{"id":10097,"date":"2012-08-21T15:12:57","date_gmt":"2012-08-21T18:12:57","guid":{"rendered":"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/crise-ecologica-global-2\/"},"modified":"2012-08-21T15:12:57","modified_gmt":"2012-08-21T18:12:57","slug":"crise-ecologica-global-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/crise-ecologica-global-2\/","title":{"rendered":"Crise ecol\u00f3gica global"},"content":{"rendered":"<p>Apesar do significativo impacto dos movimentos ambientalistas na agenda internacional, deflagrada oficialmente na d\u00e9cada de 70 com a Confer\u00eancia de Estocolmo (1970), estendendo-se gradualmente nos anos subseq\u00fcentes at\u00e9 a realiza\u00e7\u00e3o da Confer\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento \u0096 Confer\u00eancia do Rio (1992), pode-se ainda constatar um d\u00e9ficit de pol\u00edticas ambientais de car\u00e1ter global e baixa internaliza\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00f5es \u0091ecologicamente corretas\u0092 no plano individual e coletivo, face a crise ecol\u00f3gica sem precedentes nesta virada de mil\u00eanio. Apresenta-se ainda hegem\u00f4nica a cren\u00e7a no progresso material e expans\u00e3o ilimitada da capacidade produtiva do homem \u0096 l\u00f3gica que proporciona a livre mercantiliza\u00e7\u00e3o de bens e valores produzidos socialmente, constituindo o substrato ideol\u00f3gico da raz\u00e3o instrumental na cultura moderna. De modo paradoxal, a desintegra\u00e7\u00e3o do socialismo sovi\u00e9tico, as exig\u00eancias de reestrutura\u00e7\u00e3o do capitalismo e os limites da explora\u00e7\u00e3o do meio ambiente, puseram fim \u00e0s utopias centradas no desenvolvimento industrial e o ideal de felicidade que este anunciava.<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 como desconhecer a gravidade dos problemas ambientais globais, notadamente o aquecimento da terra, a deple\u00e7\u00e3o da camada de oz\u00f4nio, perda de diversidade biol\u00f3gica, desertifica\u00e7\u00e3o, polui\u00e7\u00e3o dos mares, enfim, um conjunto de fen\u00f4menos ambientais transnacionais. O impasse ecol\u00f3gico coloca de forma radical, a necessidade inadi\u00e1vel de se repensar as rela\u00e7\u00f5es entre as sociedades humanas e a natureza, diante dos processos de reestrutura\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, institucional e econ\u00f4mica que vem se configurando em escala planet\u00e1ria; cujas conseq\u00fc\u00eancias s\u00e3o decisivas para os rumos da humanidade na aurora do terceiro mil\u00eanio. A complexidade e incertezas do mundo contempor\u00e2neo, sobretudo a partir da d\u00e9cada de 1980, com a acelera\u00e7\u00e3o da globaliza\u00e7\u00e3o, anunciam a indesejada guinada para o caos, caso n\u00e3o se estabele\u00e7a uma contratualidade ecopol\u00edtica mundial, um necess\u00e1rio comprometimento com o futuro, onde possam emergir padr\u00f5es de sociabilidade em bases sustent\u00e1veis.<\/p>\n<p>A irrup\u00e7\u00e3o da crise ecol\u00f3gica global no \u00faltimo quartel do s\u00e9culo XX, rompendo fronteiras nacionais e transbordando em global commons \u0096 notadamente os problemas derivados das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas \u0096 o chamado aquecimento global (global warming), dentre uma cadeia complexa de fen\u00f4menos intensificados pela revolu\u00e7\u00e3o industrial, desde fins do s\u00e9culo XVIII, e a crescente escassez de recursos estrat\u00e9gicos para a humanidade \u0096 como exemplo a \u00e1gua; tornou-se uma quest\u00e3o absolutamente fundamental que interroga as for\u00e7as da sociedade moderna e desafia estruturas e processos de governan\u00e7a \u0096 do local ao global, diante do futuro sombrio e incerto, mas tamb\u00e9m ut\u00f3pico que anuncia o novo s\u00e9culo. O espectro do comunismo com a queda do muro de Berlim e a derrocada do regime sovi\u00e9tico, deu lugar ao espectro da desordem global da biosfera, cuja percep\u00e7\u00e3o na d\u00e9cada de 1970, trouxe a consci\u00eancia da necessidade de gerenciamento de problemas que afligem a todos indistintamente, ainda que com graus distintos de intensidade e impactos nas sociedades.<\/p>\n<p>As \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX entraram para a hist\u00f3ria, como per\u00edodo marcado por transforma\u00e7\u00f5es profundas e radicais na din\u00e2mica do capitalismo mundial, acentuando as contradi\u00e7\u00f5es de um modelo de desenvolvimento sob a \u00f3tica do fordismo-fossilista e do liberal-produtivismo que, ao promover a acumula\u00e7\u00e3o de riquezas; produz desigualdades sociais alarmantes entre indiv\u00edduos e na\u00e7\u00f5es, e consome vorazmente a base de recursos naturais existentes no planeta. O impasse ecol\u00f3gico contempor\u00e2neo representa a face dram\u00e1tica do esgotamento desse modelo, fundado na racionalidade instrumental, que gera padr\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o e consumo insustent\u00e1veis e contribui para uma crise de civiliza\u00e7\u00e3o sem precedentes. Os efeitos desestruturadores da l\u00f3gica hegem\u00f4nica do capital sobre a natureza, transformada e recriada, na perspectiva da mercantiliza\u00e7\u00e3o e apropria\u00e7\u00e3o privada de bens (fruto do progresso material, dom\u00ednio da t\u00e9cnica e da ci\u00eancia); traz em seu bojo a pobreza e a destrui\u00e7\u00e3o em escala progressiva dos ecossistemas terrestres,<br \/>\ncomo produtos da abissal assimetria entre povos nos seus diferentes est\u00e1gios de desenvolvimento.<\/p>\n<p>O dom\u00ednio da raz\u00e3o instrumental, sobretudo nos per\u00edodos subseq\u00fcentes \u00e0 dupla revolu\u00e7\u00e3o (francesa e inglesa), moldou o processo civilizat\u00f3rio, sob a din\u00e2mica da acumula\u00e7\u00e3o capitalista, intensificando os movimentos de expans\u00e3o territorial e subordina\u00e7\u00e3o das formas de trabalho, dentro da l\u00f3gica de \u0091valoriza\u00e7\u00e3o\u0092 do capital\u0092. O modelo de desenvolvimento baseado em combust\u00edveis f\u00f3sseis, que conforma a voracidade energ\u00e9tica intensificada na segunda metade do s\u00e9culo XX, com o boom das economias industrializadas (capitalistas e socialistas), apesar da prosperidade econ\u00f4mica trazida para muitos; tem se mostrado insustent\u00e1vel para a sobreviv\u00eancia do planeta como um todo. Neste sentido, a crise atual representa nada menos que o esgotamento de um estilo de desenvolvimento que tem se revelado ecologicamente depredador, socialmente perverso e politicamente injusto.<\/p>\n<p>No s\u00e9culo XXI, n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel minimizar os efeitos da crise ecol\u00f3gica, inserida dramaticamente na globaliza\u00e7\u00e3o. A \u0093escassez ecol\u00f3gica\u0094 retrata a dramaticidade e extens\u00e3o da crise da sociedade moderna. A finitude dos recursos naturais, algo menosprezado pela economia neocl\u00e1ssica, constitui-se num dado de realidade que n\u00e3o pode ser ignorado. A base ecossist\u00eamica, que depende de tempo e condi\u00e7\u00f5es org\u00e2nicas favor\u00e1veis para sua renova\u00e7\u00e3o, manifesta sobrecarga e responde trazendo amea\u00e7as para a reprodu\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies como um todo. Contudo, parece haver uma certa lacuna nos estudos sobre os determinantes da crise socioambiental, que explicariam a insustentabilidade do estilo atual de desenvolvimento, sem relacionar e analisar de forma suficiente as implica\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, sociais e pol\u00edticas do processo de globaliza\u00e7\u00e3o, mais precisamente da intensifica\u00e7\u00e3o recente, que descortina novos espa\u00e7os para valoriza\u00e7\u00e3o do capital, acentuando as desigualdades e estabelecendo novos conflitos territoriais ou \u0093distribui\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica\u0094 de conflitos.<\/p>\n<p>Com efeito, a crise ecol\u00f3gica contempor\u00e2nea apresenta-se como um dos sinais mais vis\u00edveis da crise de civiliza\u00e7\u00e3o, impregnada e impregnando as dimens\u00f5es pol\u00edticas, econ\u00f4micas, sociais, culturais, religiosas e \u00e9ticas; assumindo uma import\u00e2ncia crucial no projeto da cr\u00edtica da modernidade e no horizonte da p\u00f3s-modernidade.<\/p>\n<p><b>Alberto Teixeira da Silva <\/b>(alberts@amazon.com.br) <b>&#8211;<\/b><br \/>\nSoci\u00f3logo (UFPA), Mestre em planejamento do desenvolvimento (NAEA\/UFPA), Doutor em ci\u00eancias Sociais (UNICAMP). Professor adjunto da Universidade Federal do Par\u00e1. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Apesar do significativo impacto dos movimentos ambientalistas na agenda internacional, deflagrada oficialmente na d\u00e9cada de 70 com a Confer\u00eancia de Estocolmo (1970), estendendo-se gradualmente nos anos subseq\u00fcentes at\u00e9 a realiza\u00e7\u00e3o da Confer\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento \u0096 Confer\u00eancia do Rio (1992), pode-se ainda constatar um d\u00e9ficit de pol\u00edticas ambientais de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-10097","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10097","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10097"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10097\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10097"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10097"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10097"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}