{"id":10085,"date":"2012-08-21T15:12:57","date_gmt":"2012-08-21T18:12:57","guid":{"rendered":"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/a-%c2%93unica-via%c2%94-possivel-na-terra-3\/"},"modified":"2012-08-21T15:12:57","modified_gmt":"2012-08-21T18:12:57","slug":"a-%c2%93unica-via%c2%94-possivel-na-terra-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/a-%c2%93unica-via%c2%94-possivel-na-terra-3\/","title":{"rendered":"A \u0093\u00fanica via\u0094 poss\u00edvel na Terra"},"content":{"rendered":"<p><b>A \u0093\u00daNICA VIA\u0094 SOCIOAMBIENTAL POSS\u00cdVEL NA TERRA<\/b> <\/p>\n<p>\u0093A morte anunciada\u0094 do planeta n\u00e3o vai acontecer, j\u00e1 est\u00e1 acontecendo. No contexto desse processo catastr\u00f3fico em curso, n\u00e3o deveria existir muito espa\u00e7o para discutir \u0093tipos de vias para o futuro da humanidade\u0094, pois existe uma s\u00f3 via poss\u00edvel: a sustentabilidade eco-social ou s\u00f3cio-ambiental de todos na Terra.<\/p>\n<p>Duas recentes cat\u00e1strofes eco-sociais, o tsunami nos litorais pobres da \u00c1sia e os fura\u00e7\u00f5es que atingiram a bela e surpreendentemente tamb\u00e9m pobre New Orleans, no pa\u00eds mais rico, depredador e consumista da Terra s\u00e3o fatos evidentes desse processo j\u00e1 irrevers\u00edvel. Igualmente, fazem parte desse processo de morte a perda permanente da biodiversidade e dos recursos gen\u00e9ticos ocasionada pela derrubada das florestas naturais, a perda dos solos f\u00e9rteis, a contamina\u00e7\u00e3o dos rios, dos mares e do ar, bem como tantos outros processos e fen\u00f4menos de destrui\u00e7\u00e3o das diversas formas de vida na Terra.<\/p>\n<p>Tudo isso j\u00e1 foi dito e escrito muitas vezes e de diferentes formas, muitas chamadas e clamores t\u00eam sido feitos e muitos manifestos t\u00eam sido lan\u00e7ados em todos os cantos da Terra, entretanto ainda n\u00e3o se consegue deter esse processo de produ\u00e7\u00e3o e consumo dos recursos naturais que fatalmente est\u00e1 destruindo o planeta. Talvez muito j\u00e1 foi escrito sobre \u0093o que fazer?\u0094, entretanto sobre  \u0093como fazer?\u0094 e \u0093com quem fazer?\u0094, que s\u00e3o perguntas elementares, ainda n\u00e3o temos respostas satisfat\u00f3rias.<\/p>\n<p>Zigmunt Bauman (2000) afirma que sabemos o que devemos fazer, entretanto n\u00e3o sabemos como e com quem faz\u00ea-lo. O autor refere-se, numa perspectiva pol\u00edtica mais ampla, \u00e0 dificuldade de atuar num mundo globalizado em m\u00e3os de poderosas corpora\u00e7\u00f5es que geraram seres individualistas e solit\u00e1rios, no qual o \u0093triplo veneno da inseguran\u00e7a, da incerteza e da instabilidade\u0094 n\u00e3o permite estruturar processos socialmente organizados e unificados para lutar contra a pobreza e a desigualdade social. Pode-se agregar que o mesmo acontece na luta para preservar as condi\u00e7\u00f5es ambientais de vida.   No dizer de Bauman, o mundo de hoje \u00e9 produto do neoliberalismo, \u0093da economia pol\u00edtica da incerteza\u0094 ou seja, \u0093p\u00f4r regras para p\u00f4r fim a todas as regras\u0094. Essa \u00e9 evidentemente a finalidade e o problema essencial do neoliberalismo, ter a liberdade absoluta de explorar o ser humano e de depredar, produzir e consumir os recursos naturais sem controle nem racionalidade social.<\/p>\n<p>J\u00e1 Michael L\u00f6wy no seu trabalho Ecologia e Socialismo (2005) e numa perspectiva mais eco-social ou s\u00f3cio-ambiental, tamb\u00e9m necessariamente pol\u00edtica, explica que o \u0093ecossocialismo\u0094 \u00e9 uma corrente de pensamento e a\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica que se desenvolveu nos \u00faltimos 30 anos com os aportes de diversos autores de linhas pol\u00edticas n\u00e3o homog\u00eaneas. Caracteriza-se fundamentalmente por uma posi\u00e7\u00e3o cr\u00edtica ao produtivismo, tanto aquele da l\u00f3gica do mercado e do lucro capitalista, bem como do autoritarismo burocr\u00e1tico vivido nos pa\u00edses do \u0093socialismo real\u0094.  Para o autor, o produtivismo nos dois casos \u00e9 incompat\u00edvel com as exig\u00eancias de preserva\u00e7\u00e3o do meio ambiente natural.<\/p>\n<p>No seu trabalho, L\u00f6wy cita a James O\u0092Connor, um dos mais importantes representantes desta corrente de pensamento, e quem define como ecossocialistas \u0094as teorias e movimentos que aspiram a subordinar o valor de troca ao valor de uso, organizando a produ\u00e7\u00e3o em fun\u00e7\u00e3o das necessidades sociais e das exig\u00eancias da prote\u00e7\u00e3o do meio ambiente. O seu objetivo, um socialismo ecol\u00f3gico, seria uma sociedade ecologicamente racional fundada no controle democr\u00e1tico, na igualdade social, e na predomin\u00e2ncia do valor de uso\u0094. A esta defini\u00e7\u00e3o, L\u00f6wy agrega que \u0093tal sociedade sup\u00f5e a propriedade coletiva dos meios de produ\u00e7\u00e3o, um planejamento democr\u00e1tico que permita a sociedade definir os objetivos da produ\u00e7\u00e3o e dos investimentos, e uma nova estrutura tecnol\u00f3gica das for\u00e7as produtivas\u0094.<\/p>\n<p>Como pode ser verificado, os dois autores prop\u00f5em um planejamento global da produ\u00e7\u00e3o e consumo de modo que toda a sociedade participe de seus benef\u00edcios, que fa\u00e7a parte do controle e fiscaliza\u00e7\u00e3o dos recursos ambientais de propriedade coletiva e em que se privilegie o valor de uso dos produtos para o bem-estar social e n\u00e3o seu valor de troca para o lucro individual.  \u00c9 por isso que se afirma que o combate para salvar o meio ambiente e pela conserva\u00e7\u00e3o dos recursos naturais \u00e9 necessariamente o combate por uma mudan\u00e7a radical de civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>L\u00f6wy assinala que o \u0093racioc\u00ednio ecossocialista\u0094, se sustenta em dois argumentos essenciais: 1) \u0093O modo de produ\u00e7\u00e3o e consumo atual dos pa\u00edses capitalistas avan\u00e7ados, fundado numa l\u00f3gica de acumula\u00e7\u00e3o ilimitada (do capital, dos lucros, das mercadorias) de esgotamento dos recursos, de consumo ostentat\u00f3rio, e da destrui\u00e7\u00e3o acelerada do meio ambiente, n\u00e3o pode, de modo algum, ser expandido para o conjunto do planeta, sob pena de uma crise ecol\u00f3gica maior\u0094. O autor agrega que generalizar para o conjunto da popula\u00e7\u00e3o mundial o consumo m\u00e9dio de energia dos Estados Unidos, significa que as reservas conhecidas de petr\u00f3leo seriam esgotadas em dezenove dias. 2) A expans\u00e3o da civiliza\u00e7\u00e3o fundada na economia de mercado \u0096 mesmo sob a atual forma brutalmente desigual \u0096 amea\u00e7a a pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia da esp\u00e9cie humana. A preserva\u00e7\u00e3o do meio natural \u00e9, portanto, imperativo essencial da vida de todos.<\/p>\n<p>Esses dois argumentos da corrente de pensamento que se pode denominar como a \u0093Via Ecossocialista\u0094 s\u00e3o incontest\u00e1veis perante tantas evid\u00eancias e cat\u00e1strofes s\u00f3cio-ambientais.  Nesse sentido o pr\u00f3prio L\u00f6wy assinala que \u0093\u00e9 preciso substituir a microrracionalidade do lucro por uma macrorracionalidade social e ecol\u00f3gica, o que exige uma verdadeira mudan\u00e7a de civiliza\u00e7\u00e3o. Isso \u00e9 imposs\u00edvel sem uma profunda reorienta\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, que vise a substitui\u00e7\u00e3o das atuais fontes de energia por outras, n\u00e3o poluentes e renov\u00e1veis, tais como a energia e\u00f3lica ou solar\u0094. Pode-se agregar que tamb\u00e9m a bio-energia \u00e9 uma alternativa em constru\u00e7\u00e3o e o Brasil um dos atores principais desse processo.<\/p>\n<p>Entretanto, todas essas e outras iniciativas sobre o que fazer, n\u00e3o poder\u00e3o ser implementadas enquanto n\u00e3o se criem as condi\u00e7\u00f5es para torn\u00e1-las realidade. Ainda as perguntas de como fazer e com quem fazer n\u00e3o est\u00e3o respondidas e esse \u00e9 o grande desafio. A seguir se formulam algumas outras perguntas e se assinalam certas linhas de trabalho hoje em discuss\u00e3o:<\/p>\n<p>Como mudar os valores coletivos que motivam o consumo de ostenta\u00e7\u00e3o como uma forma de realiza\u00e7\u00e3o pessoal e ocasionam a depreda\u00e7\u00e3o dos recursos naturais e o desperd\u00edcio? Como deter a id\u00e9ia do carro individual como meio de prest\u00edgio e centro da vida dos indiv\u00edduos? Como lutar contra as grandes corpora\u00e7\u00f5es produtoras de bens de consumo se a m\u00eddia lhes pertence e promovem cotidianamente a compra de novos modelos de seus produtos e servi\u00e7os? Como fazer entender e fazer assumir que o consumo dos bens sup\u00e9rfluos realizado principalmente pelos ricos os torna ambientalmente mais caros, destruidores e respons\u00e1veis pela contamina\u00e7\u00e3o e depreda\u00e7\u00e3o que os pobres? Como construir uma consci\u00eancia coletiva capaz de gerar um movimento global planet\u00e1rio a favor do meio ambiente como um patrim\u00f4nio para a vida de todos?<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00e3o perguntas de f\u00e1cil resposta.  Entretanto e sem desconhecer a prioridade das justas reivindica\u00e7\u00f5es das popula\u00e7\u00f5es pobres para melhorar as suas condi\u00e7\u00f5es de vida e, a pesar da flexibiliza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es trabalhistas que impedem a organiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, da incerteza no trabalho e no futuro, da individualiza\u00e7\u00e3o das sociedades, da produ\u00e7\u00e3o robotizada sem controle social, etc, h\u00e1 propostas de interesse em discuss\u00e3o que podem ser assumidas como bandeiras de luta de partidos e de organiza\u00e7\u00f5es sociais progressistas e ambientalistas:<\/p>\n<p>1 &#8211; Em primeiro lugar, cabe assumir ao Estado, aos partidos pol\u00edticos e \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es sociais a iniciativa de projetos e a\u00e7\u00f5es para deter o consumo predat\u00f3rio e recusar o desperd\u00edcio. As pol\u00edticas p\u00fablicas devem ser o mecanismo fundamental de dissemina\u00e7\u00e3o de id\u00e9ias e premissas na constru\u00e7\u00e3o de novos valores, ressaltando o \u0093Ser\u0094 sobre o \u0093Ter\u0094.  Algumas eco-taxas ou eco-impostos devem ser criados, observando uma l\u00f3gica social igualit\u00e1ria, de forma que paguem os predadores e poluidores e n\u00e3o toda a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>2 &#8211; Educar a sociedade para ampliar o tempo de uso de todos os bens com o fim de diminuir o consumo de novos produtos. Haver\u00e1 que assumir sem preconceitos o uso da roupa fora da moda, conviver mais tempo com os moveis e utens\u00edlios dom\u00e9sticos usados e cuidar mais o carro para que dure mais tempo sem contaminar o meio ambiente, etc. Tudo isso s\u00e3o formas de diminuir o consumo dos recursos naturais e da degrada\u00e7\u00e3o ambiental da Terra.<\/p>\n<p>3 &#8211; Fortalecer a educa\u00e7\u00e3o ambiental formal e n\u00e3o formal apoiada com os recursos das eco-taxas, considerando que uma estrat\u00e9gia importante \u00e9 educar as crian\u00e7as nas suas escolas para conscientizar atrav\u00e9s delas a toda fam\u00edlia e a sociedade na prote\u00e7\u00e3o do meio ambiente e contra o consumo sup\u00e9rfluo. Igualmente, as popula\u00e7\u00f5es urbanas dever\u00e3o educar-se para reduzir o consumo e diminuir o impacto no meio ambiente e as popula\u00e7\u00f5es tradicionais do campo e das florestas devem ser capacitadas e fortalecidas ampliando seus conhecimentos sobre o manejo dos recursos naturais.<\/p>\n<p>4 &#8211; Lutar a favor de sistemas de transporte coletivos eficientes, com pre\u00e7os acess\u00edveis e n\u00e3o contaminadores como alternativa ao carro individual. Essa iniciativa \u00e9 uma forma de diminuir o consumo de petr\u00f3leo e de mat\u00e9rias primas, de descongestionar o espa\u00e7o p\u00fablico e as vias e de despoluir as cidades.<\/p>\n<p>5 &#8211; Evitar o deslocamento obrigat\u00f3rio de todos os trabalhadores quando suas atividades e trabalhos podem ser desenvolvidos nas suas resid\u00eancias. \u00c9 uma forma de racionalizar o uso do espa\u00e7o constru\u00eddo e de evitar congestionamentos nas estradas e nas vias das cidades, nas institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e nos estabelecimentos, al\u00e9m de diminuir o consumo de combust\u00edveis e sua contamina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>6 &#8211; Fortalecer a pesquisa aplicada na busca de novas tecnologias para elevar a potencialidade sustent\u00e1vel dos recursos naturais, de forma a acrescentar o valor agregado dos produtos, diminuir a depend\u00eancia da exporta\u00e7\u00e3o de mat\u00e9rias primas e evitar a expans\u00e3o da fronteira agr\u00edcola sobre as \u00e1reas de florestas nativas.<\/p>\n<p>7 &#8211; Manejar mais intensivamente as \u00e1reas com potencial agr\u00edcola e reflorestar com esp\u00e9cies madeireiras de alto rendimento aquelas \u00e1reas recentemente desmatadas. Assim se pode diminuir a press\u00e3o sobre as florestas primarias e preserv\u00e1-las enquanto a pesquisa avan\u00e7a na identifica\u00e7\u00e3o do manejo sustent\u00e1vel da biodiversidade e dos recursos gen\u00e9ticos.<\/p>\n<p>8 &#8211; Dinamizar as pol\u00edticas de cria\u00e7\u00e3o e implementa\u00e7\u00e3o de Unidades de Conserva\u00e7\u00e3o, de prote\u00e7\u00e3o integral e de uso sustent\u00e1vel, como a \u00fanica forma de garantir a perman\u00eancia das \u00e1reas priorit\u00e1rias para prote\u00e7\u00e3o em virtude da sua biodiversidade e dos recursos gen\u00e9ticos.<\/p>\n<p>9 &#8211; Avan\u00e7ar decididamente na pesquisa, no fortalecimento e no uso de fontes de energia alternativas sustent\u00e1veis, como a e\u00f3lica, a solar e os bio-combust\u00edveis, de forma a diminuir o uso de energias contaminantes e os impactos sobre os recursos naturais, incluindo a constru\u00e7\u00e3o de hidroel\u00e9tricas.<\/p>\n<p>Todas essas iniciativas, entre outras, constituem hoje uma premente necessidade para evitar que a cat\u00e1strofe em processo aconte\u00e7a ainda mais r\u00e1pido. Na realidade, para atenuar a destrui\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es ambientais e contribuir para a sustentabilidade da vida na Terra essas e outras medidas s\u00e3o a \u0093\u00danica Via Poss\u00edvel\u0094.<\/p>\n<p><b>Fernando Negret &#8211;<\/b> Consultor Meio Ambiente PNUD &#8211; MMA;<br \/>\n<b>Ana Cl\u00e1udia Negret &#8211;<\/b> Bi\u00f3loga;<br \/>\n<b>Juan Felipe Negret &#8211;<\/b> Educador Ambiental.<\/p>\n<p>*Bauman, Zygmunt. EM BUSCA DA POL\u00cdTICA. Jorge Zahar Editor. Rio de Janeiro. 2000.<\/p>\n<p>*L\u00f6wy, Michael. ECOLOGIA E SOCIALISMO. Quest\u00f5es de Nossa \u00c9poca. Cortez Editora. S\u00e3o Paulo. 2005<\/p>\n<p>* O\u0092Connor, James. NATURAL CAUSES. ESSAYS IN ECOLOGICAL MARXISM. Nova York. The Guilford Press. 1998.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u0093\u00daNICA VIA\u0094 SOCIOAMBIENTAL POSS\u00cdVEL NA TERRA \u0093A morte anunciada\u0094 do planeta n\u00e3o vai acontecer, j\u00e1 est\u00e1 acontecendo. 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