{"id":3137,"date":"2012-08-21T15:12:57","date_gmt":"2012-08-21T18:12:57","guid":{"rendered":"https:\/\/crea-mt.org.br\/portal\/arquitetura-um-relato-historico-no-brasil\/"},"modified":"2012-08-21T15:12:57","modified_gmt":"2012-08-21T18:12:57","slug":"arquitetura-um-relato-historico-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/arquitetura-um-relato-historico-no-brasil\/","title":{"rendered":"Arquitetura: Um relato hist\u00f3rico no Brasil"},"content":{"rendered":"<p><b>Por C\u00ea\u00e7a de Guimaraens, arquiteta graduada na Universidade de Bras\u00edlia, mestre em Teorias da Comunica\u00e7\u00e3o e doutoranda em Planejamento Urbano e Regional. \u00c9 professora assistente da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro e diretora do Departamento de Identifica\u00e7\u00e3o e Documenta\u00e7\u00e3o do Instituto do Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico Nacional (Iphan). Entre os trabalhos que realizou est\u00e3o o projeto e restaura\u00e7\u00e3o do Terminal das Barcas da Pra\u00e7a XV de Novembro, no Rio de Janeiro, e a organiza\u00e7\u00e3o da s\u00e9rie Depoimentos de Arquitetura Brasileira ap\u00f3s Bras\u00edlia. \u00c9 autora de Lu\u00eds Paulo Conde, um Arquiteto Carioca (Rio de Janeiro, Editora Escala, 1994), de Lucio Costa &#8211; Um Certo Arquiteto em Incerto e Secular Roteiro (Rio de Janeiro, Editora Relume Dumar\u00e1, 1996) e do n\u00famero especial Id\u00e9ias-Espa\u00e7os, do Jornal do Brasil (1992). Fonte: www.mre.gov.br<\/b><\/p>\n<p>A produ\u00e7\u00e3o arquitet\u00f4nica brasileira desenvolveu-se sob um processo cultural complexo, e os arquitetos, imigrantes e brasileiros, sempre contribu\u00edram para a ruptura das formas e estilos consagrados. A arquitetura foi express\u00e3o de progresso e instrumento para a moderniza\u00e7\u00e3o durante os per\u00edodos Colonial, Imperial e Republicano. Contou com o apoio dos governantes &#8211; a partir de 1808, com o rei de Portugal, D. Jo\u00e3o VI, prosseguindo com os imperadores D. Pedro I e D. Pedro II e, mais tarde, desde o ditador Get\u00falio Vargas at\u00e9 o presidente Juscelino Kubitschek. Mereceu tamb\u00e9m o apoio de intelectuais e artistas que atuaram na Semana de Arte Moderna, em 1922, no Sal\u00e3o de 31, no Cinema Novo, em 1960, e na resist\u00eancia \u00e0 ditadura militar, nas d\u00e9cadas de 70 e 80.<\/p>\n<p>As condi\u00e7\u00f5es e as principais origens da modernidade na configura\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o f\u00edsico-pol\u00edtico brasileiro foram determinadas pela import\u00e2ncia do papel da ocupa\u00e7\u00e3o holandesa na forma\u00e7\u00e3o das cidades do Recife e de S\u00e3o Lu\u00eds, no s\u00e9culo XVIII, e pela consolida\u00e7\u00e3o, no s\u00e9culo XIX, das propostas da Miss\u00e3o Francesa, na cidade do Rio de Janeiro, com as &#8220;sagas&#8221; de Grandjean de Montigny e de Pereira Passos, nos prim\u00f3rdios do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>A cria\u00e7\u00e3o da Academia Imperial de Belas Artes e o estabelecimento do ensino regular de arquitetura propiciaram, em meados do s\u00e9culo XIX, a renova\u00e7\u00e3o do barroco &#8211; transformado em signo rococ\u00f3 da fase colonial de raiz lusa &#8211; e a implanta\u00e7\u00e3o do formalismo oficial, com o neoclassicismo. <\/p>\n<p>Em 1904, a inaugura\u00e7\u00e3o da avenida Central, atual Rio Branco, no Rio de Janeiro, institui a t\u00e9cnica da produ\u00e7\u00e3o industrializada por meio do ecletismo. As fachadas adornadas de elementos pr\u00e9-fabricados traduzem o imagin\u00e1rio fe\u00e9rico dos imigrantes e resultam em h\u00edbridos e polif\u00f4nicos estilos t\u00edpicos da fase republicana inicial. Denominados tamb\u00e9m historicistas e pinturescos de fei\u00e7\u00e3o neoclassicizante, renascentista e g\u00f3tica, com inspira\u00e7\u00e3o mourisca, anglo-sax\u00f4nica, italiana e francesa, os edif\u00edcios ecl\u00e9ticos exprimem a internacionaliza\u00e7\u00e3o da economia e do com\u00e9rcio no Brasil. <\/p>\n<p>A arquitetura do s\u00e9culo XX \u00e9 inaugurada em S\u00e3o Paulo, em 1902, com a Vila Penteado, de Carlos Eckman, e com a constru\u00e7\u00e3o da Esta\u00e7\u00e3o da Estrada de Ferro Sorocabana, em Mairinque, projetada em 1907 por Victor Dubugras. O modern style que Eckman e Dubugras ostentaram nessas e em outras obras apresentou-se sob dupla faceta: o art nouveau e o art d\u00e9co. Essas tend\u00eancias do fragment\u00e1rio e descont\u00ednuo &#8220;estilo moderno&#8221; inicial, ou protomodernismo, multiplicaram as contradi\u00e7\u00f5es da na\u00e7\u00e3o ne\u00f3fita ao contrapor a t\u00e9cnica artesanal da criatividade cristalizada \u00e0 racionalidade industrial da produ\u00e7\u00e3o em s\u00e9rie. <\/p>\n<p>Simultaneamente, o estilo neocolonial, introduzido pelo arquiteto portugu\u00eas Ricardo Severo, expressava as &#8220;constantes de sensibilidade&#8221; luso-ib\u00e9ricas. Nesse nativismo predominavam as formas do mission style californiano e do marajoara, enquadrado na condi\u00e7\u00e3o de vertente do art d\u00e9co. O per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o, prolongado at\u00e9 a Segunda Guerra Mundial, destaca a f\u00e9erie de cen\u00e1rios e estilos improvisados, mas algumas experi\u00eancias de transforma\u00e7\u00f5es estil\u00edsticas excepcionais foram constru\u00eddas, no Rio de Janeiro, por empreiteiros italianos, ingleses e alem\u00e3es, a partir das concep\u00e7\u00f5es dos arquitetos Virzi, Morales de Los Rios, Heitor de Melo, Archimedes Mem\u00f3ria, Francisque Couchet e Gast\u00e3o Bahiana.<\/p>\n<p>A hegemonia cultural e pol\u00edtica do eixo Rio-S\u00e3o Paulo provocou, nessas cidades, empreendimentos progressistas de renova\u00e7\u00e3o da fisionomia urbana e regional, que se expandiram para as demais regi\u00f5es. A cont\u00ednua modernidade urban\u00edstica e, conseq\u00fcentemente, arquitet\u00f4nica, revela-se na transfer\u00eancia das capitais do Piau\u00ed (para Teresina, em 1852) e de Sergipe (para Aracaju, em 1855); na cria\u00e7\u00e3o das cidades de Belo Horizonte (1894) e Goi\u00e2nia (1933) e nos planos pilotos de Jo\u00e3o Pessoa (1932) e Salvador (1945), capitais dos estados de Minas Gerais, Goi\u00e1s, Para\u00edba e Bahia, respectivamente. <\/p>\n<p>Em 1926, o urbanismo &#8220;renovador&#8221; reprisa a Paris iluminista de Haussman no projeto do franc\u00eas Alfred Agache para a remodela\u00e7\u00e3o e embelezamento da cidade do Rio de Janeiro. Convidado pelo governo, o urbanista estabelece na Am\u00e9rica portuguesa o padr\u00e3o cl\u00e1ssico das capitais modernas europ\u00e9ias e altera radicalmente a morfologia e tipologia das fases anteriores.<\/p>\n<p>O fen\u00f4meno movimento modernista na arquitetura brasileira teve sua &#8220;fase her\u00f3ica&#8221; entre 1930-45. Neste per\u00edodo, alguns arquitetos de renome, ao atenderem \u00e0s necessidades de expans\u00e3o e importa\u00e7\u00e3o\/exporta\u00e7\u00e3o de uma &#8220;arquitetura de renova\u00e7\u00e3o&#8221;, colocaram o Pa\u00eds entre os primeiros no ranking internacional da ind\u00fastria da constru\u00e7\u00e3o civil e difundiram a homogeneiza\u00e7\u00e3o do espet\u00e1culo urbano caracteristicamente cambiante e contingente. <\/p>\n<p>As transforma\u00e7\u00f5es da arquitetura brasileira foram determinadas pelo arquiteto russo Gregori Warchavchik &#8211; graduado em Mil\u00e3o e contratado pelo grupo Simonsen para trabalhar na cidade de S\u00e3o Paulo, no final da d\u00e9cada de 20. O marco inicial destas transforma\u00e7\u00f5es foi o projeto e a constru\u00e7\u00e3o da Casa Modernista, seguido pela publica\u00e7\u00e3o do texto-manifesto Futurismo, a condi\u00e7\u00e3o de representante do Congresso Internacional de Arquitetura Moderna (CIAM) e as classes de arquitetura na Escola Nacional de Belas Artes, ministradas sob a dire\u00e7\u00e3o do arquiteto Lucio Costa, com o qual estabeleceu escrit\u00f3rio no Rio de Janeiro, entre os anos 30 e 32. <\/p>\n<p>A visita do arquiteto Le Corbusier, em 1929, fortalece os arquitetos vanguardistas que atuavam em S\u00e3o Paulo e no Rio de Janeiro, difundindo as id\u00e9ias dos precursores modernistas Walter Gropius, Mies Van der Rohe e Frank Lloyd Wrigth. Por\u00e9m, apenas em 1936 a proposta de Le Corbusier, convidado para resolver o impasse criado no concurso para a sede do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o e Sa\u00fade, no Rio de Janeiro, define a aceita\u00e7\u00e3o &#8220;oficial&#8221; do modernismo, com a renova\u00e7\u00e3o da t\u00e9cnica e express\u00e3o arquitet\u00f4nicas brasileiras. <\/p>\n<p>&#8220;O grupo do pr\u00e9dio do Minist\u00e9rio&#8221;, composto por Affonso Eduardo Reidy, Carlos Le\u00e3o, Ernani Vasconcelos, Jorge Moreira, Lucio Costa e Oscar Niemeyer, consolida o &#8220;per\u00edodo her\u00f3ico&#8221; e propicia o estabelecimento da lideran\u00e7a carioca de Costa e Niemeyer, que realizam, em dupla e individualmente, um roteiro entremeado de obras-primas. Desde 1939, com o Pavilh\u00e3o do Brasil para a Feira Internacional de Nova York, at\u00e9 o concurso internacional e a constru\u00e7\u00e3o do plano piloto de Bras\u00edlia, a nova capital federal, em 1956-60, incluindo o conjunto da Pampulha, de Niemeyer (Belo Horizonte, Minas Gerais), o Hotel do Park S\u00e3o Clemente (Nova Friburgo, Rio de Janeiro) e o conjunto residencial do Parque Guinle (Rio de Janeiro), de Costa, confirmam-se as premissas corbusianas e o di\u00e1logo entre o racionalismo e o organicismo, que fundamentaram a arquitetura brasileira contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p>A atua\u00e7\u00e3o de Lucio Costa no Servi\u00e7o do Patrim\u00f4nio, de 1937 a 1960, \u00e9 simult\u00e2nea \u00e0 sua condi\u00e7\u00e3o de mentor do prest\u00edgio internacional da arquitetura brasileira. Essa etapa se caracteriza no Rio de Janeiro pelo atendimento \u00e0s encomendas do setor privado por Marcelo e Milton Roberto e Henrique Mindlin, enquanto as do setor p\u00fablico dividem os trabalhos de Oscar Niemeyer, Affonso Eduardo Reidy e Carmen Portinho, aos quais se sucedem Francisco Bolonha e S\u00e9rgio Bernardes. Em S\u00e3o Paulo, Fl\u00e1vio de Carvalho e outros herdeiros da tradi\u00e7\u00e3o moderna, como Vital Brasil, Rino Levi, Oswaldo Bratke e Vilanova Artigas, realizam obras significativas, entre elas o conjunto da alameda Lorena, o Edif\u00edcio Esther, a Resid\u00eancia do Arquiteto, o Hospital do C\u00e2ncer e a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo. No Recife, destacam-se Lu\u00eds Nunes e Burle Marx, na d\u00e9cada de 30, e Delfim Amorim, em 1940-50. Outras capitais, como Salvador por exemplo, tiveram em Di\u00f3genes Rebou\u00e7as e Jos\u00e9 Bina Fonyat, leg\u00edtimos seguidores da matriz formalista de base corbusiana. <\/p>\n<p>\u00c0 maneira de Warchavchik, a arquiteta italiana Lina Bo Bardi, de forma\u00e7\u00e3o milanesa, demarca outra tend\u00eancia na transi\u00e7\u00e3o de estilos, desde sua chegada ao Brasil em 1947. Entre 1950-80, na Bahia e em S\u00e3o Paulo, Bo Bardi explorou a multiplicidade de solu\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas da arquitetura brasileira utilizando as fontes vern\u00e1culas e racionalistas como refer\u00eancias para seus projetos de espa\u00e7os culturais e de lazer. O Museu de Arte Moderna de S\u00e3o Paulo, o Solar do Unh\u00e3o, em Salvador, e o Sesc-Pomp\u00e9ia, em S\u00e3o Paulo, demonstram a evolu\u00e7\u00e3o da complexidade e singularidade da arquitetura brasileira.<\/p>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o de Bras\u00edlia configura a supera\u00e7\u00e3o das limita\u00e7\u00f5es culturais e hist\u00f3ricas e, no campo da arquitetura, privilegia a quebra da pretensa unidade est\u00e9tica. As reafirma\u00e7\u00f5es das identidades locais determinam o in\u00edcio da fase p\u00f3s-Bras\u00edlia, quando se evidenciam as caracter\u00edsticas regionais e as diferen\u00e7as de materiais e t\u00e9cnicas construtivas. Al\u00e9m disso, a constata\u00e7\u00e3o do conflito provocado com o adensamento dos bairros centrais das cidades estabeleceu a prioridade para a altera\u00e7\u00e3o das escalas dos projetos de planejamento e desenho urbano. Paralelamente, a despreocupa\u00e7\u00e3o com os modelos modernistas e o cuidado com o habitat ampliaram o campo de trabalho dos arquitetos e possibilitaram o desenvolvimento das tend\u00eancias arquitet\u00f4nicas p\u00f3s-modernistas, tecnol\u00f3gicas e vernaculares. O uso do concreto armado concorre com as estruturas met\u00e1licas; o tijolo aparente e as cer\u00e2micas imprimem as cores tropicais na arquitetura.<\/p>\n<p>Em 1969, Lucio Costa projeta o plano piloto para a Baixada de Jacarepagu\u00e1 e Barra da Tijuca, onde busca atualizar as diretrizes do urbanismo racionalista. Ao mesmo tempo, em v\u00e1rias cidades brasileiras, desde o sul pratense at\u00e9 o norte amaz\u00f4nico, incluindo Minas Gerais e Bras\u00edlia, desenvolvem-se arquiteturas de tend\u00eancias variadas, com a reafirma\u00e7\u00e3o do international style e as varia\u00e7\u00f5es p\u00f3s-modernas. Nesse per\u00edodo revelam-se tanto os continuadores da tradi\u00e7\u00e3o her\u00f3ica, como Joaquim Guedes, Paulo Mendes da Rocha, Ruy Ohtake, Filgueiras Lima, Paulo Cas\u00e9 e Ac\u00e1cio Gil Borsoi, quanto a dos revisores do movimento modernista, como Luiz Paulo Conde, Severiano M\u00e1rio Porto, Francisco de Assis Reis e Jaime Lerner e, finalmente, S\u00e9rgio Magalh\u00e3es, Carlos Bratke, Hector Viglecca e Jo\u00e3o Castro Filho, al\u00e9m de \u00c9olo Maia e seus parceiros, que configuram a nov\u00edssima gera\u00e7\u00e3o mineira, caracterizada por constante exerc\u00edcio de revis\u00e3o cr\u00edtica a partir da absor\u00e7\u00e3o de valores universalistas e regionais.<\/p>\n<p><b>Movimento Modernista <\/b><\/p>\n<p>A industrializa\u00e7\u00e3o e o poder pol\u00edtico nacionais, concentrados no eixo Rio-S\u00e3o Paulo, propiciaram a moderniza\u00e7\u00e3o da arquitetura brasileira entre os anos de 1950-70, consolidando as escolas carioca e paulista.<\/p>\n<p>Desde a d\u00e9cada de 30, quando tem origem na Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro, a escola carioca se torna o movimento que irradia as id\u00e9ias modernistas. O arquiteto Lucio Costa \u00e9 o te\u00f3rico do movimento, que tem nas figuras de Oscar Niemeyer, Jorge Machado Moreira, Milton e Marcelo Roberto e Affonso Eduardo Reydi seus maiores representantes.<\/p>\n<p>A irradia\u00e7\u00e3o do grupo em todo o Pa\u00eds decorre da forma\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria de muitos profissionais, cariocas ou n\u00e3o, que se graduam no Rio de Janeiro e migram para diversos estados. Entre in\u00fameros outros arquitetos e artistas, seguindo a tradi\u00e7\u00e3o do movimento, Roberto Burle-Marx, Luiz Nunes, H\u00e9lio Duarte e, mais recentemente, Ac\u00e1cio Gil Borsoi, Francisco de Assis Reis, Jo\u00e3o Filgueiras Lima e Severiano M\u00e1rio Porto empregam os modelos e padr\u00f5es modernistas em Pernambuco, na Bahia e no Amazonas, adaptando-os simultaneamente \u00e0s necessidades tropicais. <\/p>\n<p>A migra\u00e7\u00e3o desses profissionais estimulou nas capitais e regi\u00f5es do Brasil a cria\u00e7\u00e3o de institui\u00e7\u00f5es, cursos e escrit\u00f3rios de arquitetura e urbanismo, que transferiram experi\u00eancias e processos, t\u00e9cnicas de constru\u00e7\u00e3o e de controle ambiental. A tecnologia avan\u00e7ada do concreto armado e os materiais da regi\u00e3o, as normas urbanas inglesas e americanas, al\u00e9m das novas formas de habita\u00e7\u00e3o multi e unifamiliares, dos espa\u00e7os e equipamentos para o trabalho, o lazer e o ensino, agregaram-se \u00e0s lajes de per\u00edmetro curvo, terra\u00e7os, varandas e marquises, aos brises-soleil e cobog\u00f3s (elemento vazado), para traduzir os elementos b\u00e1sicos e caracter\u00edsticos da escola carioca.<\/p>\n<p><b>Bras\u00edlia<\/b><\/p>\n<p>Bras\u00edlia, a capital do Pa\u00eds inaugurada em 1960, teve a sua constru\u00e7\u00e3o definida em 1956 pelo presidente da Rep\u00fablica, Juscelino Kubitschek, e \u00e9 hoje tombada pela Unesco como Patrim\u00f4nio da Humanidade. Para a decis\u00e3o acerca do plano da cidade foi institu\u00eddo um concurso nacional de projetos, sendo o j\u00fari composto pelo ingl\u00eas William Holford, o franc\u00eas Andr\u00e9 Sive, o grego Stamo Papadaki e os brasileiros Paulo Antunes Ribeiro, Horta Barbosa, Israel Pinheiro (presidente) e Oscar Niemeyer, arquiteto que assina as principais obras arquitet\u00f4nicas da cidade.<\/p>\n<p>Lucio Costa foi proclamado vencedor em 16 de mar\u00e7o de 1957, e os outros projetos classificados foram os das equipes formadas por B. Milman, J. H. Rocha e Ney Gon\u00e7alves (2\u00ba lugar), Rino Levi e associados e M. M. M. Roberto (ambos em 3\u00ba lugar). O projeto da equipe de jovens arquitetos paulistas, da qual fazia parte Joaquim Guedes, continha id\u00e9ias e formas semelhantes \u00e0s do projeto vencedor, comprovando a import\u00e2ncia dos eixos vi\u00e1rios e da estrutura linear para a defini\u00e7\u00e3o do urbanismo contempor\u00e2neo. <\/p>\n<p>O plano piloto de Lucio Costa possui a forma de um avi\u00e3o ou de uma cruz; as asas (sul e norte) s\u00e3o constitu\u00eddas por um eixo rodovi\u00e1rio e eixos laterais (leste e oeste) integrados e margeados por superquadras habitacionais multifamiliares, compostas por blocos longitudinais de seis e tr\u00eas pavimentos, delimitadas transversalmente por ruas para o com\u00e9rcio e equipamentos de ensino e recrea\u00e7\u00e3o. Ao conjunto de quatro superquadras, definidas com elementos suficientes para a escala residencial e cotidiana, d\u00e1-se o nome de Unidade de Vizinhan\u00e7a.<\/p>\n<p>No eixo monumental, bra\u00e7o menor da cruz ou das asas do avi\u00e3o, os edif\u00edcios do governo local e federal est\u00e3o dispostos ora alinhados em seq\u00fc\u00eancia ritmada, compondo a Esplanada dos Minist\u00e9rios, ora agrupados em torno de espa\u00e7os localizados nos p\u00f3los, criando a Pra\u00e7a dos Tr\u00eas Poderes, do governo federal, e o Pa\u00e7o Municipal, na Pra\u00e7a do Buriti. A Catedral de Bras\u00edlia, cuja inusitada estrutura \u00e9 adornada internamente com imagin\u00e1ria religiosa concebida pelo escultor Alfredo Ceschiatti, imp\u00f5e um ponto de inflex\u00e3o na Esplanada, que tem como pano de fundo as monumentais c\u00fapulas do Congresso Nacional.<\/p>\n<p>Nessa imensa via, onde o sinal da cruz se expressa de maneira diretamente simb\u00f3lica e onde se toma posse da terra, segundo os preceitos determinados por Lucio Costa na Mem\u00f3ria Explicativa que acompanhou o seu esbo\u00e7o inicial, os edif\u00edcios das diferentes esferas de governo s\u00e3o entremeados por setores de neg\u00f3cios, lazer e transporte coletivo. As \u00e1reas destinadas a essa mescla de fun\u00e7\u00f5es se encontram em pontos de interse\u00e7\u00e3o e abrigam teatros, shoppings, bancos e rodovi\u00e1ria.<\/p>\n<p>As \u00e1reas onde se localizam as embaixadas e a Universidade de Bras\u00edlia configuram excelente mostra da arquitetura nacional internacional e abrigam centros de pesquisa avan\u00e7ada em diversos campos do conhecimento. Voltadas para o imenso lago artificial que abra\u00e7a a cidade ao leste, essas \u00e1reas s\u00e3o complementadas por clubes e parques, al\u00e9m de resid\u00eancias. A recente ocupa\u00e7\u00e3o do lago por sofisticados equipamentos para compras e recrea\u00e7\u00e3o pretende tornar Bras\u00edlia uma cidade tur\u00edstica, complementando a sua voca\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-institucional e ampliando as possibilidades do desenvolvimento do Centro-oeste, de acordo com as metas do ent\u00e3o presidente Kubitschek.<\/p>\n<p><b>Fase P\u00f3s-Bras\u00edlia <\/b><\/p>\n<p>Com a constru\u00e7\u00e3o de Bras\u00edlia, capital do Pa\u00eds desde 1960, surge uma nova etapa da arquitetura brasileira. \u00c0 quebra da unidade est\u00e9tica inaugurada com a nova cidade, segue-se a afirma\u00e7\u00e3o de identidades locais determinando o in\u00edcio da fase chamada p\u00f3s-Bras\u00edlia. \u00c9 neste per\u00edodo que as caracter\u00edsticas regionais e as diferen\u00e7as de materiais e t\u00e9cnicas de constru\u00e7\u00e3o ficam mais evidentes. A diversidade das propostas formais desperta, no Rio de Janeiro, principalmente nas realiza\u00e7\u00f5es dos arquitetos Paulo Cas\u00e9 e Luiz Paulo Conde, v\u00e1rias revis\u00f5es e releituras do repert\u00f3rio formal das fases protomodernista e racionalista. O que acabou gerando, a partir dos anos 70, as discuss\u00f5es te\u00f3ricas que reafirmam a perda da unidade do pensamento arquitet\u00f4nico, t\u00edpica da gera\u00e7\u00e3o dos 50.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 80 come\u00e7a a reflex\u00e3o sobre a quest\u00e3o urbana e refor\u00e7a-se a crise dos dogmas e dos padr\u00f5es progressistas; dessa forma, a mescla de atividades orienta a ocupa\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os e os aspectos est\u00e9ticos das edifica\u00e7\u00f5es. A arquitetura e o desenho urbano transformam-se em motores do desenvolvimento da cidade do Rio de Janeiro, atraindo investimentos tur\u00edsticos que espraiam por todo o litoral brasileiro os programas de recrea\u00e7\u00e3o e lazer.<\/p>\n<p>As transforma\u00e7\u00f5es em c\u00f3digos locais das for\u00e7as homogeneizadoras, dos princ\u00edpios de Le Corbusier e do funcionalismo arquitet\u00f4nico, revelados na Carta de Atenas, ocorrem de maneira diversa na conhecida escola paulista de arquitetura. At\u00e9 meados de 1940, na fase inicial ou her\u00f3ica do movimento modernista, a forma\u00e7\u00e3o e o ide\u00e1rio est\u00e9tico dos arquitetos paulistas se realizam de maneira id\u00eantica \u00e0 dos cariocas. <\/p>\n<p>Os contatos e interc\u00e2mbios de id\u00e9ias e trabalhos proporcionam a Lucio Costa, Gregori Warchavchik e Fl\u00e1vio de Carvalho o desenvolvimento de parcerias e eventos que t\u00eam na Escola de Belas Artes seu p\u00f3lo aglutinador. A avenida S\u00e3o Jo\u00e3o, na \u00e1rea central da capital paulista, \u00e9 o s\u00edmbolo e a vitrine das semelhan\u00e7as entre as arquiteturas do Rio e de S\u00e3o Paulo. <\/p>\n<p>A d\u00e9cada de 60 &#8211; quando a capital federal do Pa\u00eds se desloca para Bras\u00edlia, os militares instalam a ditadura militar e planeja-se a fase de expans\u00e3o conhecida como &#8220;milagre econ\u00f4mico&#8221; &#8211; caracteriza a fase \u00e1urea da arquitetura paulista, com a predomin\u00e2ncia das grandes estruturas de concreto aparente, sua principal marca. Oswaldo Bratke, Roberto Cerqueira C\u00e9sar e Rino Levi, lado a lado com arquitetos estrangeiros, entre os quais se destaca a italiana Lina Bo Bardi, atendem \u00e0 imensa demanda para a constru\u00e7\u00e3o de apartamentos, edif\u00edcios de escrit\u00f3rios, cinemas e resid\u00eancias da classe m\u00e9dia e da elite paulista, formada por brasileiros de outros quadrantes, al\u00e9m de europeus e asi\u00e1ticos.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Vilanova Artigas, que trabalhou com Warchavchik, em 1939, e complementou os estudos nos Estados Unidos, \u00e9 considerado o definidor da escola paulista de arquitetura. As preocupa\u00e7\u00f5es de Vilanova Artigas com as quest\u00f5es sociais refletem-se nas propostas te\u00f3ricas e na produ\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica que seguem as teses e as formas corbusianas de maneira quase radical. Os temas e os programas arquitet\u00f4nicos, caracter\u00edsticos de suas realiza\u00e7\u00f5es, apresentam grandes planos e geometrias puras; desprovidos de revestimentos, adornos e de met\u00e1foras formalistas, promovem a integra\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os abertos no interior dos edif\u00edcios e o contraste das pesadas vigas com rampas e escadas leves e delicadas. A socializa\u00e7\u00e3o dos equipamentos nos clubes, rodovi\u00e1rias e condom\u00ednios populares, desenvolvida em diversas obras de Artigas e de seus ep\u00edgonos, tornou-se a refer\u00eancia mais significativa para os arquitetos de outros estados.<\/p>\n<p>Joaquim Guedes, Paulo Mendes da Rocha e Ruy Ohtake &#8211; descendente de japoneses e fortemente influenciado pelos exerc\u00edcios formais niemeyerianos -, lado a lado com talentos recentes, como Carlos Bratke e Hector Viglecca, propagaram em Bras\u00edlia, Goi\u00e1s, Rio de Janeiro e no interior do estado de S\u00e3o Paulo as solu\u00e7\u00f5es da arquitetura paulista, procurando sempre aliar a produ\u00e7\u00e3o industrial ao rigor geom\u00e9trico. <\/p>\n<p>Ap\u00f3s a febre do concreto aparente, da completa aus\u00eancia de revestimentos e do uso excessivo de grandes v\u00e3os em estruturas met\u00e1licas nas d\u00e9cadas de 60 e 70, expressos admiravelmente na avenida Paulista e nos clubes e escolas do interior, os arquitetos deram seq\u00fc\u00eancia \u00e0 pl\u00e1stica p\u00f3s-modernista, estabelecendo o di\u00e1logo das veda\u00e7\u00f5es revestidas em cer\u00e2micas de cores vivas com os vazios, projetando edif\u00edcios comerciais e resid\u00eancias multifamiliares que ocupam novos bairros e alteram as perspectivas das avenidas marginais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por C\u00ea\u00e7a de Guimaraens, arquiteta graduada na Universidade de Bras\u00edlia, mestre em Teorias da Comunica\u00e7\u00e3o e doutoranda em Planejamento Urbano e Regional. \u00c9 professora assistente da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro e diretora do Departamento de Identifica\u00e7\u00e3o e Documenta\u00e7\u00e3o do Instituto do Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico Nacional (Iphan). 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