{"id":3136,"date":"2012-08-21T15:12:57","date_gmt":"2012-08-21T18:12:57","guid":{"rendered":"https:\/\/crea-mt.org.br\/portal\/civilizacao-eugenia-e-as-cidades-no-brasil\/"},"modified":"2012-08-21T15:12:57","modified_gmt":"2012-08-21T18:12:57","slug":"civilizacao-eugenia-e-as-cidades-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/civilizacao-eugenia-e-as-cidades-no-brasil\/","title":{"rendered":"Civiliza\u00e7\u00e3o: eugenia e as cidades no Brasil"},"content":{"rendered":"<p>.<br \/>\n<b>Marcos Virg\u00edlio da Silva \u00e9 arquiteto pela FAU-USP e consultor ambiental, \u00e9 mestrando na \u00e1rea de Hist\u00f3ria e Fundamentos da Arquitetura e Urbanismo, tamb\u00e9m pela FAU-USP, e desenvolve pesquisa sobre a influ\u00eancia de doutrinas biol\u00f3gicas na formula\u00e7\u00e3o da id\u00e9ia de \u0093meio ambiente urbano\u0094<\/b><\/p>\n<p>O pensamento racial do s\u00e9culo XIX herda do s\u00e9culo anterior concep\u00e7\u00f5es sobre os povos \u0093primitivos\u0094 descobertos na Am\u00e9rica, \u00c1frica e \u00c1sia que op\u00f5em a id\u00e9ia de uma humanidade \u00fanica a outra que apontava diferen\u00e7as fundamentais entre os diferentes grupos humanos (1). A no\u00e7\u00e3o de ra\u00e7a, introduzida por Georges Cuvier, e a de degenera\u00e7\u00e3o da ra\u00e7a provocada pela miscigena\u00e7\u00e3o, pelo Conde Gobineau, revelam um racioc\u00ednio \u0093segundo o qual os europeus do Norte tinham atingido poder econ\u00f4mico e pol\u00edtico devido \u00e0 hereditariedade e ao meio f\u00edsico favor\u00e1veis\u0094 (2). <\/p>\n<p>\u00c9 nesse quadro das ci\u00eancias que se desenvolve a Eugenia. O presente estudo trata da presen\u00e7a do pensamento eug\u00eanico no pensamento sobre as cidades no Brasil (especialmente em S\u00e3o Paulo), nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX. A hip\u00f3tese b\u00e1sica deste trabalho \u00e9 que n\u00e3o apenas o chamado higienismo explica as interven\u00e7\u00f5es urbanas no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, mas tamb\u00e9m o intuito de promover a melhoria da ra\u00e7a. A atua\u00e7\u00e3o da psiquiatria para com as doen\u00e7as heredit\u00e1rias, os dist\u00farbios mentais e as malforma\u00e7\u00f5es f\u00edsicas s\u00e3o bons exemplos da ideologia eugenista, \u00e0 qual poderia ser relacionada a cria\u00e7\u00e3o dos manic\u00f4mios p\u00fablicos e dos sanat\u00f3rios.<\/p>\n<p><b>Origens e conceitua\u00e7\u00e3o da eugenia<\/b><\/p>\n<p>O termo eugenia (\u0093boa gera\u00e7\u00e3o\u0094) foi cunhado por Francis Galton em 1883, no livro Inquires into human faculty. Sob a influ\u00eancia da leitura do livro de seu primo Charles Darwin, A origem das esp\u00e9cies, Galton lan\u00e7a as bases do que depois ganhar\u00e1 o nome de eugenia com o livro Hereditary genius (1869). Nesse livro, Galton procura demonstrar que a capacidade humana decorria da hereditariedade mais do que da pr\u00f3pria educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Segundo defini\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio Galton, Eugenia \u00e9 a \u0093ci\u00eancia que lida com todas as influ\u00eancias que melhoram as qualidades natas de uma ra\u00e7a; tamb\u00e9m aquelas que as desenvolvem \u00e0 m\u00e1xima vantagem\u0094 (3). Seus objetivos podem ser assim descritos: \u0093reunir tantas influ\u00eancias quantas possam ser razoavelmente empregadas, para fazer com que as classes \u00fateis na comunidade possam contribuir mais do que sua propor\u00e7\u00e3o para a gera\u00e7\u00e3o seguinte\u0094 (4).<\/p>\n<p>A ansiedade com o futuro da sociedade, refor\u00e7ada por uma s\u00e9rie de transforma\u00e7\u00f5es sociais e econ\u00f4micas, criava o contexto no qual a eugenia aflora como uma esperan\u00e7a para a elite branca e rica. Em 1909, em um dos artigos de sua colet\u00e2nea Esays on Eugenics (5), Galton parte de uma proposi\u00e7\u00e3o estat\u00edstica de distribui\u00e7\u00e3o de \u0093talentos\u0094 entre uma dada popula\u00e7\u00e3o para defender que o car\u00e1ter e as faculdades dos seres humanos seriam distribu\u00eddos de acordo com certas leis estat\u00edsticas. Adotando o crit\u00e9rio de distribui\u00e7\u00e3o de \u0093valor c\u00edvico\u0094, procura demonstrar que este tamb\u00e9m obedece razoavelmente a essas leis. O racioc\u00ednio desloca-se para a sociedade a partir da ado\u00e7\u00e3o da premissa de que \u0093os c\u00e9rebros de nossa na\u00e7\u00e3o encontram-se nas mais altas de nossas classes\u0094 (6), e ent\u00e3o Galton conclui pela \u0093economia de esfor\u00e7o\u0094 em se concentrar a aten\u00e7\u00e3o sobre as elites para buscar o aprimoramento da ra\u00e7a. Seria estatisticamente mais proveitoso investir nos casamentos em que ambos os c\u00f4njuges s\u00e3o oriundos da mesma classe alta do que em casos em que apenas um deles o \u00e9. Acrescenta Galton que \u00e9 muito mais importante promover o aumento da produtividade do melhor estoque do que reprimir a do pior.<\/p>\n<p>Suas sugest\u00f5es para isso incluem conceder incentivos monet\u00e1rios para antecipar casamentos desej\u00e1veis e fornecer condi\u00e7\u00f5es para uma \u0093vida simples\u0094 em uma casa saud\u00e1vel. \u00c9 interessante notar a \u00eanfase de Galton no perigo da urbaniza\u00e7\u00e3o acelerada para a civiliza\u00e7\u00e3o: \u0093aqueles que v\u00eam para as cidades podem produzir grandes fam\u00edlias, mas h\u00e1 muita raz\u00e3o em acreditar que essas diminuem nas gera\u00e7\u00f5es seguintes. Em resumo, as cidades esterilizam o vigor rural\u0094 (7).<\/p>\n<p><b>Eugenia e eugenismo no Brasil<\/b><\/p>\n<p>\u00c0 medida que as teorias racistas come\u00e7aram a ser postas em d\u00favida, nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX, novos intelectuais passaram a questionar o determinismo geogr\u00e1fico e biol\u00f3gico como explica\u00e7\u00e3o para os problemas nacionais. Paradoxalmente, a ideologia do branqueamento (8) se consolidou. Nesse per\u00edodo, a instabilidade pol\u00edtica que levaria \u00e0 crise e derrocada da Primeira Rep\u00fablica mostrava cada vez mais um aprofundamento das divis\u00f5es internas na elite. A somat\u00f3ria desta cis\u00e3o com as transforma\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e sociais, al\u00e9m do desenvolvimento da ci\u00eancia (especialmente da medicina) brasileira, criou o ambiente no qual surgiu e ganhou espa\u00e7o no Brasil a eugenia. Na opini\u00e3o de Couto,<br \/>\na Eugenia se tornou um am\u00e1lgama ideol\u00f3gico num espa\u00e7o de conflito, contextualizado pelo fracionamento dos interesses econ\u00f4micos entre setores agr\u00e1rios alijados do poder pela burguesia cafeeira e de rec\u00e9m-surgidos industriais, al\u00e9m de uma classe m\u00e9dia multifacetada e de reivindica\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias constantes (9)<\/p>\n<p>O Brasil foi o primeiro pa\u00eds sul-americano a ter um movimento eugenista organizado, a partir da cria\u00e7\u00e3o da Sociedade Eug\u00eanica de S\u00e3o Paulo (1918). O movimento eug\u00eanico brasileiro \u00e9 bastante heterog\u00eaneo, mas vale destacar sua atua\u00e7\u00e3o junto \u00e0 sa\u00fade p\u00fablica e o saneamento, bem como \u00e0 psiquiatria e \u0093higiene mental\u0094 ao longo das d\u00e9cadas de 1920 e 1930, o que permite verificar algumas das principais quest\u00f5es nas quais a quest\u00e3o urbana se relaciona ao pensamento eug\u00eanico.<\/p>\n<p>A uni\u00e3o entre Eugenia e Higiene foi, na opini\u00e3o de Nancy Stepan (10) caracter\u00edstica do movimento eugenista brasileiro. Parte do sucesso do eugenismo nesse per\u00edodo parece devido \u00e0 sua formula\u00e7\u00e3o suprapol\u00edtica. Podendo ser utilizada por qualquer tend\u00eancia pol\u00edtico-ideol\u00f3gica, a eugenia \u0093oferecia mecanismos de conten\u00e7\u00e3o dos conflitos sociais provenientes das reivindica\u00e7\u00f5es trabalhistas e justificavam o fortalecimento do Estado\u0094 (11). A luta pelo saneamento, com o apoio das pr\u00e1ticas eugenistas, buscava resguardar \u0096 ou resgatar \u0096 a for\u00e7a de trabalho. As campanhas pelo saneamento, que culminaram com a cria\u00e7\u00e3o da Liga Pr\u00f3-Saneamento tinham \u00e0 frente, por exemplo, a figura de Belis\u00e1rio Penna, membro efetivo da Comiss\u00e3o Central Brasileira de Eugenia.<\/p>\n<p>Fazia parte do ideal desses m\u00e9dicos sanitaristas a cr\u00edtica aos modelos pol\u00edticos vigentes. Um aspecto importante dessa cr\u00edtica, por\u00e9m, \u00e9 uma aceita\u00e7\u00e3o da doutrina da \u0093voca\u00e7\u00e3o agr\u00edcola\u0094 do pa\u00eds por uma grande parcela da elite, e que consta tamb\u00e9m das proposi\u00e7\u00f5es da Comiss\u00e3o Central Brasileira de Eugenia:<\/p>\n<p>Direitos de sucess\u00e3o que favore\u00e7am os trabalhadores dos campos no sentido de garantir a estabilidade econ\u00f4mica das fam\u00edlias sadias e prol\u00edferas de agricultores e criadores (12).<\/p>\n<p>Apenas uma parcela \u00ednfima da popula\u00e7\u00e3o rural teria condi\u00e7\u00f5es de ser agraciada pelos direitos de sucess\u00e3o reivindicados pelos eugenistas. Essas propostas parecem tentar garantir aos j\u00e1 propriet\u00e1rios rurais que n\u00e3o seriam reconhecidos direitos, aos ex-escravos libertos ou seus descendentes, de terras que tivessem ocupado como \u0093posseiros\u0094 ap\u00f3s a Aboli\u00e7\u00e3o. Mais do que isso, as melhorias do campo e a regenera\u00e7\u00e3o da ra\u00e7a visavam unicamente o aumento da produtividade dos trabalhadores rurais, n\u00e3o em qualquer tentativa de reorganiza\u00e7\u00e3o da estrutura fundi\u00e1ria do campo.<\/p>\n<p>J\u00e1 nas cidades, a atua\u00e7\u00e3o dos eugenistas se caracteriza pelo disciplinamento das massas trabalhadoras atrav\u00e9s da no\u00e7\u00e3o de higiene mental. Na d\u00e9cada de 1920, a eugenia ocupa um lugar central no discurso psiqui\u00e1trico brasileiro. Advogando a possibilidade de interven\u00e7\u00e3o racional sobre a sele\u00e7\u00e3o natural, a eugenia se apresentava com a proposta de defender a sa\u00fade f\u00edsica e moral dos trabalhadores brasileiros. Assim, o movimento de Higiene Mental \u00e9 uma extens\u00e3o e um desdobramento das quest\u00f5es eug\u00eanicas, e \u0093ratificava par\u00e2metros disciplinares, os quais deveriam garantir a forma\u00e7\u00e3o de uma popula\u00e7\u00e3o sadia, sem conflitos\u0094 (13).<\/p>\n<p>A higiene mental extrapola ent\u00e3o os limites de sua disciplina e passa a cuidar das condi\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas da sociedade como um todo, organizando uma vida sadia. Ganhou for\u00e7a aqui a cren\u00e7a de que fatores externos como doen\u00e7as e o alcoolismo contribu\u00edam para a degenera\u00e7\u00e3o da ra\u00e7a. Sob os preceitos da higiene mental, Antonio Carlos Pacheco e Silva criou o Sanat\u00f3rio Pinel de Pirituba, para suprir a demanda proveniente do processo de urbaniza\u00e7\u00e3o e combater os \u0093detritos da civiliza\u00e7\u00e3o\u0094 (14). A intensa urbaniza\u00e7\u00e3o do per\u00edodo fez emergir a quest\u00e3o da loucura na ordena\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o urbano, concebida como fonte potencial de \u0093epidemias ps\u00edquicas\u0094. Essa concep\u00e7\u00e3o \u00e9 expressa por Pacheco e Silva:<\/p>\n<p>Freq\u00fcentemente, nas grandes aglomera\u00e7\u00f5es, os homens deixam-se conduzir por indiv\u00edduos tarados, portadores de estados psicop\u00e1ticos, de id\u00e9ias m\u00f3rbidas de reivindica\u00e7\u00e3o, de del\u00edrios pleitistas, de id\u00e9ias delirantes de persegui\u00e7\u00e3o. Tais tipos m\u00f3rbidos s\u00e3o dotados de grande capacidade de proselitismo e s\u00e3o extremamente ativos na defesa de suas id\u00e9ias m\u00f3rbidas, raz\u00e3o por que exercem grande influ\u00eancia sobre as massas (15).<\/p>\n<p>Admite-se aqui fatores sociais como elementos \u0093disg\u00eanicos\u0094 e sua vincula\u00e7\u00e3o a finalidades pol\u00edticas \u0096 no caso, o ativista pol\u00edtico igualado a um paran\u00f3ico. Da mesma forma, e com muita freq\u00fc\u00eancia, o feminismo era visto como uma amea\u00e7a \u00e0 fam\u00edlia (16). As mulheres, concebidas pelos eugenistas como \u0093sacerdotisas da Eugenia\u0094, fr\u00e1geis f\u00edsica e intelectualmente, deveriam se enquadrar em r\u00edgidos moldes comportamentais sob risco de terem sua cidadania esvaziada sob o diagn\u00f3stico de enlouquecimento.<\/p>\n<p>Assegurar a ordem social cada vez mais amea\u00e7ada pelo crescimento das cidades foi um dos principais pap\u00e9is atribu\u00eddos \u00e0s institui\u00e7\u00f5es psiqui\u00e1tricas, e a grande motiva\u00e7\u00e3o para cria\u00e7\u00e3o do Sanat\u00f3rio Pinel: uma resposta ao medo perante o crescimento da cidade, e um exemplo do esfor\u00e7o eug\u00eanico para ordena\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o urbano para o qual contribu\u00edram membros da elite social paulista, capitalistas, comerciantes, advogados e m\u00e9dicos.<\/p>\n<p><b>Dois eugenistas: Renato Kehl e Belis\u00e1rio Penna<\/b><\/p>\n<p>A Sociedade Eug\u00eanica de S\u00e3o Paulo foi respons\u00e1vel pelos primeiros trabalhos sistematizados em eugenia no Brasil. Nome central dessa institui\u00e7\u00e3o, e do eugenismo brasileiro, \u00e9 o do ativista e m\u00e9dico Renato Ferraz Kehl (17). Entre 1917 e 1937, Kehl divulgou ativamente o movimento, publicando dezenas de livros relacionados \u00e0 eugenia, bancando folhetos, proferindo confer\u00eancias e participando de debates.<\/p>\n<p>Inicialmente, Kehl n\u00e3o admite a aplica\u00e7\u00e3o das leis darwinistas ao melhoramento da ra\u00e7a humana. Convuls\u00f5es econ\u00f4micas e sociais (fatores que poderiam interferir na evolu\u00e7\u00e3o progressista da humanidade) provocariam somente uma luta de homem contra homem, o que n\u00e3o caracterizaria a luta darwinista. Em seu livro de 1923, Kehl defende a id\u00e9ia de que \u0093instruir \u00e9 eugenizar, sanear \u00e9 eugenizar\u0094 (18).<\/p>\n<p>A s\u00famula de seu pensamento eugenista, contudo, est\u00e1 no livro comemorativo de vinte anos de campanha eug\u00eanica, Por que sou eugenista (19). O maior interesse do livro est\u00e1 na verifica\u00e7\u00e3o de que algumas posi\u00e7\u00f5es claramente se radicalizam em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 obra de 1923. Algumas id\u00e9ias pol\u00eamicas s\u00e3o defendidas nesse livro, como a esteriliza\u00e7\u00e3o compuls\u00f3ria de \u0093certos alienados e criminosos\u0094 e a pr\u00e1tica da \u0093filantropia seletiva\u0094, orientada \u0093no sentido eug\u00eanico de amparar os elementos produtivos e, sobretudo, os tipos superiores da coletividade\u0094, conforme preconizado por Galton em 1909. Nesse livro, Kehl apresenta uma abordagem que denomina bio-social \u0096 chave para compreender as propostas e a atua\u00e7\u00e3o de Renato Kehl ao final dos anos 1930. De uma recusa \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o das leis \u0093naturais\u0094 ao \u00e2mbito social em 1923, Kehl passa em 1937 a declarar que<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 solu\u00e7\u00e3o para os males sociais fora das leis da biologia, N\u00e3o h\u00e1 pol\u00edtica racional, independente dos princ\u00edpios biol\u00f3gicos, capaz de trazer paz e felicidade aos povos. Eis por que a pol\u00edtica, por excel\u00eancia, \u00e9 a pol\u00edtica biol\u00f3gica, a pol\u00edtica com base na eugenia. (20).<\/p>\n<p>Kehl tinha pleno conhecimento das pr\u00e1ticas eug\u00eanicas na Europa, inclusive na Alemanha de Hitler. Ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial, continua publicando livros, voltando-se aos estudos de medicina legal e criminologia, mas acaba encerrando a carreira j\u00e1 em 1947 (21). Aparentemente, tornara-se insustent\u00e1vel a defesa da Eugenia ap\u00f3s o Holocausto nazista.<\/p>\n<p>Belis\u00e1rio Penna \u00e9 um dos nomes fundamentais do higienismo brasileiro (22). Sua presen\u00e7a entre os membros permanentes da Comiss\u00e3o Brasileira Central de Eugenia refor\u00e7a o argumento de que higienismo e eugenismo comumente se misturam no Brasil. Seu livro Saneamento do Brasil (23) foi muito importante como fundamento de posi\u00e7\u00f5es eugenistas, e sintetiza as mais importantes quest\u00f5es que encorajaram Penna a assumir lugar entre seus partid\u00e1rios. Seu foco \u00e9 o interior do pa\u00eds \u0096principalmente o sert\u00e3o \u0096 e os problemas de sa\u00fade rurais. Essa posi\u00e7\u00e3o serve-lhe de pretexto para criticar a concentra\u00e7\u00e3o populacional nas cidades e o abandono do restante do territ\u00f3rio. As principais causas do crescimento das doen\u00e7as, na avalia\u00e7\u00e3o do higienista, s\u00e3o: aboli\u00e7\u00e3o abrupta da escravid\u00e3o, r\u00e1pida extens\u00e3o da rede ferrovi\u00e1ria e desconhecimento dos assuntos da higiene pr\u00e1tica e da medicina. Com rela\u00e7\u00e3o ao primeiro dos problemas, o argumento de Penna \u00e9 que a aboli\u00e7\u00e3o veio desestabilizar uma sociedade organizada, est\u00e1vel e produtiva:<\/p>\n<p>Foram centenas de milhares de indiv\u00edduos ignorantes e broncos que, libertos do jugo, nem sempre humano, dos senhores, se espalharam em todas as dire\u00e7\u00f5es, afundando-se legi\u00f5es deles nas matas e nos sert\u00f5es, \u00e0s margens de rios e riach\u00f5es, entregues sem peias ao \u00e1lcool e \u00e0s orgias, sem a mais ligeira no\u00e7\u00e3o de higiene, animalizando-se, voltando quase ao estado selvagem dos seus antepassados, na \u00e2nsia natural do uso pleno da liberdade, cujas del\u00edcias n\u00e3o podiam eles compreender que s\u00f3 se pode desfrutar pelo trabalho, pelo esfor\u00e7o met\u00f3dico, pela cultura do esp\u00edrito e pela sa\u00fade (24).<\/p>\n<p>J\u00e1 o avan\u00e7o das ferrovias para o interior teria exposto a popula\u00e7\u00e3o rural aos \u0093v\u00edcios da cidade\u0094, que atingiam o campo com a facilidade da ferrovia.<\/p>\n<p>Na an\u00e1lise das condi\u00e7\u00f5es de habita\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre destacada a promiscuidade dos h\u00e1bitos (pais e filhos dormindo juntos, principalmente). Esse vocabul\u00e1rio n\u00e3o representa novidade entre os higienistas, mas em numerosas ocasi\u00f5es o texto afirma que a somat\u00f3ria desses fatores contribui para a degenera\u00e7\u00e3o dos sertanejos. A aplica\u00e7\u00e3o dos preceitos da higiene e o controle das mol\u00e9stias contribuiriam a regenera\u00e7\u00e3o da ra\u00e7a (25) em poucos anos.<\/p>\n<p>Um outro aspecto \u00e9 a condena\u00e7\u00e3o do consumo da cacha\u00e7a, retratada como um dos principais fatores de degenera\u00e7\u00e3o. Tal \u00e9 a gravidade do problema, para Penna, que \u00e9 na tributa\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o de aguardente que se baseia a proposta de uma \u0093Taxa de Sa\u00fade\u0094 capaz de custear a implanta\u00e7\u00e3o de suas propostas higienistas. Essa quest\u00e3o \u00e9 apresentada numerosas vezes ao longo do texto, e a \u00eanfase s\u00f3 pode ser compreendida se relacionada ao modelo agr\u00e1rio de enriquecimento brasileiro proposto por Belis\u00e1rio Penna. Uma pol\u00edtica voltada para o interior, baseada na m\u00e3o-de-obra j\u00e1 dispon\u00edvel, e o combate \u00e0 \u0093degenera\u00e7\u00e3o\u0094 provocada pela doen\u00e7a e pelo alcoolismo permitiriam ao brasileiro uma produtividade compar\u00e1vel \u00e0 de qualquer outro pa\u00eds do mundo. Penna chega a abordar uma quest\u00e3o que, mais explorada, apontaria com maior clareza conflitos ocultos pela mera quest\u00e3o da cacha\u00e7a:<\/p>\n<p>O fazendeiro, em geral, ou seu preposto, percorre diariamente as cocheiras e verifica se est\u00e3o limpas, se a ra\u00e7\u00e3o do milho ou da alfafa foi dada a tempo e a hora (&#8230;) sob impreca\u00e7\u00f5es aos encarregados desses servi\u00e7os, chamando-os de relapsos, malandros, cachaceiros e pregui\u00e7osos (&#8230;). Nunca indaga dos infelizes como e onde dormem, o que comem, como vivem a mulher e os filhos. (&#8230;) Ao contr\u00e1rio, monta na fazenda um armaz\u00e9m para explorar o pobre diabo, fornecendo-lhe g\u00eaneros aliment\u00edcios, em geral o refugo do com\u00e9rcio, e artigos grosseiros de vestu\u00e1rio, por pre\u00e7os inomin\u00e1veis, com 60 a 80% acima do custo, e cacha\u00e7a \u00e0 vontade, at\u00e9 que o desgra\u00e7ado se escraviza por uma d\u00edvida, que nunca mais consegue saldar com o minguado sal\u00e1rio, e foge da noite para o dia, indo empregar-se em outra fazenda, onde recome\u00e7a o mart\u00edrio (26).<\/p>\n<p><b>Derrocada e perman\u00eancias do pensamento eug\u00eanico nas quest\u00f5es sociais e urbanas<\/b><\/p>\n<p>Com a Segunda Guerra Mundial, a eugenia foi desacreditada como ci\u00eancia e condenada como postura pol\u00edtica. Mas dificilmente se poder\u00e1 afirmar que seu discurso tenha desaparecido. As doutrinas raciais se mant\u00eam, a tentativa de desqualificar ou mascarar conflitos sociais continua t\u00e3o viva quanto antes, especialmente no trato de quest\u00f5es como da criminalidade. Enfrentar essas quest\u00f5es pressup\u00f5e o conhecimento de suas origens e, nesse sentido, \u00e9 fundamental recuperar e analisar o pensamento eug\u00eanico.<\/p>\n<p>Primeiramente, para reconhecer os aspectos em que o discurso eug\u00eanico tenha sobrevivido. Recorrentes tentativas de explicar comportamentos e conflitos sociais em termos de leis biol\u00f3gicas ou naturais devem ser encaradas sob essa perspectiva. Em segundo lugar, para reconhecer que tais formas de ci\u00eancia n\u00e3o podem ser dissociadas das rela\u00e7\u00f5es e des\u00edgnios sociais que as engendraram. \u00c9 necess\u00e1rio manter-se atento a novas tentativas de justifica\u00e7\u00e3o, pelo conhecimento cientifico, de pr\u00e1ticas sociais question\u00e1veis. Nossa \u00e9poca n\u00e3o est\u00e1 imune a essas tentativas, mesmo que a eugenia tenha sido relegada a uma condi\u00e7\u00e3o de \u0093tabu\u0094; tampouco se pode considerar o Brasil imune a tais manipula\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas, como mostra a constata\u00e7\u00e3o de uma \u00edntima rela\u00e7\u00e3o entre higienismo e eugenismo. Em outros campos de conhecimento, a influ\u00eancia e os resultados do pensamento eug\u00eanico est\u00e3o sendo discutidos, e a reflex\u00e3o sobre as cidades n\u00e3o deveria se furtar a esse desafio. Ainda h\u00e1 muito que recuperar sobre esse assunto.<\/p>\n<p>Por \u00faltimo, conv\u00e9m comentar a representa\u00e7\u00e3o da cidade verificada. Parece claro, a essa altura, que os eugenistas concebem a cidade quase invariavelmente como v\u00edcio. Num momento em que as cidades parecem mais uma vez representar o ambiente concentrador de mis\u00e9rias, v\u00edcios e criminalidade, conv\u00e9m observar como o discurso desses eugenistas, ao insistir no v\u00edcio das cidades, e proporem \u0093melhorias\u0094 e \u0093regenera\u00e7\u00e3o\u0094, escondiam posi\u00e7\u00f5es pol\u00edtico-sociais racistas e bastante reacion\u00e1rias.<\/p>\n<p><b>Notas<\/b><\/p>\n<p>1<br \/>\nPara uma discuss\u00e3o detalhada do assunto, vide SCHWARCZ, Lilia Moritz. O espet\u00e1culo das ra\u00e7as \u0096 cientistas, institui\u00e7\u00f5es e quest\u00e3o racial no Brasil 1870-1930. S\u00e3o Paulo, Cia das Letras, 2000.<\/p>\n<p>2<br \/>\nSKIDMORE, Thomas E. Preto no branco \u0096 ra\u00e7a e nacionalidade no pensamento social brasileiro. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1976, p. 44.<\/p>\n<p>3<br \/>\nGALTON, Francis. Esays on eugenics. Londres, The Eugenics Education Society, 1909, p. 35.<\/p>\n<p>4<br \/>\nIdem, ibidem, p. 38.<\/p>\n<p>5<br \/>\n\u0093The possible improvement of the human breed, under the existing conditions of law and sentiment\u0094 in GALTON, Francis. Op. cit., p. 1-34.<\/p>\n<p>6<br \/>\nIdem, ibidem, p. 11.<\/p>\n<p>7<br \/>\nIdem, ibidem, p. 27.<\/p>\n<p>8<br \/>\nSKIDMORE, Thomas E. Op. cit.<\/p>\n<p>9<br \/>\nCOUTO, Rita Cristina Carvalho de Medeiros. \u0093Eugenia, loucura e condi\u00e7\u00e3o feminina no Brasil: as pacientes do Sanat\u00f3rio Pinel de Pirituba e o discurso dos m\u00e9dicos e dos leigos durante a d\u00e9cada de 1930\u0094. Tese de mestrado. Faculdade de Filosofia, Letras e Ci\u00eancias Humanas da Universidade de S\u00e3o Paulo, S\u00e3o Paulo, 1994, p. 18-19.<\/p>\n<p>10<br \/>\nCOUTO, Rita Cristina Carvalho de Medeiros. Op. cit. e COUTO, Rita Cristina Carvalho de Medeiros. \u0093Nos corredores do Pinel: eugenia e psiquiatria\u0094. Tese de doutorado. FFLCH-USP, S\u00e3o Paulo, 1999.<\/p>\n<p>11<br \/>\nCOUTO, Rita Cristina Carvalho de Medeiros. Op. cit. (1994), p. 24.<\/p>\n<p>12<br \/>\nKEHL, Renato. Por que sou eugenista \u0096 20 anos de campanha eug\u00eanica, 1917-1937. Rio de Janeiro, F. Alves, 1937, p. 95.<\/p>\n<p>13<br \/>\nCOUTO, Rita Cristina Carvalho de Medeiros. Op. cit. (1999), p. 10.<\/p>\n<p>14<br \/>\nCOUTO, Rita Cristina Carvalho de Medeiros. Op. cit. (1994), p. 15.<\/p>\n<p>15<br \/>\nPACHECO E SILVA, apud COUTO, Rita Cristina Carvalho de Medeiros. Op. cit. (1994), p. 25-26.<\/p>\n<p>16<br \/>\nCOUTO, Rita Cristina Carvalho de Medeiros. Op. cit. (1999).<\/p>\n<p>17<br \/>\nPara uma an\u00e1lise bastante cuidadosa das concep\u00e7\u00f5es eug\u00eanicas de Renato Kehl, vide CASTA\u00d1EDA, Luzia Aur\u00e9lia. Apontamentos historiogr\u00e1ficos sobre a fundamenta\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica da eugenia. Episteme Vol. 3 (5:23-48). Porto Alegre, ILEA \/ UFRGS \/ Grupo Interdisciplinar em Filosofia e Hist\u00f3ria das Ci\u00eancias, 1998.<\/p>\n<p>18<br \/>\nKEHL, Renato. Eugenia e medicina social; problemas da vida (2. ed). Rio de Janeiro: Alves, 1923, p. 20.<\/p>\n<p>19<br \/>\nIdem, ibidem, 1937, cita\u00e7\u00f5es a seguir das p\u00e1ginas 81 e 76.<\/p>\n<p>20<br \/>\nIdem, ibidem, 1937, p. 13.<\/p>\n<p>21<br \/>\nCOUTO, Rita Cristina Carvalho de Medeiros. Op. cit. (1999).<\/p>\n<p>22<br \/>\nLIMA, N\u00edsia Trindade; HOCHMAN, Gilberto. \u0093Condenado pela ra\u00e7a, absolvido pela Medicina: o Brasil descoberto pelo Movimento Sanitarista da Primeira Rep\u00fablica\u0094 in MAIO, Marcos Chor; SANTOS, Ricardo Ventura. Ra\u00e7a, ci\u00eancia e sociedade. Rio de Janeiro, Ed. FIOCRUZ\/Centro Cultural Banco do Brasil, 1996.<\/p>\n<p>23<br \/>\nPENNA, Belis\u00e1rio. Saneamento do Brasil. Rio de Janeiro, Jacintho Ribeiro dos Santos, 1918.<\/p>\n<p>24<br \/>\nIdem, ibidem, p. 15.<\/p>\n<p>25<br \/>\nIdem, ibidem, p. 133.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>. Marcos Virg\u00edlio da Silva \u00e9 arquiteto pela FAU-USP e consultor ambiental, \u00e9 mestrando na \u00e1rea de Hist\u00f3ria e Fundamentos da Arquitetura e Urbanismo, tamb\u00e9m pela FAU-USP, e desenvolve pesquisa sobre a influ\u00eancia de doutrinas biol\u00f3gicas na formula\u00e7\u00e3o da id\u00e9ia de \u0093meio ambiente urbano\u0094 O pensamento racial do s\u00e9culo XIX herda do s\u00e9culo anterior concep\u00e7\u00f5es [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-3136","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3136","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3136"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3136\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3136"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3136"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3136"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}