{"id":3088,"date":"2012-08-21T15:12:57","date_gmt":"2012-08-21T18:12:57","guid":{"rendered":"https:\/\/crea-mt.org.br\/portal\/pastagem-ecologica-uma-alternativa-racional\/"},"modified":"2012-08-21T15:12:57","modified_gmt":"2012-08-21T18:12:57","slug":"pastagem-ecologica-uma-alternativa-racional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/pastagem-ecologica-uma-alternativa-racional\/","title":{"rendered":"Pastagem Ecol\u00f3gica uma alternativa racional"},"content":{"rendered":"<p><b>Jurandir Melado, engenheiro agr\u00f4nomo, prof\u00ba aposentado da UFMT e Consultor em Manejo Sustent\u00e1vel de Pastagens.<br \/>\njuramel@terra.com.br<\/b><\/p>\n<p>A Pecu\u00e1ria brasileira \u00e9 uma das mais desenvolvidas do planeta. Recentemente o pa\u00eds galgou o primeiro lugar na exporta\u00e7\u00e3o de carne bovina e caminha rapidamente para a lideran\u00e7a tamb\u00e9m na exporta\u00e7\u00e3o de leite.  O Brasil, pela sua privilegiada situa\u00e7\u00e3o e extens\u00e3o geogr\u00e1fica, com a maior parte de seu imenso territ\u00f3rio possuindo um clima tropical, pode ancorar sua produ\u00e7\u00e3o pecu\u00e1ria principalmente no manejo a campo. Isto permite ao pa\u00eds uma grande capacidade de produ\u00e7\u00e3o a um custo que n\u00e3o pode ser igualado por nenhum outro pa\u00eds, incluindo os Estados Unidos e os pa\u00edses europeus.  Por\u00e9m, existe uma \u00e1rea da pecu\u00e1ria brasileira que, simultaneamente sofre de grave defici\u00eancia e, ao mesmo tempo, \u00e9 a que pode possibilitar um tremendo incremento na produ\u00e7\u00e3o e na produtividade, se conduzida da forma mais adequada.   Esta \u00e1rea \u00e9 exatamente a \u00e1rea que mais pode responder positivamente \u00e0s nossas excepcionais condi\u00e7\u00f5es ambientais: o sistema de manejo a campo predominante.<\/p>\n<p>Pastoreio Cont\u00ednuo: a principal causa da baixa produtividade e da degrada\u00e7\u00e3o das pastagens.<\/p>\n<p>No Brasil a maior parte dos estabelecimentos pecu\u00e1rios usa ainda o chamado \u0093pastoreio cont\u00ednuo\u0094. Este sistema \u00e9 o principal fator que contribui para a baixa produtividade (baixa capacidade de lota\u00e7\u00e3o) e a degrada\u00e7\u00e3o das pastagens. Entende-se por pastoreio cont\u00ednuo, o sistema onde o gado fica sobre uma mesma \u00e1rea de pastagem um per\u00edodo prolongado de tempo, de alguns dias a casos em que o gado fica permanentemente no mesmo pasto.<\/p>\n<p>O gado, mantido indefinidamente sobre a mesma \u00e1rea, ap\u00f3s alguns dias de perman\u00eancia, passa a consumir o capim antes que ele complete o seu desenvolvimento, n\u00e3o permitindo que as plantas refa\u00e7am periodicamente suas reservas, exaure a pastagem, diminuindo progressivamente a sua produtividade e vigor, com reflexos tamb\u00e9m na cobertura do solo, que ficando desprotegido, fica mais suscet\u00edvel aos efeitos da eros\u00e3o. Neste sistema, em alguns anos a pastagem se degrada, necessitando que se promova uma reforma para que ela recupere sua capacidade produtiva.<\/p>\n<p>Concluindo: n\u00e3o se pode pensar em pastagens sustent\u00e1veis, se o sistema de manejo utilizado \u00e9 o pastoreio cont\u00ednuo. Estima-se que de aproximadamente 100 milh\u00f5es de hectares de pastagens cultivadas do pa\u00eds, cerca da metade ou 50 milh\u00f5es de hectares, j\u00e1 estejam seriamente afetados pela degrada\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Este manejo extensivo, ainda predominante na grande maioria das propriedades brasileiras, obriga os produtores a reformarem suas pastagens periodicamente. Estima-se (S\u00d3RIO, 2000) que, nos \u00faltimos 25 anos, s\u00f3 os pecuaristas do Centro Oeste Brasileiro tenham reformado cerca de 50 milh\u00f5es de hectares de pastagens, a um custo aproximado de US$ 10 milh\u00f5es no per\u00edodo. Talvez seja este o motivo mais forte para a baixa rentabilidade de pecu\u00e1ria bovina extensiva em nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 semelhante tamb\u00e9m na Regi\u00e3o Amaz\u00f4nia: com a redu\u00e7\u00e3o da produtividade das pastagens pela degrada\u00e7\u00e3o, aumentam a demanda por novas \u00e1reas de pastagens e, conseq\u00fcentemente a press\u00e3o por amplia\u00e7\u00e3o da \u00e1rea utilizada, o que significa novos desmatamentos da floresta.<\/p>\n<p>No modelo predat\u00f3rio que predomina atualmente, a floresta \u00e9 suprimida para o estabelecimento de pastagens, que, mal manejadas, diminuem rapidamente sua capacidade produtiva, impelindo os empreendedores a novas investidas sobre a floresta para a manuten\u00e7\u00e3o e\/ou amplia\u00e7\u00e3o da atividade pecu\u00e1ria, num tr\u00e1gico ciclo que elimina grandes \u00e1reas da floresta amaz\u00f4nica todos os anos.<\/p>\n<p>Pastagem Ecol\u00f3gica: o caminho racional para a Pecu\u00e1ria Sustent\u00e1vel<\/p>\n<p>\u0093Pastagem Ecol\u00f3gica\u0094 foi uma terminologia que usei para designar a pastagem que obtive na Fazenda Ecol\u00f3gica (N. S\u00aa do Livramento \u0096 MT), atrav\u00e9s do \u0093Sistema de forma\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica de pastagens no cerrado\u0094, onde as pastagens foram formadas sem o uso de pr\u00e1ticas convencionais, como o desmatamento pr\u00e9vio, o fogo e ara\u00e7\u00e3o do solo.  A pastagem resultante deste processo mantinha t\u00e3o grande semelhan\u00e7a com o ecossistema original do cerrado, com manuten\u00e7\u00e3o das \u00e1rvores e de grande n\u00fameros de esp\u00e9cies nativas, que o adjetivo \u0093Ecol\u00f3gica\u0094 foi se impondo naturalmente. A partir de 1996, iniciamos a publica\u00e7\u00e3o dos resultados obtidos, sendo que a \u0093Pastagem Ecol\u00f3gica\u0094 j\u00e1 foi tema de grande n\u00famero de artigos e reportagens, al\u00e9m de quatro livros. (Ver bibliografia: MELADO, 1999; MELADO, 2000; MELADO, 2002; MELADO, 2003).<\/p>\n<p>A tecnologia da Pastagem Ecol\u00f3gica se ap\u00f3ia cientificamente no Sistema de Pastoreio Racional Voisin, que j\u00e1 \u00e9 considerado como o mais perfeito sistema de manejo de herb\u00edvoros a campo existente. (Ver bibliografia: VOISIN, 1974; VOISIN, 1979; ROMERO, 1994; ROMERO, 1.998; MELADO, 2003; SORIO, 2000; SORIO, 2003; PINHEIRO MACHADO, 2004;).<\/p>\n<p>A Pastagem Ecol\u00f3gica, que pode ser obtida facilmente no cerrado atrav\u00e9s de procedimentos exaustivamente detalhados no meu livro \u0093Manejo de Pastagem Ecol\u00f3gica &#8211; Um Conceito para o Terceiro Mil\u00eanio\u0094, pode tamb\u00e9m ser alcan\u00e7ada, em poucos anos, a partir de uma pastagem qualquer j\u00e1 formada, com a ado\u00e7\u00e3o dos seguintes requisitos:<\/p>\n<p>* Aplica\u00e7\u00e3o criteriosa, do Sistema de Pastoreio Racional Voisin;<br \/>\n* Busca por uma diversidade de forrageiras (gram\u00edneas e leguminosas);<br \/>\n* Arboriza\u00e7\u00e3o adequada das pastagens (com prefer\u00eancia por esp\u00e9cies nativas);<br \/>\n* Exclus\u00e3o do uso de aduba\u00e7\u00f5es qu\u00edmicas altamente sol\u00faveis, herbicidas, ro\u00e7adas sistem\u00e1ticas e o fogo.<\/p>\n<p>O Sistema de Pastoreio Racional Voisin, proposto por Andr\u00e9 Voisin em 1957, na primeira edi\u00e7\u00e3o francesa do seu livro \u0093Produtividade do Pasto\u0094, \u00e9 um sistema que permite um equil\u00edbrio positivo dos fatores Solo, Pasto e Gado, com cada fator tendo um efeito positivo sobre os outros dois. Neste sistema, a utiliza\u00e7\u00e3o da pastagem \u00e9 feita atrav\u00e9s de uma rota\u00e7\u00e3o racional, que proporciona o melhor aproveitamento poss\u00edvel das forrageiras, resultando num n\u00edvel de produtividade que chega a tr\u00eas vezes a alcan\u00e7ada pelo sistema extensivo na mesma pastagem.  O Pastoreio Voisin \u00e9 o principal componente da \u0093receita\u0094 para que uma pastagem se torne sustent\u00e1vel e mais produtiva. Este sistema, cujo detalhamento n\u00e3o cabe aqui, tem seu ponto fundamental no atendimento das necessidades fisiol\u00f3gicas do capim, ao mesmo tempo em que se procura atender \u00e0s do gado. Ao se fazer isto, automaticamente as necessidades do solo tamb\u00e9m s\u00e3o satisfeitas, proporcionando um equil\u00edbrio positivo do trin\u00f4mio solo-capim-gado.<\/p>\n<p>O conceito de Pastagem Ecol\u00f3gica vem sendo usado de forma crescente em diversas regi\u00f5es do pa\u00eds, principalmente na Regi\u00e3o Amaz\u00f4nica, como o melhor caminho para a obten\u00e7\u00e3o de uma pecu\u00e1ria sustent\u00e1vel e mais produtiva.<\/p>\n<p>A aplica\u00e7\u00e3o da Pastagem Ecol\u00f3gica na Regi\u00e3o Amaz\u00f4nica vem sendo estimulada h\u00e1 mais de cinco anos, por programas institucionais voltados para o desenvolvimento sustent\u00e1vel da regi\u00e3o.  As principais a\u00e7\u00f5es de fomento est\u00e3o sendo implementadas pelo Programa Fogo \u0096 Programa de Preven\u00e7\u00e3o e Controle dos Inc\u00eandios na Floresta Amaz\u00f4nica, mantido pela Coopera\u00e7\u00e3o Italiana e implementado em Mato Grosso pelas ONGs Instituto Floresta de Pesquisas e Desenvolvimento Sustent\u00e1vel, no Norte, e Associa\u00e7\u00e3o Agro-S\u00f3cio-Ambiental no Noroeste. Este programa vem divulgando a Pastagem Ecol\u00f3gica na regi\u00e3o, atrav\u00e9s de palestras, cursos pr\u00e1ticos e implanta\u00e7\u00e3o de unidades demonstrativas, cujos resultados positivos j\u00e1 se mostram muito significativos.<\/p>\n<p>A Pastagem Ecol\u00f3gica \u00e9 tamb\u00e9m adotada como alternativa para o desenvolvimento sustent\u00e1vel da pecu\u00e1ria por outros programas como:<\/p>\n<p>* Programa VidAmaz\u00f4nia \u0096 \u0093Promo\u00e7\u00e3o da Conserva\u00e7\u00e3o e Uso Sustent\u00e1vel da Biodiversidade nas Florestas de Fronteira do Noroeste de Mato Grosso\u0094, do GEF-PNUD, enquanto este programa foi implementado pelo Instituto Pr\u00f3-Natura;<br \/>\n* Programa Terra Sem Males, mantido pela entidade inglesa: CAFOD &#8211; Fundo Cat\u00f3lico de Apoio ao Desenvolvimento, em 15 munic\u00edpios da regi\u00e3o de Ji-Paran\u00e1 \u0096 RO;<br \/>\n* Projeto GESTAR Araguaia, da Secretaria de Pol\u00edticas para o Desenvolvimento Sustent\u00e1vel do Minist\u00e9rio do Meio Ambiente, que atua em 15 munic\u00edpios do Baixo Araguaia \u0096 MT;<br \/>\n* Projeto Cord\u00e3o de Mata, desenvolvido na Regi\u00e3o Norte do Rio de Janeiro, pelo Instituto de Pesquisas e Estudos Ambientais \u0096 Pr\u00f3-Natura.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da aplica\u00e7\u00e3o por programas institucionais, que atendem com prioridade produtores familiares e pequenos produtores, a alternativa da Pastagem Ecol\u00f3gica vem sendo usada de forma crescente por m\u00e9dios e grandes produtores de diversas partes do pa\u00eds atrav\u00e9s de minha consultoria direta.<\/p>\n<p>Em alguns casos, principalmente devido ao entusiasmo do propriet\u00e1rio, o projeto se transforma em Unidade Demonstrativa aberta \u00e0 visita\u00e7\u00e3o.  Um exemplo disso \u00e9 o projeto implantado na Fazenda do Sr. Rom\u00e9rio Martins Roncete, localizada em Guarapari \u0096 ES, no trevo da BR 101, quase no per\u00edmetro urbano da cidade.  A Fazenda, cujo nome foi em fun\u00e7\u00e3o do projeto, rebatizada como \u0093Fazenda Ecol\u00f3gica Rancho Novo\u0094, poder\u00e1 ser visitada, bastando um contato pr\u00e9vio com o propriet\u00e1rio atrav\u00e9s do telefone (27) 3261-2397.<\/p>\n<p>Principais publica\u00e7\u00f5es sobre a Pastagem Ecol\u00f3gica e Pastoreio Racional Voisin:<\/p>\n<p>MELADO, Jurandir. Forma\u00e7\u00e3o e Manejo de Pastagem Ecol\u00f3gica. Vi\u00e7osa, CPT, 1999. 70 p. (Manual do Videocurso de mesmo nome)<br \/>\nMELADO,  Jurandir. Manejo de Pastagem Ecol\u00f3gica \u0096 Um Conceito Para o Terceiro Mil\u00eanio.  Aprenda F\u00e1cil Editora, Vi\u00e7osa \u0096 MG, 2000. 224 p.<br \/>\nMELADO, Jurandir. Manejo Sustent\u00e1vel de Pastagem sem o uso do fogo. Embaixada da It\u00e1lia, Bras\u00edlia \u0096 DF, 2002.  60 p.<br \/>\nMELADO,  Jurandir. Pastoreio Racional Voisin: Fundamentos &#8211; Aplica\u00e7\u00f5es \u0096 Projetos.  Aprenda F\u00e1cil Editora, Vi\u00e7osa \u0096 MG, 2003. 300 p.<br \/>\nPINHEIRO MACHADO, Luiz Carlos. Pastoreio Racional Voisin: Tecnologia Agroecol\u00f3gica para o Terceiro Mil\u00eanio. Porto Alegre, Editora 5 Continentes. 2004. 314 p.<br \/>\nROMERO, Nilo Ferreira.  Alimente seus pastos com seus animais.   Gua\u00edba &#8211; RS, Livraria e Editora Agropecu\u00e1ria Ltda., 1994. 106 p.<br \/>\nROMERO, Nilo Ferreira. Manejo Fisiol\u00f3gico dos pastos nativos melhorados. Gua\u00edba \u0096  RS, Livraria e Editora Agropecu\u00e1ria Ltda. , 1998. 110 p.<br \/>\nSORIO Jr., Humberto. A Ci\u00eancia do Atraso: \u00cdndices de lota\u00e7\u00e3o da Pecu\u00e1ria do Rio Grande do Sul. Passo Fundo: Editora da UFPS, 2000. 160 p.<br \/>\nS\u00d3RIO JR., Humberto. Pastoreio Voisin: Teorias \u0096 Pr\u00e1ticas \u0096 Viv\u00eancias. Passo Fundo \u0096 RS, Editora da UPF, 2003. 400 p.<br \/>\nVOISIN, Andr\u00e9. Produtividade  do pasto.  S\u00e3o Paulo: Editora Mestre Jou. 1974.  520 p.<br \/>\nVOISIN, Andr\u00e9. Din\u00e2mica das pastagens: devemos lavrar nossas pastagens para melhor\u00e1-las?  S\u00e3o Paulo: Editora Mestre Jou.  1.979. 407 p.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jurandir Melado, engenheiro agr\u00f4nomo, prof\u00ba aposentado da UFMT e Consultor em Manejo Sustent\u00e1vel de Pastagens. juramel@terra.com.br A Pecu\u00e1ria brasileira \u00e9 uma das mais desenvolvidas do planeta. Recentemente o pa\u00eds galgou o primeiro lugar na exporta\u00e7\u00e3o de carne bovina e caminha rapidamente para a lideran\u00e7a tamb\u00e9m na exporta\u00e7\u00e3o de leite. 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