{"id":10018,"date":"2012-08-21T15:12:57","date_gmt":"2012-08-21T18:12:57","guid":{"rendered":"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/quando-a-modernizacao-ameaca-o-moderno-3\/"},"modified":"2012-08-21T15:12:57","modified_gmt":"2012-08-21T18:12:57","slug":"quando-a-modernizacao-ameaca-o-moderno-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.crea-mt.org.br\/portal\/quando-a-modernizacao-ameaca-o-moderno-3\/","title":{"rendered":"Quando a moderniza\u00e7\u00e3o amea\u00e7a o moderno"},"content":{"rendered":"<p><i>Primeira casa modernista de Mato Grosso passa por reforma sob risco de descaracteriza\u00e7\u00e3o arquitet\u00f4nica <\/i><\/p>\n<p>Pairando sobre um tapume de madeira vulgar, a ondulante marquise agita-se continuamente aos olhos dos que transitam pela Pra\u00e7a Santos Dumont. Em v\u00e3o&#8230; Pedestres e motoristas j\u00e1 n\u00e3o reagem ao apelo visual da fachada que abriu um cap\u00edtulo importante na hist\u00f3ria cultural da cidade, mas, talvez por conservar-se t\u00e3o moderna ao longo dos anos, carece do devido reconhecimento hist\u00f3rico. Trata-se do im\u00f3vel onde residiu a fam\u00edlia do ex-governador Jos\u00e9 Garcia Neto, constru\u00edda em 1953 pela primeira empresa de constru\u00e7\u00e3o civil da cidade, a Construtora Com\u00e9rcio, conforme projeto do arquiteto Donato de Mello J\u00fanior, do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Com seu tapete voador de concreto, a casa Garcia Neto pode ser considerada a primeira obra de arquitetura a trazer a leveza da linguagem modernista ao ent\u00e3o indiviso territ\u00f3rio mato-grossense. Depois dela viriam a Escola Industrial de Cuiab\u00e1 (atual IFMT), o Pal\u00e1cio Alencastro, o edif\u00edcio Maria Joaquina e outros \u00edcones da moderna arquitetura regional, incluindo as escolas projetadas por Oscar Niemeyer para Campo Grande e Corumb\u00e1 (1952-54), tidas como precursoras do modernismo sul-mato-grossense. N\u00e3o \u00e9 a preced\u00eancia cronol\u00f3gica, por si s\u00f3, que confere dignidade \u00e0 pequena resid\u00eancia cuiabana. Sua preserva\u00e7\u00e3o justifica-se, antes, como testemunho da sintonia da sociedade mato-grossense com o clima cultural que tomava conta do pa\u00eds e desembocaria na constru\u00e7\u00e3o de sua nova capital, em 1960.<\/p>\n<p>\u00c0 maneira dos pal\u00e1cios de Bras\u00edlia, as primeiras obras modernistas de Mato Grosso concorreram para constru\u00e7\u00e3o de uma identidade cultural, fundada no equil\u00edbrio entre valores locais e universais, progresso t\u00e9cnico e exuber\u00e2ncia natural. A resid\u00eancia Garcia Neto ilustra como poucas essa postura equilibrada diante da hist\u00f3ria e da natureza envolvente. Constru\u00edda defronte ao antigo \u0093bosque da cidade\u0094, a casa integra-se \u00e0 natureza externa sem deixar de afirmar-se como objeto aut\u00f4nomo. Em que pese \u00e0 volumetria abstrata e ao emprego materiais industrializados, o espa\u00e7o interno abre-se para o verde, para a ilumina\u00e7\u00e3o e a ventila\u00e7\u00e3o naturais, de modo que o recorte na laje acima do jardim de inverno n\u00e3o se reduz a recurso estil\u00edstico.<\/p>\n<p>Atualmente cercada de constru\u00e7\u00f5es estranhas ao clima e ao passado cuiabano, a cinq\u00fcenten\u00e1ria resid\u00eancia conforma-se a ambos. Compensa o emprego da famigerada telha de fibrocimento, amiga do calor, recorrendo a solu\u00e7\u00f5es consagradas pela tradi\u00e7\u00e3o. O rendilhado de madeira que domina a fachada principal, por exemplo, uma heran\u00e7a da arquitetura mu\u00e7ulmana frequente nos casar\u00f5es coloniais de Cuiab\u00e1, filtra radia\u00e7\u00e3o solar e olhares indiscretos. Sem espa\u00e7o aqui para comentar outras inova\u00e7\u00f5es introduzidas por essa moradia, como o teto borboleta, uma releitura do telhado tradicional creditada a Le Corbusier, registre-se apenas a necessidade de preservar o pouco que resta do projeto original: basicamente, sua volumetria externa.<\/p>\n<p>Informados na \u00faltima hora a respeito do significado hist\u00f3rico da obra, os arquitetos paulistas encarregados de convert\u00ea-la num badalado espa\u00e7o de lazer demonstraram sensibilidade, dispondo-se a rever o plano inicial de intervir na fachada existente. Na falta de prote\u00e7\u00e3o legal, a conserva\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio da arquitetura moderna mato-grossense continua \u00e0 merc\u00ea da consci\u00eancia (ou da aus\u00eancia dela) de cada um. A maioria das obras tem sido descaracterizada por n\u00e3o contar com os cuidados de um profissional especializado. Tome-se o exemplo da Rodovi\u00e1ria de Cuiab\u00e1 (1979), hoje tomada de quiosques, bordaduras cer\u00e2micas e outros \u0093enfeites\u0094 incompat\u00edveis com o partido original; ou os jogos de cores berrantes que \u0093d\u00e3o vida\u0094 aos Col\u00e9gios Nilo P\u00f3voas e Presidente M\u00e9dice, para citar apenas tr\u00eas antigos cart\u00f5es postais da cidade. Muitos outros, a come\u00e7ar pela resid\u00eancia Garcia Neto, tamb\u00e9m reclamam reconhecimento e medidas preservacionistas condizentes com seu pioneirismo.<\/p>\n<p>Professor Ricardo S. Castor<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Primeira casa modernista de Mato Grosso passa por reforma sob risco de descaracteriza\u00e7\u00e3o arquitet\u00f4nica Pairando sobre um tapume de madeira vulgar, a ondulante marquise agita-se continuamente aos olhos dos que transitam pela Pra\u00e7a Santos Dumont. 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