{"id":3105,"date":"2012-08-21T15:12:57","date_gmt":"2012-08-21T18:12:57","guid":{"rendered":"https:\/\/crea-mt.org.br\/portal\/mamonas-assassinas-porem-sagradas\/"},"modified":"2012-08-21T15:12:57","modified_gmt":"2012-08-21T18:12:57","slug":"mamonas-assassinas-porem-sagradas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/mamonas-assassinas-porem-sagradas\/","title":{"rendered":"Mamonas assassinas&#8230; por\u00e9m sagradas"},"content":{"rendered":"<p>.<br \/>\n<b>Expedito Jos\u00e9 de S\u00e1 Parente, professor aposentado da UFC, diretor da TecBio. Artigo enviado pelo autor ao \u0091JC e-mail\u0092<\/b><\/p>\n<p>Um hectare de mamoneira pode gerar at\u00e9 750 kg de \u00f3leo, podendo resultar 800 litros de biodiesel. Se consorciada com o feij\u00e3o de ciclo curto, dois hectares de lavoura s\u00e3o suficientes para promover a inclus\u00e3o social de uma fam\u00edlia em estado de mis\u00e9ria<\/p>\n<p>Planta bastante disseminada nos terrenos baldios, a carrapateira nos lembra a inf\u00e2ncia com alegria, pois o seu fruto substitu\u00eda a pedra usada como bala de baladeira.<\/p>\n<p>Apesar de ser um instrumento b\u00e9lico dos meninos, nunca provocou mais que a alegria e agita\u00e7\u00e3o dos adolescentes traquinos. Eles n\u00e3o sabiam que das bagas daqueles frutos, com a apar\u00eancia de carrapatos, extra\u00eda-se o \u00f3leo de r\u00edcino, usado no passado pr\u00f3ximo como eficiente verm\u00edfugo.<\/p>\n<p>O tal \u00f3leo de r\u00edcino era o \u00f3leo de mamona, odiado por todos que foram obrigados a tomar. Para concluir aquela terr\u00edvel degusta\u00e7\u00e3o, o jovem era obrigado a tomar uma x\u00edcara m\u00e9dia de caf\u00e9 amargo.<\/p>\n<p>O res\u00edduo da extra\u00e7\u00e3o daquele odiado \u00f3leo \u00e9 muito venenoso, assassino, mas que nunca matou ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>No mundo dos adultos, o \u00f3leo de mamona encontra milhares de aplica\u00e7\u00f5es na ind\u00fastria qu\u00edmica e farmac\u00eautica. V\u00e1rias delas, na produ\u00e7\u00e3o de pl\u00e1sticos, de lubrificantes e de rem\u00e9dios.<\/p>\n<p>Outras aplica\u00e7\u00f5es direcionam-se para as artes b\u00e9licas, na composi\u00e7\u00e3o e fabrico de determinados produtos utilizados nos tanques, nas metralhadoras, nos m\u00edsseis e em outros armamentos.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria dos pre\u00e7os do \u00f3leo de mamona coincide com a hist\u00f3ria das guerras, quando as mamonas tornam-se verdadeiramente assassinas. De fato, a Massacre do Iraque fez o \u00f3leo de mamona atingir no mercado internacional o exorbitante valor de US$ 1.170 a tonelada, ou seja, R$ 3,40 o quilo.<\/p>\n<p>Durante a Segunda Guerra Mundial, na Guerra do Vietnam e na Guerra do Golfo, o fen\u00f4meno da super eleva\u00e7\u00e3o nos pre\u00e7os do \u00f3leo de mamona aconteceu repetidamente em sua evidente plenitude.<\/p>\n<p>Nas entressafras das guerras, os estoques do \u00f3leo de mamona se recomp\u00f5em e os pre\u00e7os de mercado ajustam-se automaticamente, situando-se no patamar de US$ 400 a tonelada, ou seja, R$ 1,10 o quilo.<\/p>\n<p>O serrote dos pre\u00e7os do \u00f3leo de mamona quebrou muita gente, em especial, os pequenos e numerosos agricultores nordestinos, infelizmente o elo mais fr\u00e1gil e desprestigiado da cadeia produtiva.<\/p>\n<p>O Cear\u00e1 j\u00e1 foi o maior produtor de mamona, e o Brasil, o campe\u00e3o mundial em ricinocultura. Hoje \u00e9 a Bahia, disparado o grande campe\u00e3o nacional.<\/p>\n<p>A China e a \u00cdndia s\u00e3o os maiores produtores, seguindo-se o Brasil que tem se contentado com o prudente terceiro lugar. Os produtores mundiais disputam o mercado qu\u00edmico, que apesar das m\u00faltiplas aplica\u00e7\u00f5es e direcionamentos, possui uma modesta demanda de 800 milh\u00f5es de toneladas anuais. Eureka&#8230;<\/p>\n<p>De assassinas para salvadoras, sagradas. Diante do inusitado, um fant\u00e1stico desafio! Quem te viu, quem te v\u00ea, quem te ver\u00e1?<\/p>\n<p>Um hectare de mamoneira pode gerar at\u00e9 750 kg de \u00f3leo, podendo resultar 800 litros de biodiesel. Se consorciada com o feij\u00e3o de ciclo curto, dois hectares de lavoura s\u00e3o suficientes para promover a inclus\u00e3o social de uma fam\u00edlia em estado de mis\u00e9ria.<\/p>\n<p>Um \u00f4nibus urbano, que pode consumir anualmente 40.000 litros do biocombust\u00edvel, tem o poder m\u00e1gico de promover a inclus\u00e3o social de at\u00e9 40 fam\u00edlias, e ainda transformar-se num eficiente soldado no combate ao efeito estufa e \u00e0 polui\u00e7\u00e3o ambiental.<\/p>\n<p>Numa outra forma, com 270 litros de biodiesel \u00e9 poss\u00edvel gerar um megawatt-hora de eletricidade. Gerando 5 Mwh de bioeletricidade promove-se a inclus\u00e3o social de uma fam\u00edlia rural.<\/p>\n<p>Neste ponto torna-se bastante oportuno e necess\u00e1rio ressaltar os benef\u00edcios ambientais do biodiesel, em especial, o de mamona.<\/p>\n<p>\u00c9 fato comprovado que a combustibilidade do biodiesel \u00e9 muito superior a do petrodiesel, raz\u00e3o pela qual, a mistura biodiesel\/petrodiesel na propor\u00e7\u00e3o de 20-25% resulta na completa elimina\u00e7\u00e3o da fuligem das emiss\u00f5es veiculares.<\/p>\n<p>Atribui-se \u00e0s excessivas incrusta\u00e7\u00f5es de fuligem nos pulm\u00f5es, fen\u00f4meno especialmente constatado nos grandes centros urbanos, como um fator dominante da tuberculose cr\u00f4nica moderna, respons\u00e1vel por um n\u00famero de \u00f3bitos superior aos motivados pela AIDS.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a raz\u00e3o original do porque \u0091todos os \u00f4nibus urbanos na Fran\u00e7a usam misturas biodiesel\/petrodiesel em propor\u00e7\u00f5es balizadas em suas disponibilidades\u0092. <\/p>\n<p>Estimativas da Embrapa indicam que um hectare de lavoura de mamona \u00e9 capaz de absorver anualmente, pela fotoss\u00edntese, cerca de 8 toneladas de g\u00e1s carbono, devolvendo para a atmosfera, quase 6 toneladas de oxig\u00eanio puro, combatendo o danoso efeito estufa.<\/p>\n<p>Segundo o Tratado de Quioto, o seq\u00fcestro de g\u00e1s carbono est\u00e1 valendo dinheiro, a raz\u00e3o atual de US$ 6 a tonelada, nos chamados \u0091certificados de carbono\u0092 que prometem valer muito mais no futuro.<\/p>\n<p>A elimina\u00e7\u00e3o do enxofre do \u00f3leo diesel nas refinarias de petr\u00f3leo \u00e9 quest\u00e3o fechada na Europa que j\u00e1 iniciou uma ambiciosa agenda contida em protocolo.<\/p>\n<p>Dos processos de retirada do enxofre contido originalmente no \u00f3leo diesel mineral resulta na destrui\u00e7\u00e3o das mercaptanas, subst\u00e2ncias respons\u00e1veis pela lubricidade do produto. A linguagem popular diz que o \u00f3leo diesel fica aguado.<\/p>\n<p>A reposi\u00e7\u00e3o dessa caracter\u00edstica, imprescind\u00edvel para a longevidade dos motores, tem sido feita adicionando biodiesel na propor\u00e7\u00e3o de 5 a 8%, quando a lubricidade torna-se adequada, mesmo para os equipamentos modernos de alta velocidade.<\/p>\n<p>Um fato auspicioso \u00e9 que a lubricidade do biodiesel de mamona \u00e9 30% superior ao biodiesel oriundo dos demais \u00f3leos, significando um consider\u00e1vel diferencial em favor do biodiesel de mamona que tem a capacidade de reconstituir a lubricidade do petrodiesel dessulfurado a raz\u00e3o de 30% a menos.<\/p>\n<p>Cada tonelada de mamona processada obt\u00e9m-se cerca de 600 kg de torta, um precioso biofertilizante, capaz de combater as doen\u00e7as do solo, os nemat\u00f3ides. <\/p>\n<p>Associando a propriedade nematicida ao seu elevado teor de nitrog\u00eanio, o pre\u00e7o da torta de mamona tem crescido sistematicamente, j\u00e1 alcan\u00e7ando a marca dos R$ 300,00 \u00e0 tonelada no Nordeste e R$ 500,00 no Sul e Centro Sul.<\/p>\n<p>Uma quest\u00e3o que tem sido discutida \u00e9 a viabilidade econ\u00f4mica da produ\u00e7\u00e3o do biodiesel a partir do \u00f3leo de mamona. Pergunta-se: \u00c9 poss\u00edvel viabilizar economicamente o biodiesel de mamona quando o pre\u00e7o do quilograma do \u00f3leo virgem situa-se em n\u00edveis mais elevados que os pr\u00f3prios pre\u00e7os do \u00f3leo diesel mineral?<\/p>\n<p>Este assunto merece as seguintes considera\u00e7\u00f5es: An\u00e1lise econ\u00f4mica recente demonstra que o pre\u00e7o m\u00e1ximo admiss\u00edvel de um \u00f3leo vegetal para ser convertido em biodiesel competitivo \u00e9 de US$ 400 a tonelada, ou seja, a R$ 1,15 o quilo.<\/p>\n<p>Considerou-se para isto uma completa isen\u00e7\u00e3o dos impostos, o emprego do \u00e1lcool met\u00edlico como coadjuvante da convers\u00e3o, e a inclus\u00e3o dos cr\u00e9ditos da glicerina, vendido como sub produto \u00e0 raz\u00e3o de US$ 500 a tonelada.<\/p>\n<p>J\u00e1 \u00e9 um consenso no Poder Central, a ado\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica de completa desonera\u00e7\u00e3o das taxas e impostos incidentes sobre a produ\u00e7\u00e3o e comercializa\u00e7\u00e3o do biodiesel, a exemplo do que acontece na Europa e EUA.<\/p>\n<p>Por outro lado, existe uma determina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica brasileira orientando o uso do \u00e1lcool et\u00edlico como coadjuvante da convers\u00e3o dos \u00f3leos vegetais em biodiesel, substituindo assim o \u00e1lcool met\u00edlico.<\/p>\n<p>Contram\u00e3o do que vem acontecendo no exterior, a ado\u00e7\u00e3o dessa pol\u00edtica dita nacionalista, dever\u00e1 resultar num significativo \u00f4nus na forma\u00e7\u00e3o dos custos do biodiesel brasileiro, seja a partir da mamona ou de qualquer outra oleaginosa.<\/p>\n<p>Dessa forma, a introdu\u00e7\u00e3o de adversidades dever\u00e1 induzir um pre\u00e7o m\u00e1ximo admiss\u00edvel da mat\u00e9ria prima bastante diminu\u00eddo, ou em troca, dever\u00e1 ser adotada uma pol\u00edtica de pre\u00e7os ajustados de compensa\u00e7\u00e3o para o biodiesel.<\/p>\n<p>Em seu retorno da p\u00f3s-guerra iraquiana, os pre\u00e7os do \u00f3leo de mamona t\u00eam decrescido lentamente, do patamar m\u00e1ximo dos US$ 1.170 para a faixa atual de 800-900 d\u00f3lares a tonelada, com a tend\u00eancia de baixa, \u00e0 medida que as hostilidades diminuem.<\/p>\n<p>Mesmo nestes n\u00edveis intermedi\u00e1rios de pre\u00e7o, \u00e9 melhor exportar o \u00f3leo, o que permite capitalizar o setor agr\u00edcola e o setor de extra\u00e7\u00e3o de forma diferenciada.<\/p>\n<p>A exporta\u00e7\u00e3o com base em pre\u00e7os convidativos \u00e9 sempre um bom neg\u00f3cio, por\u00e9m provis\u00f3rio, uma vez que o mercado qu\u00edmico facilmente ser\u00e1 inundado com o \u00f3leo de mamona e o seu pre\u00e7o ser\u00e1 inevitavelmente aviltado, fato que j\u00e1 ocorreu em diversas ocasi\u00f5es.<\/p>\n<p>Ademais, qualquer cem mil novos hectares em planta\u00e7\u00f5es de mamona, certamente promover\u00e3o um rebaixamento consider\u00e1vel nos pre\u00e7os internacionais do \u00f3leo de mamona.<\/p>\n<p>Para o mercado energ\u00e9tico, tem se pensado em milh\u00f5es de hectares, os quais dever\u00e3o atropelar o mercado qu\u00edmico. Alguns indiv\u00edduos, felizmente muito raros, t\u00eam manifestado descr\u00e9dito ao uso da mamona para fins energ\u00e9ticos.<\/p>\n<p>A persist\u00eancia nessa posi\u00e7\u00e3o poderia ser atribu\u00edda \u00e0 falta de conhecimento das leis fundamentais de mercado, dos conhecimentos b\u00e1sicos de aritm\u00e9tica, ou mesmo, at\u00e9 por interesses contrariados, em detrimento ou desprezo, de sobremaneira, dos valores sociais e ambientais do Programa.<\/p>\n<p>O Presidente Lula, em sua \u00faltima audi\u00eancia concedida sobre o tema biodiesel, com dura\u00e7\u00e3o de duas horas e meia, foi muito claro e enf\u00e1tico afirmando que o Programa Nacional do Biodiesel tinha um endere\u00e7o preferencial \u00e0s regi\u00f5es semi-\u00e1ridas, e que depositava nas lavouras familiares de mamona uma rara op\u00e7\u00e3o de desenvolvimento.<\/p>\n<p>Com faro de quem foi menino descontra\u00eddo, criado com \u00f3leo de r\u00edcino e baladeira no pesco\u00e7o, conseguiu transformar frustra\u00e7\u00f5es em vit\u00f3rias, e uma delas certamente dever\u00e1 ser a consecu\u00e7\u00e3o do ora irreversivelmente e inevit\u00e1vel &#8211; a consagra\u00e7\u00e3o das mamonas assassinas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>. 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