{"id":3093,"date":"2012-08-21T15:12:57","date_gmt":"2012-08-21T18:12:57","guid":{"rendered":"https:\/\/crea-mt.org.br\/portal\/agua-em-busca-da-linguagem-de-intercambio\/"},"modified":"2012-08-21T15:12:57","modified_gmt":"2012-08-21T18:12:57","slug":"agua-em-busca-da-linguagem-de-intercambio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/agua-em-busca-da-linguagem-de-intercambio\/","title":{"rendered":"\u00c1GUA: Em busca da linguagem de interc\u00e2mbio"},"content":{"rendered":"<p><b>Alberto Palombo \u00e9 engenheiro industrial e de sistemas, vice-presidente Executivo da HydroEnvironment Company, LLC, e consultor em Recursos H\u00eddricos e Meio Ambiente.<\/b><\/p>\n<p>No dia 22 de mar\u00e7o apareceram artigos muito interessantes sobre o tema \u00e1gua. N\u00e3o era de se esperar menos na celebra\u00e7\u00e3o do Dia Mundial da \u00c1gua e come\u00e7o do Dec\u00eanio Internacional para a A\u00e7\u00e3o, \u0093\u00c1gua, Fonte de Vida\u0094. Eu recebi uns 20, em diferentes idiomas, e cada um mais interessante do que o outro. Cada ano parece que melhoramos nossa capacidade de entendimento da crise (de manejo) da \u00e1gua, as estat\u00edsticas sobre seu uso compartilhado pelos diferentes setores (agricultura, saneamento urbano, energia, meio ambiente, entre outros) se tornou um verdadeiro exerc\u00edcio de agilidade mental para alguns de n\u00f3s. <\/p>\n<p>Por isso, coloco \u00e0 considera\u00e7\u00e3o dos leitores o tema das estat\u00edsticas da \u00e1gua. Parece que os comentaristas esportivos, discutindo sobre a velocidade de lan\u00e7amento de um \u0093slider&#8221; na d\u00e9cada de 70 em compara\u00e7\u00e3o com os novos lan\u00e7adores das grandes ligas na primeira d\u00e9cada do Terceiro Mil\u00eanio se tornaram o modelo que nossos especialistas da \u00e1gua adotaram para apresentar e sensibilizar o p\u00fablico sobre o verdadeiro desafio h\u00eddrico que se p\u00f5e a todos em maior ou menor grau. A t\u00e9cnica de lan\u00e7amento certamente evoluiu muit\u00edssimo, e temos que dar gra\u00e7as aos comentaristas-gur\u00fas da estat\u00edstica por ajudar os atletas a alcan\u00e7ar novas marcas. Mas pensando bem, provavelmente a compara\u00e7\u00e3o com o beisebol n\u00e3o seja entendida por muitos&#8230; <\/p>\n<p>Ent\u00e3o, quem se atreve a explicar aquele gol que o brasileiro Roberto Carlos fez, de falta, em 1999, e que passou por um lado da barreira da defesa saudita a 95 quil\u00f4metros por hora? Os professores de F\u00edsica ainda tentavam explicar a trajet\u00f3ria da bola a caminho das redes, enquanto os demais desfrutamos do espet\u00e1culo. <\/p>\n<p>Se voc\u00ea n\u00e3o entende de beisebol ou de futebol, ent\u00e3o compreender\u00e1 como se sentem aqueles que n\u00e3o pertencem ao seleto grupo de especialistas do tema da \u00e1gua quando tratamos de explicar a import\u00e2ncia da capacidade de recarga dos ecossistemas, a taxa de cobertura na rede de coleta de \u00e1guas servidas e pluviais, a conex\u00e3o entre as estat\u00edsticas de mortinatalidade e a qualidade da \u00e1gua e outros aspectos inteiramente triviais em nosso meio. Enfim, tem sido dif\u00edcil at\u00e9 agora explicar porque a \u00e1gua \u00e9 t\u00e3o importante para a vida, e isso \u00e9 grave.<\/p>\n<p>Quando traduzimos em n\u00fameros e estat\u00edsticas o tema da \u00e1gua, a coisa n\u00e3o parece t\u00e3o divertida: 30 milh\u00f5es de pessoas morrem todos os anos por falta de acesso \u00e0 \u00e1gua limpa e segura. E o pior de tudo \u00e9 que muitas dessas vidas poderiam ser preservadas, se essas pessoas e aquelas outras que tomam decis\u00f5es sobre o manejo da \u00e1gua tivessem a informa\u00e7\u00e3o e o conhecimento \u00e0 m\u00e3o.<\/p>\n<p>Mais estat\u00edsticas: 27% dos latino-americanos n\u00e3o t\u00eam acesso razo\u00e1vel \u00e0 \u00e1gua pot\u00e1vel e 31% n\u00e3o t\u00eam servi\u00e7os m\u00ednimos de esgotamento sanit\u00e1rio (OPS, 1997). Mais de 93% da Mata Atl\u00e2ntica no Brasil foi desmatada (MMA, 2004), comprometendo as fontes de \u00e1gua doce de mais de 115 milh\u00f5es de pessoas, e tudo isso aconteceu no \u00faltimo s\u00e9culo. S\u00e3o n\u00fameros tristes, e temos que fazer algo a esse respeito e evitar passar uma vergonha maior ante as futuras gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>As Na\u00e7\u00f5es Unidas estabeleceram as Metas para o Mil\u00eanio, e nossos pa\u00edses assumiram o compromisso de reduzir \u00e0 metade o percentual de pessoas que carecem de acesso \u00e0 \u00e1gua pot\u00e1vel para o ano 2015. Certamente, isto nos obriga a refletir como nossos esfor\u00e7os podem ser utilizados da forma mais eficiente para ajudar a alcan\u00e7ar essas metas.<\/p>\n<p>Em 1992, a Organiza\u00e7\u00e3o Pan-americana da Sa\u00fade avaliou as necessidades de investimentos em infra-estrutura para ampliar a cobertura de saneamento na Am\u00e9rica Latina e Caribe. Essa avalia\u00e7\u00e3o se realizou em um momento em que os pa\u00edses da regi\u00e3o rec\u00e9m sa\u00edam da chamada \u0093d\u00e9cada perdida\u0094 dos anos 80, quando praticamente todas as economias do hemisf\u00e9rio sofriam s\u00e9rios problemas para equilibrar suas contas fiscais, e que trouxeram como resultado um endividamento inteiramente insustent\u00e1vel e uma diminui\u00e7\u00e3o substancial dos investimentos em saneamento que se arrasta at\u00e9 o presente. Enquanto isto, nosso trabalho de interc\u00e2mbio de informa\u00e7\u00e3o e conhecimento sobre o tema tem sido t\u00edmido e o crescimento populacional da regi\u00e3o segue a ritmo vertiginoso. <\/p>\n<p>Claro est\u00e1, a OPS tinha todo um programa dirigido a promover os investimentos em infra-estrutura, melhorias nos sistemas de gest\u00e3o de servi\u00e7os p\u00fablicos e capacita\u00e7\u00e3o de seus operadores, somando cerca de US$ 115 bilh\u00f5es para alcan\u00e7ar cobertura universal em uma d\u00e9cada (PIAS, OPS, 1997), ou cerca de US$ 12 bilh\u00f5es por ano. Este total era (e segue sendo) muito maior que muitas economias da regi\u00e3o, o que fez com que a imagem do problema da \u00e1gua adquirisse um advers\u00e1rio adicional: a competi\u00e7\u00e3o por recursos entre outros temas de grande interesse social, como a educa\u00e7\u00e3o, a sa\u00fade, a seguran\u00e7a p\u00fablica, e o maior de todos: a pobreza. Entretanto, hoje reconhecemos que o tema da \u00e1gua est\u00e1 ligado a cada um deles, e que pouco ajuda a que se tente resolv\u00ea-los de forma isolada.<\/p>\n<p>Algo sob o qual se tem certeza \u00e9 que todos somos afetados pela gest\u00e3o deficiente da \u00e1gua, sem importar o pa\u00eds de origem, n\u00edvel de renda ou educa\u00e7\u00e3o. Ir al\u00e9m da discuss\u00e3o do conceito da \u00e1gua virtual, o papel da \u00e1gua para a gera\u00e7\u00e3o de energia, a agricultura ou o saneamento b\u00e1sico \u00e9 sem d\u00favida de grande import\u00e2ncia. Entretanto, creio que todas estas discuss\u00f5es passam a um segundo plano se antes n\u00e3o tivermos claramente delineada uma estrat\u00e9gia de comunica\u00e7\u00e3o para levar todas estas estat\u00edsticas e conhecimentos ao plano coloquial, para que aqueles que inclusive n\u00e3o saibam ler ou escrever possam entender a import\u00e2ncia da \u00e1gua em suas vidas, e exort\u00e1-los a que cuidem dela e a utilizem racionalmente.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m dentro dessa mesma estrat\u00e9gia e l\u00f3gica haveria que se tomar em considera\u00e7\u00e3o aquelas pessoas e entidades mais abastadas, que constituem 0,5% da popula\u00e7\u00e3o e ostentam 80% da riqueza material do planeta para que contribuam eq\u00fcitativamente com a solu\u00e7\u00e3o deste problema. Sabendo ler, com uma capacidade acima da m\u00e9dia para entender o significado de algumas das estat\u00edsticas aqui citadas, poucas vezes estas pessoas se sensibilizam com elas, e com o problema da AIDS. Muitas vezes esta minoria adota uma atitude de que \u0093esse problema n\u00e3o \u00e9 comigo\u0094. <\/p>\n<p>Basta ter a maior cisterna da vizinhan\u00e7a e incluir no or\u00e7amento como ench\u00ea-la cada vez que se v\u00e1 esgotando o precioso l\u00edquido. E esta solu\u00e7\u00e3o da cisterna, al\u00e9m de ser uma certeza em algumas circunst\u00e2ncias, \u00e9 uma met\u00e1fora apropriada para descrever a realidade atual de muitas regi\u00f5es: a cisterna tamb\u00e9m pode ser uma bateria de po\u00e7os, uma represa, ou um sistema de transposi\u00e7\u00e3o para levar a \u00e1gua aonde j\u00e1 acabou, e que provavelmente ter\u00e1 uma vida \u00fatil determinada, esperando que o crescimento da demanda supere a capacidade de gera\u00e7\u00e3o do sistema e a exacerba\u00e7\u00e3o dos conflitos fa\u00e7a que tal solu\u00e7\u00e3o colapse inevitavelmente em pouco tempo. Que me perdoem meus colegas por esta reflex\u00e3o um tanto radical, mas pe\u00e7o sua compreens\u00e3o para dar raz\u00e3o a meu atrevimento, mas essa \u00e9 a hist\u00f3ria recente da \u00e1gua. <\/p>\n<p>Por outro lado, a partir da C\u00fapula da Rio (1992), come\u00e7aram a proliferar organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais, as ag\u00eancias das Na\u00e7\u00f5es Unidas e outras de \u00e2mbito regional se reposicionaram ao redor do conceito de desenvolvimento sustent\u00e1vel, e se reconheceu que um dos principais insumos era precisamente \u00e1gua limpa para a popula\u00e7\u00e3o e o meio ambiente. <\/p>\n<p>Tamb\u00e9m apareceram outras redes da \u00e1gua, umas regionais, outras setoriais, e outras globais, inclusive algumas delas com aportes significativos do Banco Mundial. <\/p>\n<p>O que n\u00e3o proliferou na mesma medida foi precisamente a capacidade de intercambiar experi\u00eancias e conhecimentos atrav\u00e9s desses canais, deixando de lado o inestim\u00e1vel valor \u00e9tico de fazer circular o conhecimento sobre a gest\u00e3o da \u00e1gua e as experi\u00eancias adquiridas. <\/p>\n<p>Mesmo que tal acervo de conhecimentos esteja dispon\u00edvel de forma dispersa e pouco articulada, o custo de N\u00c3O discuti-lo e lev\u00e1-lo \u00e0 pr\u00e1tica tem contribu\u00eddo para o crescimento da d\u00edvida fiscal e social que segue aumentando em progress\u00e3o geom\u00e9trica. <\/p>\n<p>Ou seja, temos os conhecimentos, dominamos a teoria, podemos fazer as contas, aplicamos as estat\u00edsticas, criamos as redes, e n\u00e3o as utilizamos sensivelmente para o prop\u00f3sito para o qual foram criadas: para intercambiar informa\u00e7\u00f5es e conhecimentos com o objetivo de promover o manejo sustent\u00e1vel da \u00e1gua na regi\u00e3o. <\/p>\n<p>Apelando a uma dessas estat\u00edsticas e fact\u00f3ides, provavelmente tamb\u00e9m inspirados em alguma ocorr\u00eancia emanada de algum comentarista esportivo, lembramos que uma pessoa poderia sobreviver semanas sem comer, mas s\u00f3 ag\u00fcentaria tr\u00eas dias sem beber \u00e1gua. L\u00f3gico, pois estamos compostos de 70% de \u00e1gua em nossa estrutura corporal, e o oxig\u00eanio necess\u00e1rio para manter as fun\u00e7\u00f5es fisiol\u00f3gicas se acaba depois de uns tr\u00eas dias sem repor o vital l\u00edquido. Agora, quando n\u00e3o se tem \u00e1gua, de nada serve a estat\u00edstica, pois igualmente perecer\u00edamos ou comprometer\u00edamos seriamente nossa condi\u00e7\u00e3o vital e possibilidades de auto-sustenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como cita o Informe das Na\u00e7\u00f5es Unidas Sobre o Desenvolvimento dos Recursos H\u00eddricos no Mundo: Quanto avan\u00e7amos em dire\u00e7\u00e3o destas metas [do mil\u00eanio]? Talvez seja mais importante perguntar quanto caminho nos resta percorrer, e que podemos fazer para apressar o passo?<\/p>\n<p>Talvez daqui a uma d\u00e9cada celebraremos um Dia Mundial da \u00c1gua no qual possamos dizer que todos nossos cidad\u00e3os no hemisf\u00e9rio t\u00eam \u00e1gua pot\u00e1vel e servi\u00e7os de esgoto, um ambiente saud\u00e1vel que os rodeia, e muitas hist\u00f3rias para contar \u00e0s margens dos rios que banham nossas cidades. <\/p>\n<p>Nessa ocasi\u00e3o, as estat\u00edsticas sobre gest\u00e3o da \u00e1gua ter\u00e3o perdido a raz\u00e3o de ser, e poderemos considerar como superado um dos grandes paradigmas que temos na atualidade: Compartilhar experi\u00eancias para que todos ganhemos a \u00e1gua que necessitamos para manter a vida. Esperemos que a Rede Interamericana de Recursos H\u00eddricos possa servir de ve\u00edculo para levar essas experi\u00eancias de um lado a outro, onde quer que sejam \u00fateis, e que as futuras gera\u00e7\u00f5es entendam melhor da gest\u00e3o da \u00e1gua. Por isso, necessitamos que a RIRH seja uma rede da \u00e1gua para todos.<\/p>\n<p>Com rela\u00e7\u00e3o ao futebol e ao beisebol: N\u00e3o pode ser que uns poucos sejam sempre os que ganhem a Copa. Todos temos p\u00e9s para chutar a gol e bra\u00e7os para fazer arremessos. \u00c9 tudo quest\u00e3o de compartilhar o que sabemos fazer melhor. Ao fim e ao cabo, o importante do jogo n\u00e3o \u00e9 simplesmente ganhar o trof\u00e9u, mas desfrutar o torneio. O mesmo deve ocorrer com o tema da \u00e1gua.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alberto Palombo \u00e9 engenheiro industrial e de sistemas, vice-presidente Executivo da HydroEnvironment Company, LLC, e consultor em Recursos H\u00eddricos e Meio Ambiente. 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