3o dos mesmos, seja atrav\u00e9s de qualquer meio, contribuiu para enriquecer o repert\u00f3rio construtivo da cidade e que hoje, frente aos processos demolit\u00f3rios, deveriam ser observados como algo do seu tempo e que merecem ser conservados.<\/p>\n<p>_________________<\/p>\n<p><i>Artigo inserido em 04\/05\/2004<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c2ngelo Marcos Arruda \u00e9 arquiteto e professor da UFMS e membro do Docomomo N\u00facleo Regional Campo Grandefonte &#8211; www.vitruvius.com.br Antecedentes No in\u00edcio da d\u00e9cada de 20, as id\u00e9ias e os projetos dos mestres da arquitetura moderna internacional, difundidas pelos pa\u00edses ocidentais encontram, no meio intelectual brasileiro, condi\u00e7\u00f5es para a sua propaga\u00e7\u00e3o. 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