{"id":3080,"date":"2012-08-21T15:12:57","date_gmt":"2012-08-21T18:12:57","guid":{"rendered":"https:\/\/crea-mt.org.br\/portal\/socorro-a-camada-superficial-do-solo\/"},"modified":"2012-08-21T15:12:57","modified_gmt":"2012-08-21T18:12:57","slug":"socorro-a-camada-superficial-do-solo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/socorro-a-camada-superficial-do-solo\/","title":{"rendered":"Socorro \u00e0 Camada Superficial do Solo"},"content":{"rendered":"<p>Conservar intacta a camada superficial de solos, evitando revolv\u00ea-la ou remov\u00ea-la: no \u00e2mbito da Geologia de Engenharia e da Agronomia talvez n\u00e3o haja recomenda\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica mais simples e importante do que essa para orientar as atividades humanas no meio urbano e no meio rural.<\/p>\n<p>Ainda que de forma resumida e superficial, cabe, de in\u00edcio, esclarecer uma quest\u00e3o terminol\u00f3gica. Os ge\u00f3logos de engenharia e os agr\u00f4nomos usam termos diferentes para classificar as camadas dos solos tropicais. Os primeiros adotam a seguinte s\u00e9rie para o que denominam de camadas: solo org\u00e2nico (camada fina e rica em mat\u00e9ria org\u00e2nica superficial, que possui de um a alguns dec\u00edmetros); solo superficial (camada bastante afetada pelo intemperismo e pelos processos de lateriza\u00e7\u00e3o e pedog\u00eanese, cuja espessura varia de 0,5 m a 2 m); solo saprol\u00edtico ou de altera\u00e7\u00e3o de rocha (camada de solo com minerais pouco alterados quimicamente e que guarda v\u00e1rias fei\u00e7\u00f5es herdadas da rocha original, com espessuras extremamente vari\u00e1veis, desde dec\u00edmetros at\u00e9 mais de uma dezena de metros); finalmente, com profundidade praticamente ilimitada, rocha pouco alterada ou s\u00e3. <\/p>\n<p>J\u00e1 os agr\u00f4nomos, que em vez de camada usam o termo horizonte, classificam a mesma seq\u00fc\u00eancia com as seguintes denomina\u00e7\u00f5es: horizonte A, horizonte B, horizonte C e rocha, agregando \u00e0s propriedades descritas caracter\u00edsticas pr\u00f3prias do comportamento agron\u00f4mico destes solos.<\/p>\n<p>Em regra, a camada de solo superficial (horizonte B agron\u00f4mico) tem uma composi\u00e7\u00e3o bem mais argilosa do que as camadas inferiores (solo saprol\u00edtico \u0096 horizonte C agron\u00f4mico), especialmente considerando o perfil de solos t\u00edpico do embasamento geol\u00f3gico cristalino (rochas magm\u00e1ticas e metam\u00f3rficas), o que lhe confere uma coes\u00e3o entre part\u00edculas muito maior, tornando-a, por conseguinte, mais resistente aos processos erosivos de superf\u00edcie. Vale lembrar que a argila \u00e9 o tipo de solo formado por minerais com a granulometria mais fina (o di\u00e2metro das part\u00edculas \u00e9 inferior a 0,005 mm), o que lhe confere uma propriedade altamente ligante, ou seja, a argila d\u00e1 coes\u00e3o aos gr\u00e3os minerais formadores dos solos.  <\/p>\n<p>\u00c9 interessante a explica\u00e7\u00e3o do motivo pelo qual h\u00e1 mais minerais argilosos na proximidade da superf\u00edcie dos terrenos. Os minerais das rochas prim\u00e1rias (magm\u00e1ticas ou metam\u00f3rficas) se formaram em condi\u00e7\u00f5es extremas de temperatura e press\u00e3o. Ou seja, s\u00e3o ambientalmente compat\u00edveis com essas condi\u00e7\u00f5es extremas e, portanto, francamente desarm\u00f4nicos com as condi\u00e7\u00f5es ambientais hoje vigentes na superf\u00edcie do planeta. O processo de altera\u00e7\u00e3o de uma rocha \u00e9, assim, um processo que caminha em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de novos minerais, mais compat\u00edveis com o meio ambiente da superf\u00edcie. Desses novos minerais, os mais equilibrados com esse novo ambiente s\u00e3o os argilosos.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do intemperismo (desagrega\u00e7\u00e3o e altera\u00e7\u00e3o f\u00edsico-qu\u00edmica dos minerais da rocha), dois outros fen\u00f4menos s\u00e3o importantes na forma\u00e7\u00e3o dos solos superficiais e influem em suas caracter\u00edsticas. A pedog\u00eanese, que envolve altera\u00e7\u00e3o bioqu\u00edmica dos minerais, e a lateriza\u00e7\u00e3o, que implica a migra\u00e7\u00e3o de \u00edons no interior do solo. Ambos os fen\u00f4menos contribuem para a produ\u00e7\u00e3o de minerais argilosos e para a cimenta\u00e7\u00e3o das part\u00edculas por diversas classes de \u00f3xidos, o que concorre tamb\u00e9m para a maior liga\u00e7\u00e3o entre as part\u00edculas desses solos. Gra\u00e7as a esses fatores, os solos superficiais (horizonte B agron\u00f4mico) de rochas cristalinas e de muitas rochas sedimentares chegam a ser 30 vezes mais argilosos do que os solos das camadas inferiores e at\u00e9 100 vezes mais resistentes \u00e0 eros\u00e3o.<\/p>\n<p>No meio rural h\u00e1 um problema adicional grave: o revolvimento cont\u00ednuo dos solos superficiais e a n\u00e3o ado\u00e7\u00e3o de t\u00e9cnicas conservacionistas de cultivo, entre outros procedimentos, fazem com que os principais elementos nutritivos desses solos sejam lixiviados (carreados por percola\u00e7\u00e3o interna de \u00e1gua) e removidos, tornando-os progressivamente est\u00e9reis para a agricultura. Tal defici\u00eancia em parte s\u00f3 pode ser compensada mediante expressivo gasto com fertilizantes, corretivos e defensivos agr\u00edcolas. Entre as t\u00e9cnicas conservacionistas de cultivo, destacam-se o emprego de curvas de n\u00edvel, o plantio direto, a rota\u00e7\u00e3o e a combina\u00e7\u00e3o de culturas.<\/p>\n<p>Do ponto de vista econ\u00f4mico, os processos erosivos em \u00e1reas rurais e urbanas brasileiras acarretam preju\u00edzos da ordem de bilh\u00f5es de d\u00f3lares ao ano para o pa\u00eds. A perda m\u00e9dia de solos por eros\u00e3o superficial nas \u00e1reas rurais utilizadas para atividades agropecu\u00e1rias no Brasil \u00e9 estimada em 25 toneladas de solo por hectare em um ano. Isso significa a perda de algo pr\u00f3ximo a um bilh\u00e3o de toneladas de solo por ano, o que, para tornar o desastre ainda maior, promove intenso assoreamento de cursos d\u0092\u00e1gua, lagos e v\u00e1rzeas.<\/p>\n<p>Na \u00e1rea urbana o problema n\u00e3o \u00e9 menor. Na regi\u00e3o metropolitana de S\u00e3o Paulo, por exemplo, a perda m\u00e9dia de solos por eros\u00e3o \u00e9 estimada entre 10 e 15 toneladas de solo por hectare ao ano, levando \u00e0 libera\u00e7\u00e3o de at\u00e9 3,5 milh\u00f5es m3\/ano de sedimentos, que ir\u00e3o assorear a rede de drenagem natural e constru\u00edda. Esse fen\u00f4meno \u00e9 hoje respons\u00e1vel por enormes problemas para a infra-estrutura urbana, como a degrada\u00e7\u00e3o de \u00e1reas residenciais perif\u00e9ricas e o agravamento do porte e da intensidade das enchentes. <\/p>\n<p>Nas cidades, o principal fator de remo\u00e7\u00e3o da camada superficial de solos est\u00e1 na danosa cultura da terraplenagem, implementada de forma intensa, extensa e despropositada nas frentes de expans\u00e3o urbana, em geral removendo por completo os solos superficiais e expondo \u00e0 eros\u00e3o os solos mais sens\u00edveis das camadas inferiores. As extensas terraplenagens s\u00e3o parte de um pregui\u00e7oso e irrespons\u00e1vel procedimento tecnol\u00f3gico pelo qual se busca adaptar a natureza \u00e0s disposi\u00e7\u00f5es de projetos-padr\u00e3o, ao inv\u00e9s de, criativamente, adapt\u00e1-los \u00e0s condi\u00e7\u00f5es naturais (no caso, o relevo) das \u00e1reas onde s\u00e3o implantados.<\/p>\n<p>Os preju\u00edzos para a sociedade brasileira advindos da remo\u00e7\u00e3o e do revolvimento de solos superficiais no meio rural e urbano s\u00e3o de tal magnitude, que est\u00e3o a exigir uma verdadeira cruzada tecnol\u00f3gica em favor de sua preserva\u00e7\u00e3o. Tal campanha dever\u00e1 ser promovida pelo poder p\u00fablico, em todos os n\u00edveis, e pelos empreendimentos privados diretamente envolvidos com o problema. Mas, certamente, a primeira iniciativa caber\u00e1 ao meio t\u00e9cnico-cient\u00edfico do pa\u00eds.<\/p>\n<p><b>\u00c1lvaro Rodrigues dos Santos<\/b> &#8211; Ge\u00f3logo, ex-diretor da Divis\u00e3o de Geologia e de Planejamento e Gest\u00e3o  do IPT; consultor em Geologia de Engenharia, Geotecnia e Meio Ambiente; autor dos livros \u0093Geologia de Engenharia: Conceitos, M\u00e9todo e Pr\u00e1tica\u0094 e \u0093A Grande Barreira da Serra do Mar\u0094<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Conservar intacta a camada superficial de solos, evitando revolv\u00ea-la ou remov\u00ea-la: no \u00e2mbito da Geologia de Engenharia e da Agronomia talvez n\u00e3o haja recomenda\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica mais simples e importante do que essa para orientar as atividades humanas no meio urbano e no meio rural. 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