{"id":3091,"date":"2012-08-21T15:12:57","date_gmt":"2012-08-21T18:12:57","guid":{"rendered":"https:\/\/crea-mt.org.br\/portal\/o-lugar-do-velho-na-cidade-importancia-da-memoria\/"},"modified":"2012-08-21T15:12:57","modified_gmt":"2012-08-21T18:12:57","slug":"o-lugar-do-velho-na-cidade-importancia-da-memoria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/o-lugar-do-velho-na-cidade-importancia-da-memoria\/","title":{"rendered":"O lugar do velho na cidade: Import\u00e2ncia da mem\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<p><b>Rita de C\u00e1ssia Almeida, historiadora, mestre em Ci\u00eancias da Engenharia Ambiental e doutoranda junto ao PPGSEA\/USP &#8211; S\u00e3o Carlos. E-mail: rita@cdcc.sc.usp.br.Norma Felicidade Lopes da Silva Valencio, docente do departamento de Ci\u00eancias Sociais da UFSCar e professora colaboradora do PPGSEA\/USP- S\u00e3o Carlos. E-mail: normaf@power.ufscar.br<\/b><\/p>\n<p><i>Introdu\u00e7\u00e3o<\/i><\/p>\n<p>As grandes e m\u00e9dias cidades crescem, no Brasil, em torno de oportunidades de emprego e renda, rotinas, bens culturais e h\u00e1bitos, que dispensam o velho do conv\u00edvio, lan\u00e7ando-o na  invisibilidade social. <\/p>\n<p>A pressa do dia-a-dia, o valor social das novidades e a tecnifica\u00e7\u00e3o do modo de vida urbano n\u00e3o permitem ao velho formas de express\u00e3o e de satisfa\u00e7\u00e3o adequados \u00e0s suas necessidades assim como falta lugar e tempo apropriados para interagir. Fica, o mesmo, \u00e0 margem da sociabilidade corrente no lar e na cidade. No lar, n\u00e3o raro \u00e9 considerado como um estorvo, mesmo quando a condi\u00e7\u00e3o de estabilidade econ\u00f4mica e social dos demais membros da fam\u00edlia derivam de seu esfor\u00e7o. Sua renda pode constituir-se fonte importante de provimento do domic\u00edlio, na forma de aposentadoria ou resultante do patrim\u00f4nio que gerou; seus servi\u00e7os dom\u00e9sticos podem ser \u00fateis no trato das rotinas da casa, como cuidador regular dos bens e das crian\u00e7as; e, no entanto, o desprest\u00edgio persiste. \u00c9 corrente a representa\u00e7\u00e3o do velho como um fardo que a fam\u00edlia moderna carrega, sendo socialmente  aceit\u00e1vel descart\u00e1-lo da conviv\u00eancia di\u00e1ria t\u00e3o logo n\u00e3o esteja apto \u00e0s fun\u00e7\u00f5es supra, as \u00faltimas que  restam  quando os pap\u00e9is ativos na cidade tamb\u00e9m lhe s\u00e3o negados e o territ\u00f3rio adquire uma din\u00e2mica apartadora lastreada nas novidades.      <\/p>\n<p>A organiza\u00e7\u00e3o racional e o crescimento urbano s\u00e3o essenciais para o incremento s\u00f3cio-econ\u00f4mico e cultural da sociedade. Entretanto,  conforme isso ocorre h\u00e1, ao contr\u00e1rio do que se espera, graves danos ambientais que limitam as formas societ\u00e1rias dos grupos que ali coexistem. O impacto das escolhas no morar, transitar, trabalhar, gera altera\u00e7\u00f5es na paisagem e perda das fun\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas dos sistemas ambientais, interferindo nas atividades e fun\u00e7\u00f5es da pr\u00f3pria sociedade.<\/p>\n<p>A cidade \u00e9 desenhada continuamente de molde a que seus fixos e fluxos ajustem-se \u00e0 performance do adulto jovem: os sinaleiros d\u00e3o ao pedestre o tempo de correr, de uma esquina \u00e0 outra, da amea\u00e7a do carro que ruge, o que n\u00e3o cabe no tempo de locomo\u00e7\u00e3o  do velho; as pra\u00e7as, em cujas sombras das \u00e1rvores reuniam-se os  antigos do lugar, cedem tristemente ao cimento e  ao desprezo comunit\u00e1rio, o shopping center sendo o ref\u00fagio coletivo; os c\u00f3rregos,  com mem\u00f3rias de pescarias e de lazer, jazem silenciados sob a canaliza\u00e7\u00e3o, subordinados \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o intensiva. Os lugares que delimitavam espacialmente a sociabilidade do velho s\u00e3o descartados  para materializar as demandas modernas. Frente \u00e0 mudan\u00e7a das fun\u00e7\u00f5es do territ\u00f3rio, o velho \u00e9 tido como in\u00e1bil, como aquele que apresenta  restri\u00e7\u00f5es para assimilar os novos significados e as condutas requeridas. <\/p>\n<p>N\u00e3o haver lugar para o velho na cidade  n\u00e3o implica, contudo, que este territ\u00f3rio seja agrad\u00e1vel \u00e0 frui\u00e7\u00e3o dos demais. Embora sua reinven\u00e7\u00e3o  quotidiana, a cidade que descarta os antigos do lugar tamb\u00e9m descarta os mais pobres, as crian\u00e7as, o meio ambiente natural, introduzindo uma  paisagem tecnologizada que mal acoberta os aspectos decomp\u00f3sitos e degradados da vida social dos que l\u00e1 se inserem. <\/p>\n<p>No Brasil, as cidades s\u00e3o sistemas com baixa reflexividade, isto \u00e9, seus processos e fixos s\u00e3o pass\u00edveis de produzir riscos aos cidad\u00e3os sem que haja vontade pol\u00edtica de reconhec\u00ea-los e reduzi-los na medida das necessidades coletivas. Sabe-se que danos \u00e0 sa\u00fade por polui\u00e7\u00e3o atmosf\u00e9rica decorrem da comodidade dos ve\u00edculos movidos a combust\u00e3o f\u00f3ssil, mas h\u00e1 uma indisposi\u00e7\u00e3o para discutir abertamente essas correla\u00e7\u00f5es e assumir-se decis\u00f5es em torno de outras alternativas de locomo\u00e7\u00e3o. Este \u00e9 um dos exemplos de que as condutas cotidianas na cidade orbitam num individualismo desintegrador de um projeto social mais saud\u00e1vel.      <\/p>\n<p>Assim, \u00e9 necess\u00e1rio um duplo repensar: de um lado, o repensar da cidade, restituindo uma din\u00e2mica espacial que d\u00ea dignidade aos seus habitantes e os integre num novo projeto de lugar; de outro, o repensar do velho na cidade, buscando inclu\u00ed-lo no esfor\u00e7o de recupera\u00e7\u00e3o do lugar, voltando a caber nos processos que se desenrolam no seu entorno, o que implica em refletir sobre o seu papel como guardador da mem\u00f3ria coletiva.  <\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 original propiciar, ao velho, uma fun\u00e7\u00e3o privilegiada no esfor\u00e7o p\u00fablico de manuten\u00e7\u00e3o\/recupera\u00e7\u00e3o dos elementos hist\u00f3rico-ambientais do territ\u00f3rio atrav\u00e9s da mem\u00f3ria, j\u00e1 que o exerc\u00edcio da velhice nas sociedades pr\u00e9-modernas tinha essa componente. As circunst\u00e2ncias hodiernas, nas quais h\u00e1 o aparecimento das chamadas novas institucionalidades em torno da quest\u00e3o ambiental  e a implementa\u00e7\u00e3o da  Pol\u00edtica Nacional do Idoso, podem ser consideradas  favor\u00e1veis a que esse papel seja retomado. <\/p>\n<p>1. Os elos da mem\u00f3ria: passado e presente, indiv\u00edduo e sociedade    <\/p>\n<p>A mem\u00f3ria tem um valor intr\u00ednseco como experi\u00eancia coletiva. \u00c9 ela quem confere sentido \u00e0s rela\u00e7\u00f5es sociais e ao territ\u00f3rio que historicamente tais rela\u00e7\u00f5es produzem. <\/p>\n<p>O sujeito privilegiado para port\u00e1-la \u00e9 o velho. O mundo dos velhos \u00e9 o da mem\u00f3ria, atrav\u00e9s da qual se reconhece, se identifica:<br \/>\n(&#8230;) somos aquilo que lembramos (&#8230;) a nossa riqueza s\u00e3o as lembran\u00e7as que conservamos e n\u00e3o deixamos apagar e das quais somos o \u00fanico guardi\u00e3o. (&#8230;)se o mundo do futuro se abre para a imagina\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o nos pertence mais, o mundo do passado \u00e9 aquele no qual, recorrendo a nossas lembran\u00e7as, podemos buscar ref\u00fagio dentro de n\u00f3s mesmos, debru\u00e7ar-nos sobre n\u00f3s mesmos e nele reconstruir nossa identidade. (Bobbio, 1997, p. 30 e 54). <\/p>\n<p>A mem\u00f3ria n\u00e3o conta apenas a hist\u00f3ria do indiv\u00edduo, mas de seu grupo. Produz elos entre os significados do presente e do passado para o coletivo de sua conviv\u00eancia. Muito da afirma\u00e7\u00e3o social do velho reside em que possa dizer ao grupo  sobre os porqu\u00eas de processos temporalmente extensos, cujas influ\u00eancias se faz sentir mas cujos significados fogem \u00e0 compreens\u00e3o imediata dos mais novos do lugar. Uma vez que o diga, d\u00e1 \u00e0s imagens, \u00e0s representa\u00e7\u00f5es e aos valores do passado condi\u00e7\u00f5es de submeterem-se a um novo crivo no qual  o grupo encontra raz\u00f5es diferentes para  preserv\u00e1-los ou transform\u00e1-los.    <\/p>\n<p>A mem\u00f3ria, onde cresce a hist\u00f3ria, que por sua vez a alimenta, procura salvar o passado para servir o presente e o futuro. Devemos trabalhar de forma a que a mem\u00f3ria coletiva sirva para a liberta\u00e7\u00e3o e n\u00e3o para a servid\u00e3o dos homens\u0094 (Le Goff, 1996, p. 477).   <\/p>\n<p>Rememorar era a fun\u00e7\u00e3o do velho nas civiliza\u00e7\u00f5es tradicionais, na qual representava o guardi\u00e3o da mem\u00f3ria do grupo,  o deposit\u00e1rio do saber da comunidade. Nas sociedades sem escrita, havia os guardi\u00f5es dos c\u00f3dices reais, chefes de fam\u00edlia idosos, bardos e sacerdotes que tinham o importante papel de manter a coes\u00e3o de seu grupo social (Le Goff,1986). Em seu livro sobre mem\u00f3ria de velhos, Bosi (1994) relata uma antiga lenda balinesa que fala sobre um lugar long\u00ednquo onde outrora se sacrificavam os velhos. Com o tempo, n\u00e3o teria restado nenhum av\u00f4 que contasse as tradi\u00e7\u00f5es para os netos. A lembran\u00e7a das tradi\u00e7\u00f5es se perdeu. Um dia, quiseram construir um sal\u00e3o de paredes de troncos para a sede do Conselho. Diante dos troncos abatidos, os construtores viam-se perplexos. Quem poderia informar onde estava a base para ser enterrada e o alto que serviria de apoio para o teto? Nenhum deles poderia responder: h\u00e1 muitos anos n\u00e3o se levantavam constru\u00e7\u00f5es de grande porte e eles tinham perdido a experi\u00eancia. Um velho, que havia sido escondido pelo neto, aparece e ensina a comunidade a distinguir a base e o cimo dos troncos. Nunca mais um velho foi sacrificado. Essa lenda reporta uma restitui\u00e7\u00e3o do valor social do velho. Mas a restitui\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre um processo dif\u00edcil, posto que implica em reconhecimento  do erro de ter se permitido a perda de algo ou de algu\u00e9m.  <\/p>\n<p>\u00c0 medida em que a mem\u00f3ria escrita acrescentou-se \u00e0 mem\u00f3ria oral, tornou-se mais dif\u00edcil aceitar aqueles a quem cabia, pela repeti\u00e7\u00e3o, guardar os valores e a trajet\u00f3ria do grupo. A  rela\u00e7\u00e3o com a realidade passou a se constituir menos das impress\u00f5es sensoriais sobre os acontecimentos importantes para manter a coes\u00e3o do grupo  e mais de formula\u00e7\u00f5es racionalizadas a forjar  instrumentalmente  \u00e0s conforma\u00e7\u00f5es pol\u00edticas de um poder distanciado. As imagens que cabiam na mem\u00f3ria oral tornaram-se distintas daquelas que os documentos oficiais passaram a suscitar. Sujeitos, prop\u00f3sitos e temporalidades diferentes  movem ambas as  mem\u00f3rias, a  oral e a escrita. A consci\u00eancia do tempo e do grupo j\u00e1 n\u00e3o compete ao ente vivo mas ao instrumento, que pode transced\u00ea-lo.<\/p>\n<p>A  mem\u00f3ria coletiva possibilita, por um lado, integrar indiv\u00edduos e, por outro, evocar tra\u00e7os e problemas da mem\u00f3ria hist\u00f3rica ou da mem\u00f3ria social.   <\/p>\n<p>Os la\u00e7os de conviv\u00eancia familiares, escolares, profissionais s\u00e3o alguns dos quais a mem\u00f3ria passa como corrente,  compondo significados e condutas comuns e\/ou complementares. \u00c9 um fator unificador na medida em que \u00e9 o grupo quem lhe d\u00e1 suporte, as  lembran\u00e7as se afirmando umas nas outras, formando um sistema (Bosi,1994), embora cada mem\u00f3ria individual seja um ponto de vista sobre a mem\u00f3ria coletiva, prenhe de  elementos adquiridos durante a experi\u00eancia de vida do indiv\u00edduo (Halbwachs,1990). Assim, para que lembran\u00e7as possam ser rememoradas e reconhecidas, \u00e9 preciso que essa rememora\u00e7\u00e3o se opere a partir de dados ou de no\u00e7\u00f5es comuns que se encontram tanto no esp\u00edrito do indiv\u00edduo quanto no do coletivo com o qual interage \u0093(&#8230;)porque elas passam incessantemente desses para aquele e reciprocamente, o que s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel se fizeram e continuam a fazer parte de uma mesma sociedade\u0094 (Halbwachs, 1990, p. 34). <\/p>\n<p>O velho, como deposit\u00e1rio privilegiado da mem\u00f3ria coletiva, tem uma importante fun\u00e7\u00e3o social ao trazer \u00e0 tona mem\u00f3rias esquecidas ou n\u00e3o conhecidas, que correm em paralelo \u00e0 mem\u00f3ria oficial e escrita, podendo, com isso, ampliar a compreens\u00e3o do conte\u00fado das \u00faltimas. Se a mem\u00f3ria pode ser representativa de um grupo social, fonte leg\u00edtima de informa\u00e7\u00e3o e reconstru\u00e7\u00e3o dos acontecimentos que repercutem na hist\u00f3ria de dada sociedade, pode revelar aspectos desconhecidos de eventos conhecidos bem como   aspectos desconhecidos de eventos igualmente ignorados. O desconhecimento faz da mem\u00f3ria uma fonte hist\u00f3rica diferente de todas as outras, e o velho seu informante privilegiado por \u0093poder contar n\u00e3o apenas o que o povo fez, mas o que queria fazer, o que acreditava estar fazendo e o que agora pensa que fez\u0094 (Portelli, 1997, p. 31), trazendo perspectivas diferentes sobre um mesmo evento. <\/p>\n<p>Relembrar \u00e9 refletir dialeticamente sobre o presente e o passado, pois tanto permite  relativizar a import\u00e2ncia de acontecimentos, situa\u00e7\u00f5es e lugares do passado em vista do presente, quanto seu contr\u00e1rio, retirando o valor absoluto das coisas. Relembrar \u00e9, ainda, poder transcender \u00e0s marca\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e econ\u00f4micas institucionalizadas, pois o peso das experi\u00eancias passadas, tanto individuais quanto coletivas, pode trazer temporalidades que as marca\u00e7\u00f5es documentais n\u00e3o conseguem dar conta. Mas, o acesso a essa temporalidade alternativa n\u00e3o tem sido suficiente para suscitar um espa\u00e7o de rela\u00e7\u00f5es mais fecundas no mundo do velho. <\/p>\n<p>No geral, o valor social do velho, e o exerc\u00edcio de sua cidadania, est\u00e1  depositado na inser\u00e7\u00e3o num espa\u00e7o formal de trabalho. Fora desse, est\u00e1 inserido em rela\u00e7\u00f5es unilaterais e estigmatizantes, nas quais o velho j\u00e1 teria cumprido seu papel. A aposentadoria efetivaria a substitui\u00e7\u00e3o do velho pelo novo, a experi\u00eancia de toda uma exist\u00eancia tida como algo plenamente absorvida pelo grupo em idade ativa; ou melhor, sua mem\u00f3ria seria vista como um arsenal de informa\u00e7\u00e3o prescind\u00edvel, portanto, uma mem\u00f3ria descartada. A ruptura das rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas desqualifica as rela\u00e7\u00f5es extra-econ\u00f4micas e h\u00e1 uma progressiva marginaliza\u00e7\u00e3o do velho e, portanto, de um conjunto de direitos de cidadania deste sujeito. <\/p>\n<p>Da\u00ed, porque muitos s\u00e3o os velhos que insistem em permanecer no exerc\u00edcio de seu trabalho, para n\u00e3o perder a sua identidade, perante o outro, como sujeito capaz. A aposentadoria, que secundariza as rela\u00e7\u00f5es do jovem com o velho, \u00e9 um processo  de silenciamento progressivo da mem\u00f3ria coletiva de que ele \u00e9 guardador. E isso leva a uma morte de aspectos da vida coletiva do qual o grupo n\u00e3o se d\u00e1 conta. <\/p>\n<p>2. A import\u00e2ncia da mem\u00f3ria no significado do lugar <\/p>\n<p>Na mem\u00f3ria, a paisagem fica marcada pelas tens\u00f5es, sucessos e fracassos da hist\u00f3ria de uma sociedade. Nela, podemos encontrar as marcas significativas da evolu\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de um povo, reconstruindo assim o espa\u00e7o, os fixos e os fluxos que j\u00e1 se foram. Por ela passou todo o filtro do tempo e, portanto, atrav\u00e9s dela se pode \u0093re-ler\u0094 o mundo, como afirma Moreira (1993). Para al\u00e9m de fonte de consulta valorosa, a mem\u00f3ria trata de v\u00ednculos sociais.<\/p>\n<p>Ao ver uma paisagem que o rodeia ser modificada, o velho, para quem essa paisagem era parte de seu universo e cujas lembran\u00e7as se ligavam a essas imagens, agora perdidas, sente que parte de si mesmo est\u00e1 se perdendo tamb\u00e9m e lamenta ter vivido tanto tempo para ver isso acontecer. <\/p>\n<p>(&#8230;) perder seu lugar no recanto de tal rua, \u00e0 sombra daquele muro, ou daquela igreja, seria perder o apoio de uma tradi\u00e7\u00e3o que as ampara, isto \u00e9, sua \u00fanica raz\u00e3o de ser. (Halbwachs, 1990, p. 138).<\/p>\n<p>Ao abordar os v\u00ednculos de antigos moradores com o seu lugar, Bosi (1994) identificava as perdas simb\u00f3licas associadas \u00e0s paredes ru\u00eddas, aos jardins cimentados. N\u00e3o seria a tristeza do indiv\u00edduo a mudar o rumo das perdas, mas a for\u00e7a de suas rela\u00e7\u00f5es:<br \/>\n(&#8230;) s\u00f3 o grupo pode resistir e recompor tra\u00e7os de sua vida passada (&#8230;) Quando n\u00e3o h\u00e1 essa resist\u00eancia coletiva, os indiv\u00edduos se dispersam e s\u00e3o lan\u00e7ados ao longe, as ra\u00edzes partidas (Bosi, 1994, p. 452). <\/p>\n<p>A recupera\u00e7\u00e3o desse passado, dessas paisagens destru\u00eddas, por meio das lembran\u00e7as partilhadas  desses indiv\u00edduos, faz deles novamente um grupo, cria a resist\u00eancia necess\u00e1ria para manterem-se juntos, coesos, vivos. O v\u00ednculo social \u00e9, pois, o que d\u00e1 significado \u00e0s casas, \u00e0s pra\u00e7as, e \u00e9 o que as podem reconstruir. Se os v\u00ednculos se v\u00e3o, todo o resto que se mantenha perde sentido e o que se desmaterializou n\u00e3o mais \u00e9 refeito. A resist\u00eancia do grupo, mantendo viva a mem\u00f3ria das paisagens, d\u00e1 persist\u00eancia ao lugar. O espa\u00e7o ocupado pelo um grupo fica demarcado. Mesmo apagando-se as marcas, ficam os rastros. A mem\u00f3ria do grupo permanece. A mem\u00f3ria s\u00f3 morre quando o grupo desaparece. O espa\u00e7o recebeu as marcas do grupo e o grupo tamb\u00e9m est\u00e1 marcado pelo espa\u00e7o que ocupou. Somente o grupo conhece bem as trilhas que esse espa\u00e7o possui, porque suas trilhas s\u00e3o as trilhas de sua vida, ambas intrinsecamente ligadas. <\/p>\n<p>A  relega\u00e7\u00e3o do velho, como aspecto estrutural da sociedade brasileira, come\u00e7a a ser socialmente question\u00e1vel, o que est\u00e1 manifesto, dentre outros, nas discuss\u00f5es p\u00fablicas que culminaram na formula\u00e7\u00e3o da Pol\u00edtica Nacional do Idoso. Tal pol\u00edtica, atrav\u00e9s da Lei 8.842, de 4 de janeiro de 1994, e regulamentada pelo Decreto 1.948, de 3 de julho de 1996, disp\u00f5e que os direitos sociais do idosos devem ser assegurados, entre outros: na valoriza\u00e7\u00e3o de sua conviv\u00eancia familiar em detrimento do atendimento asilar; como sujeito priorit\u00e1rio de atendimento em \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos;  foco de programas habitacionais e projetos de elimina\u00e7\u00e3o de barreiras arquitet\u00f4nicas; como demandante de bens culturais espec\u00edficos.<br \/>\nDa necessidade de recupera\u00e7\u00e3o da cidadania, h\u00e1, por seu turno, a de recupera\u00e7\u00e3o socioambiental da cidade, de onde adv\u00e9m a possibilidade de reencontro do velho com sua cidadania,  tomando  parte da vivifica\u00e7\u00e3o do lugar e dos significados ali contidos. <\/p>\n<p>Quando, nos dias de hoje, quer-se recuperar a paisagem natural e do patrim\u00f4nio deteriorados,  remontando as raz\u00f5es das perdas  das pra\u00e7as, dos mananciais, dos fluxos de outrora, os pilares simb\u00f3licos da restitui\u00e7\u00e3o est\u00e3o nos velhos do lugar a quem \u00e9 preciso re-trazer para o espa\u00e7o da vida coletiva, sobretudo quando este espa\u00e7o est\u00e1 dotado de novas arenas pol\u00edticas de discuss\u00e3o do seu destino. <\/p>\n<p>O recurso da mem\u00f3ria pode trazer, para os f\u00f3runs ambientais, por exemplo, uma  outra tradu\u00e7\u00e3o dos acontecimentos do lugar bem como dos valores subjacentes, lan\u00e7ando luzes sobre o  que se julgava esclarecido, ou abrindo caminhos onde se julgava ter alcan\u00e7ado o fim da estrada. Atrav\u00e9s da mem\u00f3ria, a narrativa do evento passa a conter a fala de um sujeito que o vivenciou e carrega  experi\u00eancias e transforma\u00e7\u00f5es pessoais e de seu grupo social. <\/p>\n<p>Os espa\u00e7os t\u00eam sido modificados com rapidez e de forma cada vez mais impactante. Para os mais jovens, acostumados com mudan\u00e7as r\u00e1pidas, com o corre-corre do dia a dia, essas modifica\u00e7\u00f5es por vezes passam desapercebidas e a liga\u00e7\u00e3o dos mesmos com o territ\u00f3rio \u00e9 ainda fr\u00e1gil. As narrativas que contemplam um recorte temporal longo  podem, por ilustra\u00e7\u00e3o,  elucidar quem s\u00e3o os sujeitos e quais as a\u00e7\u00f5es que resultaram na  perda da biodiversidade de um manancial local, descortinando os processos sociais que transformaram-no, de um abrigo \u00e0 vida, em um esgoto a c\u00e9u aberto. A promo\u00e7\u00e3o de tais narrativas atrav\u00e9s de novos espa\u00e7os decis\u00f3rios, como os das chamadas novas institucionalidades em torno da quest\u00e3o ambiental &#8211; comit\u00eas de bacia, conselhos municipais de meio ambiente e outros &#8211;  pode fomentar nos novos do lugar \u00e2nimo para assumirem o protagonismo para a mudan\u00e7a qualitativa da paisagem em deteriora\u00e7\u00e3o. A ru\u00edna deixa de ter a forma de algo que sempre foi para ser algo que \u00e9 pela cumplicidade dos cidad\u00e3os; logo, , as narrativas podem fazer cessar tais cumplicidades e ser um sopro de reflexividade para o fazer citadino.<\/p>\n<p>Um fato acontecido, quando relembrado, sempre traz consigo toda a carga de mudan\u00e7as pessoais pelas quais o velho passou e, por conseguinte, o seu grupo social. (&#8230;)<br \/>\nna maior parte das vezes, lembrar n\u00e3o \u00e9 reviver, mas refazer, reconstruir, repensar, com imagens e id\u00e9ias de hoje, as experi\u00eancias do passado. A mem\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 sonho, \u00e9 trabalho\u0094 \u0093(&#8230;), o anci\u00e3o n\u00e3o sonha quando rememora: desempenha uma fun\u00e7\u00e3o para a qual est\u00e1 maduro, a religiosa fun\u00e7\u00e3o de unir o come\u00e7o ao fim, de tranq\u00fcilizar as \u00e1guas revoltas do presente alargando suas margens. (Bosi, 1994, pp. 55, 82)<\/p>\n<p>A urbaniza\u00e7\u00e3o, ao modificar de maneira t\u00e3o intensa as rela\u00e7\u00f5es entre o meio natural e a cidade, provoca entre ambas uma uni\u00e3o completa e uma solidariedade indestrut\u00edvel n\u00e3o permitindo mais a ado\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00f5es isoladas. Para Leite (1993), refletir sobre solu\u00e7\u00f5es parciais, gerar m\u00e9todos de estudo, tratamento e propostas para quest\u00f5es genericamente intituladas de ecol\u00f3gicas, naturais ou econ\u00f4micas, n\u00e3o tem nenhuma utilidade pr\u00e1tica num momento em que o significado dos lugares deve ser  explicado pela totalidade das rela\u00e7\u00f5es entre os elementos f\u00edsicos, naturais, culturais, pol\u00edticos e econ\u00f4micos que o constituem. Quem tem uma vis\u00e3o mais processual e integrada dessas intera\u00e7\u00f5es s\u00e3o os que exercitaram v\u00e1rios pap\u00e9is ao longo do tempo no territ\u00f3rio e, assim, apresentam um olhar qualificado sobre a hist\u00f3ria socioambiental do lugar. A presen\u00e7a do velho no projeto pol\u00edtico de refazimento do lugar deve, pois, ser  seriamente reconsiderada.<\/p>\n<p><i>Conclus\u00f5es<\/i><\/p>\n<p>A mem\u00f3ria \u00e9 parte do sentimento de identidade, quer individual, quer coletivo, na propor\u00e7\u00e3o em que ela \u00e9 tamb\u00e9m parte essencial do sentimento de pertencimento e de continuidade de um indiv\u00edduo ou de um grupo em sua liga\u00e7\u00e3o com seu espa\u00e7o e sua hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>O velho tem a fun\u00e7\u00e3o social de lembrar.  Isso se d\u00e1 n\u00e3o pelo fato de tornar-se incapaz de exercer outras fun\u00e7\u00f5es, mas, sobretudo, por poder voltar seu olhar para tr\u00e1s, l\u00e1 onde est\u00e3o suas percep\u00e7\u00f5es e reflex\u00f5es sobre o vivido individual e coletivo. O ato de rememorar exige lucidez, uma grande atividade de reconhecimento e capacidade de n\u00e3o confundir o presente com o passado, de saber confrontar as lembran\u00e7as com as imagens atuais.<\/p>\n<p>Para a cidadania do velho, \u00e9 importante ser reconhecido como portador da mem\u00f3ria hist\u00f3rico-social do lugar pois o reconhecimento implica em continuidade das rela\u00e7\u00f5es sociais que lhes s\u00e3o caras, permanecendo no presente das intera\u00e7\u00f5es com o  grupo social de conviv\u00eancia e parte integrante de um processo social que segue em frente.<\/p>\n<p><i>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas<\/i><\/p>\n<p>BOBBIO, N. (1997). O Tempo da Mem\u00f3ria: de senectude e outros escritos autobiogr\u00e1ficos. Rio de Janeiro, Ed. Campus.<br \/>\nBOSI, E. (1994). Mem\u00f3ria e Sociedade. Lembran\u00e7as de velhos. 3\u00aa edi\u00e7\u00e3o. S\u00e3o Paulo, Companhia das Letras.<br \/>\nHALBWACHS, M. (1990). A Mem\u00f3ria Coletiva. 2\u00aa edi\u00e7\u00e3o. S\u00e3o Paulo, Ed. Revista dos Tribunais Ltda.<br \/>\nLE GOFF, J. (1996). Hist\u00f3ria e Mem\u00f3ria. 4\u00aa edi\u00e7\u00e3o. Campinas, Ed. UNICAMP.<br \/>\nLEITE, M. A. F. P. (1993). A Natureza e a Cidade: rediscutindo suas rela\u00e7\u00f5es. In:SANTOS, M. et. al., org. Natureza e Sociedade de Hoje: uma leitura geogr\u00e1fica. S\u00e3o Paulo, Ed. Hucitec.<br \/>\nMOREIRA, R. (1993). O Racional e o S\u00edmbolo na Geografia. In: SANTOS, M. et. al., org. Natureza e Sociedade de Hoje: uma leitura geogr\u00e1fica. S\u00e3o Paulo, Ed. Hucitec.<br \/>\nMINIST\u00c9RIO DA JUSTI\u00c7A (1998). Pol\u00edtica  Nacional do Idoso. Bras\u00edlia: Secreataria Nacional de Direitos Humanos.<br \/>\nPORTELLI, A. (1997). O que Faz a Hist\u00f3ria Oral Diferente. Revista Projeto Hist\u00f3ria, n.\u00ba 14, p. 25-39. S\u00e3o Paulo.<br \/>\n<i>www.ecoterrabrasil.com.br<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rita de C\u00e1ssia Almeida, historiadora, mestre em Ci\u00eancias da Engenharia Ambiental e doutoranda junto ao PPGSEA\/USP &#8211; S\u00e3o Carlos. E-mail: rita@cdcc.sc.usp.br.Norma Felicidade Lopes da Silva Valencio, docente do departamento de Ci\u00eancias Sociais da UFSCar e professora colaboradora do PPGSEA\/USP- S\u00e3o Carlos. E-mail: normaf@power.ufscar.br Introdu\u00e7\u00e3o As grandes e m\u00e9dias cidades crescem, no Brasil, em torno de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-3091","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3091","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3091"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3091\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3091"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3091"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3091"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}