{"id":3083,"date":"2012-08-21T15:12:57","date_gmt":"2012-08-21T18:12:57","guid":{"rendered":"https:\/\/crea-mt.org.br\/portal\/cuiaba-cidade-vende\/"},"modified":"2012-08-21T15:12:57","modified_gmt":"2012-08-21T18:12:57","slug":"cuiaba-cidade-vende","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/cuiaba-cidade-vende\/","title":{"rendered":"CUIAB\u00c1, CIDADE VENDE!"},"content":{"rendered":"<p><B>Ricardo S. Castor \u00e9 mestre em est\u00e9tica da arquitetura pela Universidade de Bras\u00edlia, doutorando pela Universidade de S\u00e3o Paulo e professor de teoria da arquitetura e do urbanismo da UFMT. castor@cpd.ufmt.br<\/b><\/p>\n<p><i>Capital da polui\u00e7\u00e3o visual<\/i><\/p>\n<p>\tCentro geod\u00e9sico da propaganda predat\u00f3ria. Meca do marketing descart\u00e1vel. Eldorado da fei\u00fara publicit\u00e1ria. A julgar pelas recentes transforma\u00e7\u00f5es de nossa cidade, tais t\u00edtulos lhe cairiam bem. Foi-se o tempo em que o verde dominava por aqui. \u00c1rvores, hoje, s\u00e3o muito bem toleradas, desde que n\u00e3o interfiram, \u00e9 claro, na visibilidade dos an\u00fancios comerciais que brotam feito praga ao longo das principais avenidas de Cuiab\u00e1. Refiro-me \u00e0queles gigantescos pain\u00e9is publicit\u00e1rios que se multiplicam a olhos vistos pelas rotat\u00f3rias e canteiros centrais da cidade, constituindo-se, alguns, em espa\u00e7osos televisores a c\u00e9u aberto. Ao transformarem o espa\u00e7o urbano num gigantesco home-theater, bombardeiam incessantemente a popula\u00e7\u00e3o com sua diversificada e lucrativa programa\u00e7\u00e3o, toda feita de intervalos comerciais. Aos telespectadores resta um consolo, a entrada \u00e9 franca. Obviamente, a conta \u00e9 paga por empresas particulares aos cofres da prefeitura municipal que v\u00ea nisso uma leg\u00edtima fonte de arrecada\u00e7\u00e3o. Ganham os comerciantes, ganha a prefeitura. E quanto aos demais? Ora, que problemas o restante da popula\u00e7\u00e3o veria nesses inofensivos outdoors que para funcionar n\u00e3o requerem nada mais que um m\u00e1ximo de visibilidade? O problema \u00e9 que para vender o espa\u00e7o p\u00fablico de nossa cidade, deve-se antes garantir a remo\u00e7\u00e3o de alguns obst\u00e1culos que poderiam obstru\u00ed-lo visualmente. \u00c1rvores, por exemplo.<\/p>\n<p>\tNesse sentido, a guerra atualmente travada no canteiro central da avenida Fernando Correa da Costa \u00e9 das mais ilustrativas. Temos visto, ali, um verdadeiro ex\u00e9rcito publicit\u00e1rio com seu desgovernado arsenal de pilares e placas met\u00e1licas dos mais diferentes formatos, tamanhos, cores e estilos lutando desesperadamente entre si pela aten\u00e7\u00e3o de motoristas e pedestres. Mas nem s\u00f3 de sujeira se faz um canteiro, v\u00ea-se tamb\u00e9m algumas pequenas \u00e1rvores perdidas entre o lixo mercadol\u00f3gico, impedidas de crescer, multiplicar e embelezar a cidade, contrapondo-se ao ritmo invari\u00e1vel dos postes de ilumina\u00e7\u00e3o. O fen\u00f4meno se repete em v\u00e1rias outras vias de Cuiab\u00e1. Aqueles que transitam pela Miguel Sutil, Mato Grosso ou avenida do CPA, quase todos portanto, saber\u00e3o do que estou falando.<\/p>\n<p>\tN\u00e3o pretendo sugerir que \u00e1rvores estejam sendo sacrificadas ou indevidamente podadas em fun\u00e7\u00e3o dos an\u00fancios que disputam seu espa\u00e7o a\u00e9reo, mas o fato \u00e9 que copas frondosas e out-doors n\u00e3o deveriam dividir um mesmo canteiro. Ou bem se admira o verde das primeiras ou as mercadorias dos segundos, a sombra das primeiras ou os reflexos dos segundos. Talvez por essa raz\u00e3o, existe um decreto na legisla\u00e7\u00e3o urbana de Cuiab\u00e1 (Decreto 2.754 de 03\/05\/93) regulamentando a implanta\u00e7\u00e3o de an\u00fancios publicit\u00e1rios em canteiros, rotat\u00f3rias e demais \u00e1reas p\u00fablicas da cidade. Esse decreto representou um reconhecimento da preced\u00eancia da arboriza\u00e7\u00e3o p\u00fablica sobre os interesses comerciais de uma minoria, motivo pelo qual n\u00e3o vem sendo cumprido. Desde quando? At\u00e9 quando?<\/p>\n<p>\tComo se v\u00ea, o problema \u00e9 s\u00e9rio e afeta a cidade em v\u00e1rios aspectos. Al\u00e9m da quest\u00e3o funcional determinada pela escassez de \u00e1reas verdes e de sombreamento, o excesso de an\u00fancios publicit\u00e1rios constitui uma das formas mais perniciosas de polui\u00e7\u00e3o visual, com danos consider\u00e1veis sobre a imagem da cidade e a auto-estima de seus habitantes. Nesse particular, os outdoors n\u00e3o est\u00e3o sozinhos, j\u00e1 que uma s\u00e9rie de elementos menores, como placas e luminosos mal posicionados e dimensionados dep\u00f5e da mesma maneira contra est\u00e9tica da nossa capital. Um dos exemplos mais gritantes desse tipo de excesso encontra-se na mesma Fernando Correa. O que deveria ser uma simples passarela de pedestres foi convertida em algo bem mais vantajoso: um extenso letreiro comercial. \u00c9 verdade, n\u00e3o poderia haver posi\u00e7\u00e3o mais estrat\u00e9gica para se pendurar propaganda. Mais uma vez, ganha a prefeitura, ganha a empresa ali ao lado. Quem perde? Dois \u00fanicos grupos: o dos pedestres que transitam sobre a passarela contemplando extasiados o fundo dos letreiros, e o dos motoristas que transitam sob a mesma. Trocou-se, \u00e0 revelia destes \u00faltimos, a leveza inerente a uma delicada passarela met\u00e1lica pela qualidade oposta daquilo que hoje a encobre.<\/p>\n<p>\tReportagem recente da Gazeta (09\/02\/06) chamou a aten\u00e7\u00e3o para o fato dos pedestres estarem evitando transitar por esse \u0093elefante branco\u0094, sem divulgar, surpreendentemente, a verdadeira causa do fen\u00f4meno. Se os caminhantes reclamam da escurid\u00e3o noturna da passarela a culpa n\u00e3o \u00e9 da falta de ilumina\u00e7\u00e3o p\u00fablica mas dos obst\u00e1culos que a obstruem. Do que adiantaria iluminar internamente a passagem se quem passa n\u00e3o se sente vigiado pelos que est\u00e3o embaixo? Enquanto os criminosos puderem se esconder por tr\u00e1s daqueles luminosos publicit\u00e1rios, de nada adiantar\u00e1 iluminar o caminho de suas v\u00edtimas.<\/p>\n<p>\tToca-se, aqui, em um dos fundamentos mais negligenciados da disciplina urban\u00edstica, aquele relacionado \u00e0 qualidade formal dos espa\u00e7os constru\u00eddos, tantas vezes traduzida na mera busca por efeitos ornamentais gratuitos ou enfeites superficiais ditados pela moda. A preocupa\u00e7\u00e3o com a beleza dos diferentes cen\u00e1rios que comp\u00f5e uma cidade \u00e9 das mais antigas na hist\u00f3ria, pois dela dependem a consci\u00eancia hist\u00f3rica e a identidade cultural de toda a coletividade. Compreende-se, assim, que a est\u00e9tica urbana deva ser valorizada na exata medida de seu alcance social, isto \u00e9, como um dos fatores determinantes da qualidade ambiental necess\u00e1ria \u00e0 liga\u00e7\u00e3o afetiva de um povo com sua terra. N\u00e3o \u00e9 preciso viajar tanto para perceber que Cuiab\u00e1, nesse quesito, est\u00e1 bastante atrasada em rela\u00e7\u00e3o a outras capitais brasileiras. Ali\u00e1s, n\u00e3o \u00e9 preciso viajar para lugar algum. Basta comparar a situa\u00e7\u00e3o geral da cidade com a do seu pr\u00f3prio centro hist\u00f3rico, para aprender, com os profissionais do IPHAN-MT, o quanto \u00e9 importante disciplinar a utiliza\u00e7\u00e3o de placas e letreiros como primeiro passo para uma imagem urbana apraz\u00edvel a todos. O passo seguinte seria estender esse tipo de controle a toda cidade, adaptando-os as condi\u00e7\u00f5es de cada setor e ao bem-estar f\u00edsico e visual dos seus respectivos moradores.<br \/>\n_________________<\/p>\n<p><I>Artigo inserido em 14\/02\/2006<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ricardo S. 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